Boteco: De Porto Alegre, cinco Perro Libre

por Marcelo Costa

Abrindo mais uma série da gaúcha Perro Libre, desta vez, com a Galaxy Juicy Tart, uma Sour cuja receita une maltes Maris Otter, 2-Ro2, Crystal, Carapils, aveia e trigo com uma adição caprichada de lúpulo Galaxy. O resultado é uma cerveja amarela, juicy, com creme branquinho de boa formação e média alta retenção. No nariz, a acidez se destaca, mas precisa lutar por atenção com a sugestão de frutas cítricas, facilmente perceptível, que acrescenta abacaxi e lichia ao conjunto. Na boca, a textura exibe leve acidez, que vai aumentando de intensidade, levemente. O primeiro toque traz acidez suave e frutado cítrico intenso confirmando abacaxi e lichia com leve traço herbal. A acidez e o amargor (apenas 12 IBUs) se juntam na sequencia com um leve salgadinho abrindo as portas para um conjunto refrescante e delicioso, que não chega ao extremo do estilo, mas surge como uma boa porta de entrada para neófitos. No final, azedinho e frutado cítrico. No retrogosto, levedura, lichia, abacaxi e azedinho. Boa.

A segunda Perro Libre é a SWC Double India Pale Ale, uma cerveja poderosa que paga tributo ao estilo norte-americano West Coast, inspirado nas plantações de lúpulo no vale de Yakima, em Washington, e que hoje divide mercado com o estilo New England, surgido no extremo nordeste do país, mais precisamente em Vermont. Na receita, maltes Maris Otter e Crystal e seis lúpulos clássicos made in USA: Amarillo, Centennial, Columbus, Galaxy, Mosaic e Simcoe. O resultado é uma cerveja de coloração entre o âmbar e o amarelo, juicy (isso mesmo), e de creme branco de excelente formação e média alta retenção. No nariz, uma pancada cítrica (tangerina, limão, abacaxi) com percepção de levedura e amargor. Na boca, mais NE do WC no primeiro toque. A textura é cremosa e picante enquanto o amargor é potente, 80 IBUs que latejam a boca de harsh e resina. Dai pra frente, tudo exagerado: cítrico, resina, levedura e harsh até o final, incrivelmente amargo e delicioso. No retrogosto, amargor, toranja, resina e efervescência. Uou!

A terceira Perro Libre integra o projeto experimental Crowd Series da casa gaúcha, que propõe duas receitas ao público, e a vencedora numa votação online é produzida em série limitada. Já está no número 9, e, das que experimentei, gostei tanto da Saison de Pepino (03) quanto da Imperial Morango Cacau Porter (06). Agora seguimos com um trio delas: a primeira é a 08, Galaxy Sauvin APA, com base de malte feita por Pilsen, aveia e trigo além de levedura London III e os lúpulos que dão nome a receita. O resultado é uma cerveja amarela, juicy, com creme branco de boa formação e longa retenção. No nariz, uma pancada de frutas cítricas, tropicais, assim que a garrafa é aberta, oferecendo abacaxi, laranja e maracujá assim que a garrafa é aberta. Na boca, a mesma pancada de frutas amarelas com leve harsh no primeiro toque. Dai pra frente, mais frutas cítricas e sensação de amargor caprichado (mais que os 35 IBUs adiantados). A textura é picante e levemente cremosa. Dai pra frente surge uma APA quase IPA, com levedura e lúpulos destacados. No final, picancia de levedura e amargor. No retrogosto, mais presença de levedura oferecendo picância e cítrico suave. Boa.

A quarta Perro Libre é mais uma da Crowd Series, desta vez a número 9, El Dorado Citraxy IPA, cuja receita une os lúpulos El Dorado, Citra e Galaxy com os maltes 2-Row, Maris Otter, aveia e trigo. A levedura escolhida foi a London Ale III (a mesma da Crowd Series 8). O resultado é uma cerveja de cor amarela escura com bastante turbidez, creme branco de excelente formação e média alta retenção. No aroma, percepção de levedura oferecendo um toque funky e frutado cítrico mais suave sugerindo pêssego e um pouco de frutas amarelas. Na boca, a textura é levemente picante e levemente cremosa enquanto o primeiro toque oferece frutas amarelas, sem tanta distinção de fruta, e aridez da levedura. O amargor de 70 IBUs soa a metade num conjunto que segue suavemente frutado, arisco por parte da levedura e levemente amargo. No final, doçura cítrica e amargor. No retrogosto, picancia, amargor suave e cítrico.

Fechando este quinteto da Perro Libre com mais uma da Crowd Series, a de número 7, uma Russian Imperial Stout com cumaru (a “baunilha” brasileira), café da região da Alta Mogiana e a madeira Palo Santo, encontrada no cerrado brasileiro, que atende pelo nome de CCPS. O resultado é uma cerveja com uma cor marrom praticamente preta e creme bege escuro de espumação intensa e ininterrupta, denotando carbonatação excessiva. No nariz, o café é a grande estrela com leve chocolate em segundo plano. Ainda é possível perceber o cumaru, nozes e sutil defumado além de álcool (10%) bem leve. Na boca, bastante cumaru e menos café no primeiro toque, ainda que o café seguirá presente em todo o trajeto, um pouco a frente embebido em álcool e cumaru. A textura é cremosa, sedosa, e o amargor, intenso, 65 IBUs que ganham apoio da torrefação e acompanhamento do álcool. Dai pra frente, uma cerveja exótica, que remete levemente a Amarula, mas com Palo Santo e cumaru decisivos na personalidade do conjunto, que tem o café como grande estrela. O final é doce, amargo e alcoólico, uma junção de Amarula, café e cumaru que retorna intensa no retrogosto, caprichado. Interessante.

Balanço
Particularmente, adoro praticamente tudo que a Perro Libre faz, mas havia experimentado essa Galaxy Juicy Tart na torneira no EAP e… ela me decepcionou. Bora tirar a prova na garrafa, e ela se mostra bem melhor, entregando o Sour (ainda que com suavidade) e com muito mais potência cítrica. Curti. Já a SWC Double India Pale Ale foi uma grande surpresa. Eu esperava uma boa cerveja, mas ela é muito melhor. Primeiro porque não é uma Caramel IPA, e mesmo sendo West Coast, dá uma piscadela para o estilo New England, o que para o resultado final é excelente. A Galaxy Sauvin APA e a El Dorado Citraxy IPA são duas boas cervejas da linha experimental da casa, a primeira (APA) com um amargor e aroma mais potentes que na (IPA), que, apesar de saborosa, ficou aquém do potencial da casa. Fechando a série com a CCPS, uma intensa Russian Imperial Stout que peca pela carbonatação excessiva, mas, ainda assim, é bem interessante.

Perro Livre Galaxy Juicy Tart
– Produto: Sour Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3,40/5

Perro Libre SWC Double India Pale Ale
– Produto: Imperial IPA
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 4,00/5

Perro Libre Crowd Series 8: Galaxy Sauvin APA
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,43/5

Perro Libre Crowd Series 9: El Dorado Citraxy IPA
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3,40/5

Perro Libre Crowd Series 7: CCPS Imperial Stout
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 10%
– Nota: 3,49/5

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.