Entrevista: Sollado

entrevista por Rafael Donadio

Em uma esquina do Parque Residencial Quebec, em Maringá, foi combinado o encontro com alguns integrantes da banda Sollado, na Lanchonete do Pescador. Entre as mesas de madeira, pingas de toda e qualquer marca, inclusive as artesanais da região. Nas paredes, desenhos, fotos e peixes empalhados, de inúmeras espécies, além daquelas fotografias clássicas dos pescadores com seus prêmios.

Naquela quinta-feira de calor forte, João Paulo (percussão) e Valter Rosini (vocal e sintetizadores) já me esperavam nas mesas da calçada, com uma gelada na mesa e um pedido de iscas feito. Quando sentei, vi Fernando Morete (violão e vocal) chegando, vestindo chinelos e carregando a inseparável garrafa térmica e o tereré. “Vou dar um tempo na bebida”. Os dois riram, mas ele realmente não bebeu.

Antes de começarmos a falar do álbum “Sollado” (2017), segundo da banda, que até então se apresentava como Sollado Brazilian Groove, João Paulo já avisou que estava ali de gaiato, os outros dois que falariam. “Eu estava vindo para cá e o cara me ligou para tomar uma. ‘Estou indo lá na entrevista, vamo junto’”, explicou Rosini, enquanto experimentávamos a pimenta da casa. Não muito adequada para aquele calor.

Logo nas primeiras canções do disco é possível entender a mudança do nome. Com uma identidade mais definida e com letras reflexivas, pontuais e atuais, Sollado agora é muito mais que groove brasileiro. Sollado é frevo, é punk, é “forróck’n’roll psychobrega”, é samba, é maracatu. Estabelecida como nunca esteve nestes sete anos de grupo, Sollado agora está entre buscas. Arriscando cada vez mais a procura de sons e de novas formas de se produzir como banda independente.

Com olhos e ouvidos apontados para todos os cantos do planeta, o grupo maringaense se apropria de todas essas referências e, com a simplicidade e o clima bucólico do Noroeste do Paraná, faz disso elos de uma gigante corrente. “Se todos podemos ser uma mesma coisa, em conjunto, por que nós vamos nos separar? Onde e qual a causa da gente se separar? Música, para nós, é uma forma de reconstruir esse elo entre as pessoas”, reflete o vocalista.

E o álbum todo faz refletir. Não à toa o rock psicodélico estelar “A Procura Deste Som” está ali, celebrando a história e sinalizando o momento de transformação do grupo. “Ela é um elo do disco. É uma celebração do começo da banda, homenagem por todos que passaram por ela, com o momento atual, junto com uma certa busca de um novo som”, diz Rosini.

A banda ainda conta com José Augusto (guitarra), Gabriel Moraes (baixo) e André Lauer (bateria). Produzido por toda a banda, com Moraes na liderança, “Sollado” foi gravado no Estúdio Mojo (Maringá) e masterizado por Felipe Tichauer (que já trabalhou com Curumin, Rodrigo Campos, Bixiga 70, Banda do Mar e Elza Soares, entre outros). A mixagem também é assinada por Gabriel Moraes. O trabalho foi lançado pelo selo Maringá Original Balanço (MOB).

Entre peixes, cerveja e o tereré de Fernando, os sollados de pé vermelho contaram sobre a produção do disco, as participações dos novos e eternos sollados, da formação da banda e algumas importantes reflexões.

Como foi a produção deste segundo álbum, o “Sollado”?
Valter – A gente chegou no Estúdio Mojo com uma quantidade de música e a outra metade foi feita já lá dentro. As músicas que a gente já tocava e chegaram praticamente prontas foram “É de Roubar a Sombra”, “Entre Buscas”, “Diferente Fim” e “Seres”. Essas a gente já tocava desde a época que tínhamos outros integrantes / parceiros na banda, então elas trazem isso também, essa fase, que foi muito boa.

Vocês tiveram participações na gravação do disco?
Fernando – Teve o Claudio Caldeira (saxofone) no “A Procura Desse Som”, o Lucas Trabuco em “Para Todos os Efeitos” e “Gostaria de Saber” e Ricardo Martins – o Zóio – em “Gostaria de Saber”.

Valter – Mas dá para citar todos os outros que passaram pela banda, por todos terem, de certa forma, ajudado na construção da banda e de uma ou outra música. Inclusive, um dia o Ricardo estava em casa e eu já tinha uma parte da música feita, “Gostaria de Saber”, e pegamos o violão e ficamos conversando e acabou saindo o resto. Foi bem rápida. Tem música que demora quase 10 anos, outras 10 minutos (risos).

Existe algum processo de composição na banda? Como nascem música e letra?
Fernando – Cada música nasce de um jeito. Às vezes o Valtinho chega com a letra e a gente faz a harmonia ou começa com uma melodia vocal.

Valter – As músicas do Fernando geralmente chegam mais prontas, como em “Terra Azul”. É uma situação meio intuitiva. Mas, geralmente, se for pensar em uma fórmula, podemos dizer que as músicas começam com as letras. Até na hora de colocar na ordem do disco, pensamos no que elas dizem, sempre tendo conexão, algum tipo de elo. As que não têm, vai se encaixar com algo que ainda vai vir.

Fernando – “Terra Azul” eu compus depois da tragédia de Mariana (MG). É uma crítica ao desenvolvimento exacerbado do homem, uma crítica ao homem usurpar da própria natureza em benefício da ganância, desse desenvolvimento acima de tudo. E a ideia se juntou a uns grafites e frases que vi aqui em Maringá. É um frevo do fim do mundo. Frevo com rock/punk.

Quais as ligações que existem entre o disco anterior e esse, como o nome da primeira faixa do “Sollado” ser o nome do disco anterior, “Para Todos os Efeitos”?
Valter – A ideia dessa música eu pensava desde o começo do Sollado, logo que a internet começou a ficar mais acessível e as pessoas começaram a ficar vidradas em rede. Então, parecia que o que estava em volta dos visores do computador era banal. As pessoas não querem saber do outro, querem saber do visor dizendo o que eles precisam fazer. Um comportamento bovino. E tem a ligação com “Nulidade” – última música do disco anterior – quando fala sobre a corrupção, sujeira e a impunidade. É um elo de ligação.

Quais bandas mais influenciam a Sollado?
Valter – Difícil falar o que a gente gosta de ouvir e o que tentamos colocar no disco. Mas eu, como um cara que gosto de escrever, posso dizer que tem até punk, com mais sutileza, uma crítica sem botar o dedo na ferida. Uma coisa que reflete, que serve para refletir. É difícil falar de bandas ou algo que influenciam, porque até minha mãe pode influenciar, quando diz alguma coisa, em qualquer momento.

Fernando – Eu acho que a estética do disco tem um pouco a ver com o que tem sido feito agora no Brasil. Algo como Anelis Assumpção, Iara Rennó, Curumin, Céu. A questão do tipo do som, de fazer preenchimento com overdubs eletrônicos. Isso um dia vai ser escutado e vão saber que é dessa época. É um disco atual. Esse é o trabalho que o Gabriel Moraes faz como produtor, tem esse toque dele.

O disco provoca a reflexão e, como disse o Valter, faz críticas, mesmo que mais sutis. Existe uma mensagem do disco como um todo?
Valter – A mensagem mais forte é para nós mesmos, como banda, de tentar se achar cada vez mais. Tanto que a primeira música, “Para Todos os Efeitos”, é algo bem amplo. O álbum todo é meio dimensional. A gente tenta misturar o mundano – até de algo misterioso, que a gente não conhece – com o supremo. A música é sensível, então a gente tem que ter respeito pelo que a gente faz. E muitas pessoas se unem a nós, a banda, por essa característica.

Fernando – A gente tem um lance meio de caipira cristão, de ter uma parada mais simples e dar valor nas coisas da vida. Lealdade, hombridade e valores assim. E todo mundo na banda tem um lance de espiritualidade, a gente carrega uma fé e crédito nas coisas. Então a música vem nesse questionamento do mundo terreno, desses valores: perguntando onde estão, apontando o dedo para a perda e tentando retomar esses valores.

Valter – Uma das coisas mais fortes que fazem as pessoas se aproximarem do nosso som é a palavra. Sempre remetemos a um valor humano. Todas as músicas têm uma essência terrena e espiritual. A elevação do ser humano como fruto de Deus: se todos podemos ser uma mesma coisa, em conjunto, por que nós vamos nos separar? Onde e qual a causa da gente se separar? O porquê da gente separar, mesmo acreditando nisso. Música, para nós, é uma forma de construir elo entre as pessoas. Tem sempre gente querendo pulverizar o meio que já é pulverizado.

Com sete anos de carreira e o segundo trabalho no mundo. Qual o significado desse disco para a Sollado?
Valter – Na minha cabeça já começa pelo fato da gente estar tirando o “Brazilian Groove” da parada. É um momento de transformação. É uma conquista de ter conseguido fazer isso nesse momento, porque fizemos uma escolha de fazer isso dessa forma.

Fernando – Nesse momento a gente fez essa escolha, agora a gente precisa procurar processos para arrumar outros caminhos para fazermos música. Como vai ser ainda não sei. Esse disco é bem diferente do disco anterior, é mais produzido, mais introspectivo, um disco que o sujeito tem que parar para ouvir. É uma nova conquista que conseguimos fazer e agora precisamos de novos mundos. Uma nova conquista e uma nova transformação.

Vocês têm uma identidade mais forte, inegável, mas o som remete bastante às músicas nordestinas. O que do Paraná vocês colocam nas canções?
Fernando – Acho que na nossa música a linguagem é o que tem de mais forte da cultura paranaense. O Paraná ainda está em formação. Somos formados por imigrantes europeus, por mineiros, nordestinos, paulistas. Mas, na música, a gente traz a coisa simples do caipira, a música que faz ode à natureza, por exemplo. Na banda, todo mundo tem essa cultura desde moleque, todo mundo escutou música caipira, ia na casa da vó no sítio, festa junina, que, inclusive, foram trazidos por esses migrantes.

Eu queria que vocês contassem um pouco de como aconteceu a formação da banda.
Fernando – A gente fez a música “Entre Buscas” para ter a banda. Tinha acabado o Maracatrutas – grupo que tocava covers de bandas como Nação Zumbi, Otto, Eddie etc – e a gente ficou pensando que a gente queria tocar alguma coisa diferente, mais lado b, as coisas que estavam rolando na época de música alternativa, que a galera estava fazendo. E essas coisas eram o disco do Seu Jorge e Almaz, Academia da Berlinda, Eddie, esses caras que a gente ouvia. Enquanto a gente se reunia para fazer isso, para tocar, surgiu a ideia do festival na UEM (Universidade Estadual de Maringá), o Acorde Universitário. Isso foi em 2010. A UEM foi o elo da gente. Ali foi o catalisador. Ali que a gente se encontrou e se conheceu, tanto nas aulas de agronomia – Valter e José Augusto cursaram Agronomia na UEM – quanto nas festas que tinham na época.

Qual era a formação nesse começo?
Fernando – Além da gente, que permanece até hoje (Valter Rosini, Fernando Morete, José Augusto e João Paulo Costa), foi mudando os bateristas e os baixistas. Começou com o Mourão e o Léo, depois entrou o Lucas Trabuco (baixo) e o Leandro Benavide (bateria). O Trabuco e o Benavide estavam na época do primeiro disco, “Para Todos os Efeitos” (2014), e ajudaram muito, foram bem importantes. Inclusive, foi o Benavide que deu “a cara” da música “Diferente Fim”. Ele tinha uma sala de estúdio dentro da casa dele, tinha vários instrumentos. Então, algumas partes do primeiro disco foram gravadas lá. Depois entraram o Gabriel Moraes no baixo e o André Lauer (Turco) na bateria. Mas Trabuco, Benavide e esses outros que passaram são Sollado também. Inclusive, o Trabuco está muito presente no disco. É uma miscelânea de gente que entra e sai e que esperamos que continue acontecendo.

Por que “Entre Buscas”, que praticamente foi a “desculpa” para a formação da banda, não foi gravada até então?
Fernando – A banda teve várias mudanças, saía um cara, entrava outro, e nisso a música ia sofrendo desconstruções. A música, no começo, era outra coisa. A proposta era outra, a letra era outra, depois que a gente deu uma reformulada nela. Até por isso é a música que tem mais referência de coisa brasileira, no disco inteiro. Então, ela acabou não sendo gravada porque, por essas mudanças, ela acabou nunca sendo consolidada.

“Enquanto o mundo inteiro avisa, você acha que não precisa e que palavras nunca tem o dom de transformar. Sendo assim, não se poderia esperar diferente fim”. Depois de oito músicas, com oito mensagens diferentes, essas frases da última música tem algum significado especial?
Valter – Ambiguidade. Vemos hoje uma enorme quantidade de opiniões e (des)informações e tudo isso muitas vezes despejado, ao alcance de qualquer um. As palavras parecem fúteis e sem sentido diante da passividade e falta de atitude. Tipo o cão que late e não morde. E esse excesso de informação nos leva a necessidade de apurar nosso filtro, vendo realmente quais as palavras realmente relevantes e úteis a nossa transformação. É a questão de garimpar, existem coisas boas! É até uma letra mais curta e direta. Talvez um “quem não se recicla, se fode”.

Quais os planos para a banda daqui para frente?
Valter – No momento é levar o álbum àqueles a quem podemos fazer diferença positiva… isso volta para gente, para que possamos assim estar em constante movimento.

– Rafael Donadio (Facebook: rafael.p.donadio) é jornalista do Diário do Norte do Paraná

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