Boteco: 10 países, 10 cervejas

por Marcelo Costa

Abrindo mais uma série países, desta vez pela Itália com uma novidade da renomada (e muito querida deste cervejeiro) Del Ducato: a Frambozschella, colaborativa com os alemães da The Monarchy (que já passaram aqui com a sensacional Methusalem). Trata-se de uma Sour Ale (lembrando que o cervejeiro da The Monarchy é o mesmo da Freigeist, especializada em Sour) com framboesas resultante de um blend (no melhor modelo Gueuze) de uma Sour maturada seis meses em barril (com leve adição de lactobacilos) com outra que não passou. O resultado é uma cerveja de coloração vermelha viva com creme avermelhado que sobe rapidamente e desce mais rapidamente ainda. No nariz, bastante framboesa e também bastante acidez que pinica o nariz. Na boca, equilibro entre acidez e framboesa no primeiro toque. Já na sequencia, uma interessante alternância de sabores com acidez atingindo um pico e depois abrindo caminho para a framboesa, que brilha. A textura é picante, frisante, acética num conjunto que surpreende até seu final, quase macio e frutado. No retrogosto, leve adstringência, framboesa e acidez. Excelente!

Da Itália para a Dinamarca com mais uma cerveja da To Øl, pelas contas aproximadas, a 36ª a passar por aqui (confira as anteriores): Hibernate, uma Wheat Ale que nasce da receita de uma Cream Ale com adição de ingredientes de Witbier (casca de laranja e semente de coentro) mais dry-hoping. O resultado é uma cerveja levemente alaranjada com creme bege clarinho de boa formação e média alta retenção. No nariz, percepção de levedura, casca de laranja, herbal e frutado cítrico sobre uma base maltada. Na boca, sensação de American Pale Ale no primeiro toque com cítrico e herbal bem equilibrados com a doçura do malte e do trigo. Na sequencia, um leve amargor (34 IBUs apenas) e mais equilíbrio entre cítrico, herbal e doçura. A textura é menos suave do que se espera de uma Cream Ale (e ainda levemente picante), mas o conjunto é bem saboroso, cítrico e condimentado. O final é cítrico e amarguinho. No retrogosto, suave amargor, mais cítrico, mais herbal e mais condimentos, tudo suave.

Da Dinamarca para a Alemanha com uma novidade da mítica Weihenstephaner, a cervejaria mais antiga do mundo, fundada em 1040: Weihenstephaner Kristall Weizenbock, a versão filtrada da poderosa Weihenstephaner Vitus com novos lúpulos: Hallertauer Perle, Smaragd, Opal e Saphir. De coloração dourada cristalina com creme branco de excelente formação e longa retenção, a Kristall Weizenbock exibe um aroma que mantém o perfil da versão original com muita banana, cravo, um leve toffee, caramelo, bubblegum e frutas secas. Na boca, muita banana e caramelo no primeiro toque. O cravo aparece logo depois trazendo consigo amargor moderado (21 IBUs que soam bem no conjunto equilibrado) e levedura. A textura é suave com leve picância e, dai pra frente, um belo conjunto que mantém a tradição do estilo. O final traz banana e picância. No retrogosto, mais banana, mais cravo, mais condimentação e caramelo. Boa.

Da Alemanha partimos para Luxemburgo com a primeira cerveja do Grão-Ducado a passar por este espaço através da Brasserie de Luxembourg Mousel-Diekirch, cervejaria nascida da fusão entre as cervejarias Mousel (1825) e Diekirch (1871) em 2000 – em 2002, ela seria adquirida pelo império InBev. Apesar do nome pomposo, a Diekirch Grand Cru Ambree não tem nada de Grand Cru, e sim é uma Vienna Lager de coloração âmbar caramelada e creme bege clarinho de boa formação e média retenção. No nariz, bastante toffee em destaque com caramelo, centeio, herbal (pinho), biscoito e baunilha secundários. Na boca, bastante doçura no primeiro toque (caramelo, baunilha e toffee) se abrindo com um levíssimo amargor herbal. A textura é suave e, dai pra frente, surge um conjunto bastante doce, com leve herbal tentando equilibrar a contenda, sem sucesso. O final é doce com um discreto traço toffee e herbal. No retrogosto, biscoito, defumadinho discreto e toffee. Uma Vienna interessantízinha.

De Luxemburgo para Bélgica com a segunda representante da lendária cervejaria 3 Fonteinen, a passar por aqui (a primeira foi a Golden Doesjel): Zwet.Be, uma Porter cuja receita segue os padrões 3 Fonteinen, ou seja, com levedura de Lambic. Produzida na De Proefbrouwerij, a Zwet.Be exibe uma coloração marrom bastante escura com creme bege espesso de excelente formação e média alta retenção. No nariz, assim que se abre a garrafa, um leve azedume que remete ao estilo Flanders Red Ale toma o ambiente. Com mais atenção é possível sentir frutas vermelhas (sutis) e escuras (mais presentes), café e chocolate suaves e açúcar mascavo. Na boca, doçura achocolatada, café e um leve azedinho, tudo junto no primeiro toque. Dai pra frente, o conjunto segue com leve acentuação de café e chocolate. A textura é suave, cremosa e o amargor subsequente é baixo, deixando café, chocolate e levedura brilharem até o final, com algo de vinho do Porto e calda de ameixa. No retrogosto, café, chocolate e vinho do Porto. Ótima.

Da Bélgica para os Estados Unidos, mais precisamente Patchogue, vilarejo de cerca de 12 mil habitantes na costa sul de Long Island, cerca de uma hora e meia do centro nervoso do estado, Manhattan. É de lá que a Blue Point estreia no Scream & Yell. Fundada em 1998, a Blue Point Brewery foi comprada pelo império Inbev em 2014 por quase US$ 24 milhões. A primeira deles que aporta no Brasil é a Blue Point Oktoberfest, uma tradicional Märzen alemã relida pela nova escola Made in USA. É uma cerveja de coloração âmbar alaranjada translucida com creme bege clarinho de boa formação e média retenção. No nariz, doçura de malte (caramelo) com leve herbal. Na boca, bastante caramelo no primeiro toque com biscoito, casca de pão e herbal (pinho na sequencia). A textura é suave e o amargor, baixo. Dai pra frente, um conjunto básico e eficiente, ainda que abaixo de uma Märzen “de verdade” alemã. O final é maltadinho. Já o retrogosto traz caramelo, toffee e herbal, suaves.

Dos Estados Unidos para a Estônia com mais uma Pöhjala a marcar presença por aqui: depois de Kreuzberg, Hooaeg, Virmalised e Kolmekordne, agora é a vez de Meri, que significa Mar, e é uma Gose que recebe adição de sal rosa do Himalaia e semente de coentro na receita. De cor âmbar caramelada com creme branco de baixa formação e rápida dispersão (comum ao estilo), a Pöhjala Meri exibe um aroma bastante maltado (até demais para o estilo) com caramelo em meio a um delicioso arranjo frutado cítrico e leve percepção de acidez, salgado e mar. Na boca, doçura baixa, mas perceptível, e frutado cítrico suave com um toque de sal, tudo isso junto no primeiro toque, que quando se abre na sequencia observa o sal dominando o conjunto com uma leve doçura maltada tentando equilibrar. A textura é suave sem a secura e/ou picância tradicionais do estilo, Já o amargor não existe, são 5 IBUs que estão ali para constar. Dai pra frente, uma cerveja refrescante e diferente de outras Gose mais ariscas, que finaliza com um leve salgado. No retrogosto, coentro discreto, cítrico e caramelo.

Da Estônia para a Holanda com mais um exemplar da lendária De Molen na área, a Hugs & Kisses, uma Session IPA com maltes Pilsen e Caramel, lúpulo Saaz para amargor e Mosaic para aroma. De coloração âmbar caramelada com creme bege clarinho de excelente formação e média alta retenção, a De Molen Hugs & Kisses exibe um aroma levemente tropical com frutas cítricas em destaque (laranja, limão e mamão) sobre uma suave base doce de mel e caramelo. Na boca, cítrico e doçura em perfeita sintonia chegam juntos no primeiro toque e encantam o bebedor com caramelo, tangerina, mamão, mel e laranja. A textura é cremosa, até melada, depois de um início levemente picante. Dai pra frente, um chazinho cítrico e caramelado com apenas 3.5% de álcool e muito sabor. No final, bastante equilíbrio entre doçura maltada e frutado cítrico, percepção que também marca o retrogosto, com mel, tangerina e mamão. Ótima.

Da Holanda para o País de Gales com a primeira representante da Tiny Rebel, que vem sacudindo a cena local, a surgir por aqui (no meu Untappd tem outras cinco e a Clwb Tropicana é amor). Trata-se da Hadouken, uma American IPA com três lúpulos made in USA. O resultado é uma cerveja meio dourada, meio alaranjada, meio âmbar clara com creme branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, doçura cítrica tropical de frutas como manga, mamão e maracujá com leve condimentação. Na boca, picância cítrica suave e cremosidade marcam a textura. O primeiro toque traz frutado cítrico (manga), herbal (pinho) e doçura, tudo junto. Na sequencia, o amargor chega suave, muito longe dos 80 IBUs adiantados pela casa, mas com uns 50 que cumprem a função de equilibrar a receita. Dai pra frente, doçura, frutado e amargor se alternam até o final, que traz frutado cítrico (manga). No retrogosto, resina leve, herbal e cítrico. Interessante.

Fechando a série pelo Brasil, com a ICI 02, a que faltava na seleção (já haviam passado por aqui ICI 01 e a ICI 03, esta última produzida pela Wäls). Assim como a ICI 01, a ICI 02 é produzida pela Colorado, que abre propôs a ideia de uma French IPA, apenas com lúpulos da Alsacia na receita. De coloração mais para o âmbar do que para o dourado com creme branco de boa formação e média alta retenção, a Colorado ICI 02 exibe um aroma diferente de outras IPAs, muito pelos lúpulos franceses, que trazem cítrico (tangerina), herbal (pinho) e intenso floral sobre uma base discreta de mel e caramelo. Na boca, bastante doçura de caramelo e um leve cítrico no primeiro toque. Na sequencia, a percepção cítrica dá uma leve aumentada. A textura é suave e vai ficando caramelada na sequencia. Já o amargor está longe dos 45 IBUs oficiais, se chegar a 25 é muito. Dai pra frente, uma cerveja agradável e refrescante, que finaliza cítrico e refrescante. No retrogosto, o herbal toma o lugar do cítrico e algo de mineral aparece. Boa.

Balanço
Uou, uou, uou! Abrindo o passeio com o pé direito com uma Sour sensacional produzida em parceria entre italianos (Del Ducato) e alemães (Freigeist): Frambozschella, uma deliciosa pancada de frutas e acidez. Adorei. A To Øl Hibernate soa uma APA bem legal, ainda que seja resultado do choque de uma Cream Ale com uma Witbier. Já a Weihenstephaner Kristall Weizenbock é uma Weihenstephaner, então é coisa fina, não tem erro. Da Alemanha para Luxemburgo com uma Vienna Lager cafajestizinha, mas agradável. Se colocaram na minha taça, eu bebo outra. A belga 3 Fonteinen Zwet.Be coloca um pouquinho de provocação no estilo Porter com a levedura de Lambic injetando personalidade na receita. Uma delícia. A Blue Point Oktoberfest é boa para uma Marzen norte-americana, mas fica bem distante de uma Marzen alemã. Da Estônia, a Pöhjala surge com uma Gose diferenciada, mas abaixo do padrão do estilo, a Meri, que ainda assim merece atenção. Da Holanda, mais uma De Molen (creio que umas 40 já devem ter passado por aqui), e uma boa De Molen, a Session IPA Hugs & Kisses, melada e cítrica, uma delicinha. Primeira Tiny Rebel a surgir por aqui, a Hadouken é uma American IPA clássica, mas bem saborosa, com herbal, cítrico e amargor bem distinguíveis. Fechando com a representante brasileira, a Colorado ICI 02, uma IPA que lembra uma Pilsen com mais caramelo e levemente lupulada, mas, ainda assim, interessante.

Del Ducato Frambozschella
– Produto: Sour Ale
– Nacionalidade: Itália
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,64/5

To Øl Hibernate
– Produto: Wheat Ale
– Nacionalidade: Dinamarca
– Graduação alcoólica: 6%
– Nota: 3,53/5

Weihenstephaner Kristall Weizenbock
– Produto: Weizenbock
– Nacionalidade: Alemanha
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: 3,50/5

Diekirch Grand Cru Ambree
– Produto: Vienna Lager
– Nacionalidade: Luxemburgo
– Graduação alcoólica: 5.1%
– Nota: 3,11/5

3 Fonteinen Zwet.Be
– Produto: Wild Porter
– Nacionalidade: Bélgica
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,72/5

Blue Point Oktoberfest
– Produto: Marzen
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 5.7%
– Nota: 3,11/5

Pöhjala Meri
– Produto: Gose
– Nacionalidade: Estônia
– Graduação alcoólica: 4.4%
– Nota: 3,26/5

De Molen Hugs & Kisses
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: Holanda
– Graduação alcoólica: 3.5%
– Nota: 3,40/5

Tiny Rebel Hadouken
– Produto: American IPA
– Nacionalidade: País de Gales
– Graduação alcoólica: 7.4%
– Nota: 3,40/5

Colorado ICI 02
– Produto: India Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,17/5

Leia também
– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
– Leia sobre outras cervejas (aqui)

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