Boteco: 10 cervejas de 5 Estados brasileiros

por Marcelo Costa

Abrindo uma nova sequencia de cervejarias com a Urbana, que abre o passeio com a Busanfe Blanche, uma Witbier feita com trigo e aveia produzida no Bier Hub, em Socorro, e lançada em janeiro de 2017 (agora já no terceiro lote) que apresenta uma coloração amarelo palha (time Hoegaarden) com creme branco de boa formação e retenção. No nariz, as notas clássicas do estilo desfilam a céu aberto: sugestões de coentro, limão e casca de laranja (que não aparecem no rótulo) brilham num conjunto levemente adocicado. Na boca, bastante laranja e doçura cítrica no primeiro toque seguido de leve sugestão de coentro e muita, mas muita refrescancia. A textura é suave, quase cremosa, e o amargor é praticamente inexistente abrindo as portas para um conjunto delicioso e refrescante, que finaliza doce e cítrico com presença de levedura. No retrogosto, leve anis, hortelã e cítrico. Muito boa.

A segunda Urbana, Cuxi Cuxi, surgiu visando comemorar o primeiro aniversário do Bier Hub, em Socorro, interior de São Paulo, e é uma Mexican Lager, variação do estilo cervejeiro mais popular do mundo com um toque de Vienna Lager, estilo injetado no histórico mexicano por alemães expatriados do final do século 19. Trata-se de uma cerveja entre o dourado e o âmbar com creme branco de média formação e rápida dispersão. No nariz, aroma maltado delicado com leve remissão a caramelo (como uma boa Vienna) e frutado cítrico suave, mas perceptível. Há, ainda, percepção de biscoito. Na boca, a sensação é de uma Vienna Lager bem mais suave, mas com caramelo marcante desde o primeiro toque. A textura é quase suave e um tiquinho metálica. O amargor é baixo (14 IBUs) e dai pra frente surge uma cerveja muito mais para o estilo Vienna Lager do que para o North American Lager (onde está encaixada). No final, doçura e refrescancia. Já o retrogosto traz leve herbal, caramelo e biscoito. Boa.

Do interior de São Paulo para Recife, Pernambuco, com a segunda Ekäut a passar por aqui. Depois da American IPA agora é a vez da Munich Helles, uma cerveja que utiliza lúpulo Saaz e exibe coloração dourada com creme branco de média formação e permanência. No nariz, malte dominando com sugestão de biscoito, cereais e casca de pão sobre uma base discreta de caramelo e leve floral. Na boca, doçura caramelada bem suave com leve percepção de cereais no primeiro toque. A textura é levemente metálica no começo, depois fica cremosinha. Já o conjunto aposta na leveza do estilo, com um amargor bastante baixo (18 IBUs) abrindo portas para um conjunto refrescante, que seguirá por toda a vida nessa toada de caramelo, biscoito e floral suave. O final é maltadinho e levemente amargo. No retrogosto, pão, biscoito, cereais e leve caramelo.

A próxima Ekäut da sequencia é a APA 1817, que homenageia a Revolução Pernambucana de 1817, único movimento separatista que ultrapassou a fase conspiratória e atingiu o processo revolucionário de tomada do poder no período colonial e que surgiu como retaliação aos altos gastos da corte real no Rio. A repressão foi sangrenta, mas os três meses que revolucionários ficaram no poder conseguiram abalar a confiança na construção do império sonhado por Dom João VI. Voltando aos tempos atuais, esta Ekäut APA 1817 passa por dry hopping com lúpulos Centennial e Cascade e exibe uma coloração âmbar com creme bege espesso e clarinho, quase branco, de boa formação e retenção. No aroma, suavidade de notas cítricas sobre uma base doce e discreta. Na boca, mais doçura do que cítrico no primeiro toque seguido de um frescor delicioso e de um amargor moderado, 40 IBUs pontuais, que abrem a porta para um conjunto refrescante e na medida entre doçura, amargor, cítrico e herbal. O final é amarguinho, suave. No retrogosto, herbal discreto, leve cítrico e refrescancia. A melhor das três Ekäut que bebi.

De Pernambuco para Alagoas com a primeira de duas Hop Bros produzidas na MRS Cervejas do Nordeste, em Murici, cidade de 28 mil habitantes a cerca de uma hora da capital Maceió. É a Heritage, uma Witbier mais pra Blue Moon do que para Hoegaarden cuja receita une cevada, trigo, aveia e especiarias (semente de coentro mais casca de laranja e de limão siciliano). De coloração dourada levemente turva com creme branco de boa formação e retenção, a Hop Bros Heritage exibe um aroma com notas cítricas destacando o limão siciliano, que remete a algo de anis, sobre uma base suave de malte. Na boca, especiarias chamam a responsa pra si logo no primeiro toque, com limão, laranja e coentro chegando juntos. A textura é levemente picante com um tiquinho de metálico e o amargor, baixinho. Dai pra frente, um conjunto agradável e refrescante, que finaliza de maneira cítrica. No retrogosto, limão siciliano e anis.

A segunda da Hop Bros é a Brotherhood, uma American Pale Ale que recebe dry-hopping com os lúpulos Citra e Cascade e apresenta uma coloração âmbar alaranjada com creme bege claro de boa formação e permanência. No nariz, a lupulagem sobressai (palmas para o dry-hopping) oferecendo frutado cítrico (acerola, pêssego, toranja) e leve herbal (pinho) sobre uma base de caramelo. Há, ainda, alguma coisa que remete a café (?!). Na boca, mais equilíbrio entre malte (doçura) e lúpulo (amargor) num conjunto que oferece caramelo, frutado e, novamente, café, tudo junto no primeiro toque. Na sequencia, o amargor é pontual ficando dentro dos 30 IBUs adiantados pela casa. A textura é levemente picante, novamente metálica (como a anterior), e depois cremosa. Dai pra frente, um conjunto refrescante cuja percepção estranha de café o valoriza. No final, amargor suave e caramelo. Já no retrogosto, café, caramelo e pêssego.

De Alagos para o Rio Grande do Sul, mas precisamente Porto Alegre, com a primeira da cervejaria Baldhead a passar por aqui: Guavanilla Sour, segundo rótulo da linha BaldLab, que prevê lotes únicos de receitas experimentais. No caso desta Berliner Weisse há adição de polpa natural de goiaba branca e favos de baunilha na maturação. O resultado é uma cerveja que lembra bastante um suco de caju na coloração, com creme branco de boa formação e rápida dispersão. No nariz, porém, a goiaba dá as cartas, encantadoramente, com a baunilha surgindo discretamente na base. A acidez tradicional do estilo fica em segundo plano, o que é bem interessante. Na boca, leve goiaba e acidez chegam juntas e sutis no primeiro toque, ampliando-se logo na sequencia num capricho de sabores. A textura é levemente frisante e acética num conjunto que se baliza entre a pungência da fruta e a aridez do estilo, com a baunilha, deliciosa, surgindo com maciez no final, incrível. No retrogosto, goiaba, acidez leve e baunilha. Excelente.

A segunda gaúcha da Baldhead também integra o projeto BaldLab e também é uma Sour, que aqui recebe adição de polpa de pitaya, “uma fruta de cactos nativa do México, rica em fibras, minerais, vitamina A e antioxidantes”, avisa o rótulo. De coloração rosada cristalina tal qual uma soda e creme branco avermelhado de média formação e rápida dispersão, a Baldhead Pitaya Sour exibe um aroma radical de Berliner Weisse antecipando acidez e azedume, mas trazendo ainda salgado e leve percepção da fruta. Na boca, surpresa: acidez e salgado médios, mas impactantes no primeiro toque, seguidos de doçura frutada, azedume médio e salgado (onde deveria estar o amargor). A textura é frisante e o salgado intenso sobre a língua traz leve adstringência. Dai pra frente, um conjunto altamente respeitável que não só mantém o padrão da Guavanilla como leva o bebedor a outra experiência extrema, diferente. No final, frutado e salgado e azedume suave. No retrogosto, frutado, adstringência suave, salgado e acidez leve. Uou!

Do Rio Grande do Sul para Goiânia com a primeira de duas Colombinas, da Cervejaria Goyaz, a Braveza, uma Belgian Blond com adição de extrato de jabuticaba e levedura de espumante, criada para comemorar os 30 anos do Castro’s Park Hotel, na capital goiana. De coloração dourada com leve turbidez a frio e creme branco de média formação e retenção, a Colombina Braveza exibe um aroma que destaca os cereais sugerindo biscoito e casca de pão francês com um toque cítrico discreto e doçura suave, mas nada que denote presença de jabuticaba. Na boca, leve condimentado e um azedinho (será a jabuticaba?) chegam no primeiro toque, depois seguido de suave doçura e algo que remete a caju. A textura é leve e o amargor praticamente inexistente. Dai pra frente surge uma cerveja bem leve e refrescante, que não aparenta os 7.2% de álcool que carrega, muito menos a jabuticaba (e lembra caju), mas é refrescante e saborosa. No final, azedinho e maltado. No retrogosto, caju e refrescancia. Boa.

A segunda Colombina é a Poema au Chocolat, uma colaborativa entre a Cervejaria Goyaz e a Poema Gourmet, especializada em brigadeiros e confeitaria. Na receita desta Imperial Stout (mais para Stout que para Imperial), cevada, rapadura moça branca, extrato de cacau, extrato de baru, lúpulo e levedura. Na taça, um liquido marrom bem escuro, quase preto, exibe um creme bege de boa formação e média retenção. No nariz, sugestão de baunilha e ameixa em calda em destaque com leve presença de café e baru em segundo plano. Na boca, castanha tostada (provavelmente trazida pelo baru) e baunilha no primeiro toque seguida de calda de ameixa, chocolate e café. A textura é inicialmente picante (dos 8% de álcool) e vai ficando sedosa enquanto o amargor, 45 IBUs, desaparece frente a doçura. Segue-se um conjunto que chega a surpreender, com bastante doçura (chocolate e baunilha), mas nada enjoativo. No final, mais doçuras e frutas escuras, que também retornam no retrogosto (sugestão de baunilha lá em cima!). Bem boa!

Balanço
Entre as melhores witbiers do Brasil estão a Seasons BasiliCow, a Bodebrown Blanche de Curitiba e a Synergy Snow Wit. Essa excelente Urbana Busanfe Blanche se junta ao grupo agora. A segunda Urbana, Cuxi Cuxi, é do estilo Mexican Lager, quase que uma Vienna sem tanto corpo e potência, mas saborosa. Curti esse exemplar. Já a Ekäut Munich Helles é um bom exemplar brasileiro de um estilo alemão facilmente encontrado no Brasil no original. Boa, mas não sedutora. Melhor é a Ekäut APA 1817, um belo e equilibrado exemplar de American Pale Ale. A alagoana Hop Bros Heritage é uma interessante Witbier com bastante característica de limão siciliano. Refrescante e agradável. Melhor é a Hop Bros Brotherhood, uma APA que trouxe consigo, inadvertidamente, café. E ficou interessante. A Baldhead Guavanilla Sour é um baita exemplar de Sour vinda do Sul do Brasil, e é uma pena que ela esteja na linha experimental da casa, limitada, pois deveria fazer parte do cardápio anual, de tão boa que é. Mantendo a excelente pegada, a Baldhead Pitaya Sour segue um caminho mais arisco que a Guavanilla, e acerta tanto quanto num conjunto caprichadíssimo. Agora em Goiânia com a Colombina Braveza, uma Belgian Blond Ale com jabuticaba e levedura de espumante, que não lembra nem um, nem outro, mas soa agradável no paladar. Já a Colombina Poema au Chocolat é um Imperial Stout bem discreta para o estilo, com muita doçura (baunilha e chocolate), mas muita personalidade. A melhor de toda a linha da Colombina que eu já experimentei.

Urbana Busanfe Blanche
– Estilo: Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3.49/5

Urbana Cuxi Cuxi
– Estilo: Mexican Lager
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.2%
– Nota: 3.09/5

Ekäut Munich Helles
– Estilo: Munich Helles
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.7%
– Nota: 2.89/5

Ekäut APA 1817
– Estilo: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.4%
– Nota: 3.29/5

Hop Bros Heritage
– Estilo: Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.2%
– Nota: 3.00/5

Hop Bros Brotherhood
– Estilo: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.6%
– Nota: 3.29/5

Baldhead Guavanilla Sour
– Estilo: Berliner Weisse
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 3.8%
– Nota: 3.61/5

Baldhead Pitaya Sour
– Estilo: Berliner Weisse
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 3.8%
– Nota: 3.61/5

Colombina Braveza
– Estilo: Belgian Blond
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.2%
– Nota: 3.35/5

Colombina Poema au Chocolat
– Estilo: Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3.49/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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