Boteco: 11 IPAs nacionais

por Marcelo Costa

Abrindo uma série de IPAs nacionais por Ribeirão Preto, interior de São Paulo, representado pela Lund India Pale Ale, uma cerveja de coloração âmbar caramelada com creme bege claro de ótima formação e média alta retenção. No nariz, notas cítricas e herbais suaves combinam com a percepção de doçura de malte numa paleta que traz algo de caramelo, maracujá, pinho e casca de laranja. Na boca, os lúpulos se sobressaem ao malte no primeiro toque com herbal (pinho) em destaque. Na sequencia, pitadas cítricas, doçura tímida e amargor marcante, 55 IBUs corajosos. A textura é cremosa com leve picância e, dai pra frente, surge uma cerveja que não se pretende norte-americana, mas também não se encaixa tanto no estilo English IPA, estando mais para uma IPA do Atlântico, com características das duas escolas, mas pendendo mais ao lado USA. O final começa doce e finaliza amarguinho. No retrogosto, amargor e pinho. Boa.

Do interior de São Paulo para Itoupavazinha, bairro de Blumenau, com a Hemmer Blumenau IPA, uma cerveja de coloração âmbar caramelada (produzida na fábrica da Cervejaria Blumenau) mais clara que a Lund anterior, mas também com creme bege clarinho de ótima formação e média alta retenção. No nariz, um aroma menos “agressivo” do que o da Lund combina doçura caramelada com notas cítricas suaves sugerindo tangerina, lichia e maracujá. Na boca, reprise do que o aroma adianta, com um conjunto mais suave do que o da Lund: cítrico bem suave (tangerina agradável) com uma doçura de caramelo deliciosa no primeiro toque. O conjunto que se segue mantém esse padrão equilibrado de delicadeza, e ainda que sejam os mesmos 55 IBUs da Lund, o amargor é suave e limpo. A textura é cremosa, sem uma picância que chame a atenção. Dai pra frente, um conjunto com muitas influências europeias, ainda que o lúpulo bata ponto deixando nuances deliciosas pelo caminho. No final, doçura e amargor, na medida. Já o retrogosto é bem delicado, com leve tangerina e caramelo. Boa.

Ainda em Santa Catarina, mas agora em Araquari, cidade de pouco mais de 30 mil habitantes a meia hora de Joinville e uma hora e meia de Blumenau, que abriga a cervejaria Dom Haus, que marca presença aqui com a Dom Casmurro, uma American IPA de coloração âmbar translucida com creme bege beeem clarinho, quase branco, de excelente formação e longa permanência. No nariz, bastante percepção de malte com caramelo se sobressaindo inclusive sobre as notas cítricas suaves derivadas da lupulagem. Na boca, doçura de caramelo novamente à frente, mas com frutado cítrico mais presente desde o primeiro toque, ainda que a pegada inglesa seja a mais óbvia das três da sequencia. A textura é quase cremosa e levemente picante. Os 52 IBUs são amaciados pela doçura, mas ganham força na extensão, ainda que assim mesmo sejam bem comportados. O final é caramelado e levemente amargo. No retrogosto, caramelo e um leve herbal (pinho) carregado de amargor. Boa.

A quarta IPA da série é a primeira em que a cervejaria identifica os lúpulos que utiliza em sua receita (Nugget, Citra, Centennial e Amarillo) além de cevada e trigo. Trata-se da Bruder India Pale Ale, de Ipatinga, Minas Gerais, uma cerveja de coloração âmbar translucida com bege bem clarinho de boa formação e média retenção. No nariz, uma reprise das quatro anteriores com bastante doçura caramelada derivada do malte dominando o olfato sobre uma base bem suave de lúpulos cítricos e herbais, mas com uma paleta mais aberta do que nas anteriores, deixando perceber tangerina, maracujá e manga discretas. Na boca, caramelo à frente dando as cartas com uma leve percepção cítrica e herbal chegando junto no primeiro toque, mas não afetando tanto o paladar. Na textura é suave e levemente picante enquanto o amargor é limpo (65 IBUs bem comportados). Dai pra frente uma IPA do Atlântico bem caprichada, com aceno cítrico e herbal interessantes em meio a doçura. No final, amarguinho leve. No retrogosto, mais amargor suave, herbal e caramelo. Boa também.

A quinta India Pale Ale da série vem de Jaboatão dos Guararapes, na região metropolitana de Recife, em Pernambuco. Trata-se de uma DeBron Bier American IPA com uma coloração âmbar acobreada mais turva que as duas anteriores e com creme bege de boa formação e média alta retenção. No nariz, é a primeira em que o lúpulo está em pé de igualdade com o malte – não chega a sobressair, mas notas cítricas e herbais se destacam tanto quanto o caramelo numa paleta aromática bem agradável. Na boca, porém, a novela se repete com malte caramelo em destaque e frutado cítrico sutil no primeiro toque. A textura é quase cremosa e levemente picante e o amargor, o mais alto até aqui com 70 IBUs, é sossegado, bastante envolto no equilíbrio da receita que, daqui pra frente, se balizará entre a doçura do malte e o frutado cítrico e o herbal dos lúpulos. No final, mais doçura do que amargor. Já o retrogosto traz um tracinho de amargor em meio a caramelo dominando e herbal e cítrico suaves.

A sexta IPA é uma American vinda de Lauro Muller, interior de Santa Catarina, casa da Lohn Bier que já passou por aqui com sua linha Catharina Sour, com suas duas Carvoeiras e também com sua Barley Wine Barrel Aged. Esta Lohn Bier IPA Serra do Rio do Rastro é uma cerveja de coloração dourada com turbidez leve a frio, creme bege clarinho quase branco de excelente formação e média alta retenção. No nariz, eis a primeira desta série em que o lúpulo vence o malte com facilidade se sobrepondo desde o início com frutado cítrico (abacaxi, manga e laranja) e herbal (pinho) sobre uma base de caramelo. Na boca, frutas cítricas sugestionando doçura no primeiro toque seguido de herbal e amargor convincente, 54 IBUs presentes. A textura é picante no início e depois fica cremosa. Dai pra frente, uma comportada American IPA, mas uma American IPA. O final é melado e levemente amargo. No retrogosto, mais herbal do que cítrico e leve caramelo. Boa.

A sétima IPA é um exemplar artesanal de Rio Pardo, interior do Rio Grande do Sul, produzido pela Pritsch & Klein. Trata-se da Put*IPAriu, uma Single Hop IPA cuja receita combina os maltes Pilsen, Munich e Munich Light com o lúpulo Centennial. De coloração âmbar levemente turva com creme bege claro de excelente formação e longa retenção, a Pritsch & Klein Put*IPAriu exibe um aroma com bastante presença de malte, mas também fácil percepção do lúpulo made in USA. A combinação resulta numa paleta aromática que sugere tanto biscoito quanto manga, caramelo e floral. Na boca, doçura de caramelo bem suave com cítrico encantador (pitanga) e floral marcam o primeiro toque seguido de um amargor comportado, 70 IBUs que parecem 50. A textura é levemente picante e cremosa num conjunto que tenta equilibrar, com sucesso, malte e lúpulo, tendendo mais a English, ainda que tenha referencias de American IPA. No final, amarguinho cítrico. No retrogosto, resina leve, amargor cítrico e biscoito. Boa!

A oitava vem de Santo André, na grande São Paulo, e é a primeira cerveja da Madalena a ser registrada por aqui (as demais estão todas no meu Untappd): Double IPA, uma versão mais robusta da boa IPA da casa. De coloração âmbar caramelada com creme bege clarinho de boa formação e média alta retenção, a Madalena Double IPA (está ali na linha divisória do estilo com seus 7.5% de álcool e) é um tacho de caramelo misturado numa bacia de frutas cítricas com leve aceno herbal. Na boca, frutado, herbal e leve amargor já no primeiro toque com a doçura caramelada chegando depois na tentativa de equilibrar o conjunto até a pancada de amargor, 65 IBUs comportados e bem inseridos na receita. A textura é levemente picante no começo e cremosa na sequencia. O conjunto segue nessa pegada doce, cítrica, herbal até o final, amarguinho. No retrogosto, amargor suave, leve resina, herbal e cítrico. Boa.

Outra estreante na área (apesar de eu já ter experimentado quase toda a linha em botecagens, segundo meu Untappd) é a Paulistânia, representada pela Caminho das Índias Session IPA, cuja receita (que recebe adição de açafrão) é desenvolvida pela Bier & Wien e produzida na Cervejaria Berggren, em Nova Odessa, interior de São Paulo. De coloração âmbar alaranjada com creme bege (tão claro que parece branco) de boa formação e média alta retenção, a Paulistânia Caminho das Índias exibe um aroma que combina ótimas notas cítricas (tangerina e limão) com especiarias (ervas, hortelã e açafrão) sobre uma base suave de malte. Na boca, muito mais especiarias do que frutado e herbal (mas está tudo junto aqui) no primeiro toque, que se abre na sequencia com amargor moderado (42 IBUs cuja força é a extensão). A textura é cremosinha. Dai pra frente surge uma Session IPA honestíssima, talvez com especiarias demais, mas personalidade de sobra. O final é amarguinho. No retrogosto, especiarias, mel e amargor suave. Bem boa.

A décima da sessão é da Tupiniquim, de Porto Alegre, e é a primeira a fugir assumidamente da escola antiga de IPA (tanto europeia, que influencia a maioria das cervejas anteriores, como da velha escola norte-americana) tanto pela utilização de Cryo Hops, que potencializa a força do lúpulo Simcoe, quanto pela total ausência de caramelo e a opção por trigo e aveia (que até poderia ter mais presença no conjunto) resultando em uma cerveja amarelo (quase palha) com creme branco de boa formação e média retenção. No nariz, uma explosão de frutas cítricas (laranja, maracujá e também limão) com leve percepção de aridez do Cryo Hops. Na boca, um sucão de frutas amarelas no primeiro toque seguido por um traço de amargor (50 IBUs) e de Cryo que risca o seu da boca e deixa uma marca levemente áspera e árida por onde passa. A textura é picante e cremosa enquanto o conjunto se baliza entre o frutado cítrico e aspereza do Cryo. No final, amargor suave. Já no retrogosto, frutado cítrico, Cryo e refrescancia. Delicia.

Fechando a série por Uberaba, no Triangulo Mineiro, com a novíssima cervejaria TUG, que até já promoveu Oktoberfest na cidade em 2017, mesmo ano em que foi aberta. A TUG IPA exibe uma coloração amarela levemente alaranjada com creme branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, frutas cítricas suaves (do growler colhido da torneira, na fábrica, estava exuberante) com sugestão tropical de abacaxi e um leve resinoso, mas nada de caramelo (ufa! Aplausos). Na boca, a textura é levemente picante e cremosa. O primeiro toque confirma a percepção frutada cítrica e tropical, com abacaxi e um leve limão. Na sequencia, ela amacia até a chegada do amargor, 46 IBUs suaves que conseguem equilibrar o conjunto. Dai pra frente, uma cerveja bastante agradável e um passo à frente das demais, que sonham em alcançar o mercado popular fazendo Caramel IPA. Aqui não. O final é cítrico e amargo. No retrogosto, limãozinho, abacaxi, amargor suave e refrescancia.

Balanço
A primeira dessa série de IPAs brasileiras é o bom exemplar da Lund, de Ribeirão Preto, com aroma turbinado pelo dry-hopping e bastante presença de malte tentando equilibrar um estilo que se caracterizou por ser exagerado. O resultado é uma IPA do Atlântico, pendendo mais aos Estados Unidos e de ótimo custo / beneficio. Mantendo o padrão custo / beneficio, a Hemmer Blumenau IPA tem um pé afundado na cultura cervejeira do Reino Unido, mas consegue acrescentar nuances bem interessantes num momento em que o mercado (principalmente o geek) busca delicadeza. Curti. A terceira IPA da série ainda é de Santa Catarina, da Dom Haus: Dom Casmurro, que assim como a primeira é uma IPA do Atlântico, mas que namora muito mais as Ilhas Britânicas. Macia e de bom drinkabilty. Mantendo o nível e o padrão das anteriores, a Bruder India Pale Ale me pareceu levemente mais interessante por trazer mais cítrico e herbal ao conjunto, ainda que ele fosse dominado pelo caramelo. Mantendo o padrão das anteriores, a DeBron American IPA é mais India Pale Ale com um balde caramelo sobre cítrico e herbal, mas é uma das que mais curti até o momento (estão todas no mesmo nível).¨A primeira American IPA de verdade da sessão é a da Lohn Bier, com amargor e aroma de lúpulo se sobrepondo à doçura do malte. Uma delicinha. A caseira Pritsch & Klein Put*IPAriu com uma bela receita que nada deve as que se encontra no mercado. Já a Madalena Double IPA é uma versão robusta da IPA da casa, que peca pelo excesso de doçura e caramelo em meio a pancada de amargor característica do estilo. Ainda assim, bom custo beneficio. Aliás, falou em custo / beneficio, essa Paulistânia Caminho das Indias é um dos tops do ano: uma Session IPA saborosa custando menos de R$ 10 a garrafa de 600 ml nos “lugares certos”. Excelente. Se tivesse um tiquinho a menos de especiarias, melhor. Depois de tanta Old IPA na série (boa parte ainda influenciada pela escola inglesa), enfim uma New American IPA 2017, uma cerveja sobre o cenário de agora: Tupiniquim Efeito Simcoe Single Cryo Hop, caracterizada pela ausência de caramelo, pela potência cítrica e pelo amargor e aridez presentes. A nota, talvez, tivesse que ser mais baixa numa sequencia “new” pau a pau, mas aqui ela brilha ainda mais. Fechando a contenta com a TUG IPA, uma descoberta natalina que no growler na cervejaria é um sonho: R$ 12 o litro. E ainda melhor e mais fresca do que na garrafa, que perdeu terreno, mas ainda assim é uma boa American IPA sem caramelo.

Lund India Pale Ale
– Estilo: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.8%
– Nota: 3,24/5

Hemmer Blumenau IPA
– Estilo: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,26/5

Dom Haus Dom Casmurro
– Estilo: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.2%
– Nota: 3,24/5

Bruder India Pale Ale
– Estilo: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,27/5

DeBron Bier American IPA
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.8%
– Nota: 3,27/5

Lohn Bier IPA
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,37/5

Pritsch & Klein Put*IPAriu
– Estilo: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: 3,20/5

Madalena Double IPA
– Estilo: Imperial IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: 3,33/5

Paulistânia Caminho das Índias
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 3,35/5

Tupiniquim Efeito Simcoe
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.7%
– Nota: 3,75/5

TUG IPA
– Estilo: American IPA
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,37/5

Leia também
– Top 2001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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