Três filmes: “Sem Amor”, “Corpo e Alma” e “The Square”

por Marcelo Costa

“Sem Amor”, de Andrey Zvyagintsev (2017)
Em 2014, para desespero dos nacionalistas russos, o filme escolhido para representar o país no Oscar foi a esplendorosa tragédia “Leviathan”, de Andrey Zvyagintsev, uma história movida à vodka, desmandos, contradições religiosas e traições que buscava mostrar a insignificância do ser-humano diante de instituições afundadas em corrupção, ganancia e desejos por poder (trocando a vodka por pinga, poderia ter sido filmado no Brasil). Três anos depois e Andrey está de volta focando no pessoal para mostrar que a vida na Rússia continua uma grande tragédia. Vencedor do Prêmio do Júri em Cannes e indicado ao Oscar, “Nelyubov” (no original, “Loveless” em inglês) tem como personagem central Alyosha (Matvey Novikov), filho de 12 anos de um casal que está prestes a se separar. Boris (Alexei Rozin) engravidou outra mulher e dos poros da esposa Zhenya (Maryana Spivak) escorre ódio. O casal destruído tenta vender o imóvel em que vive para que cada um siga sua vida, sem saber como resolver uma delicada questão: quem ficará com Alyosha? A decisão esbarra nas convenções da sociedade e do Estado: Boris, que trabalha em uma empresa que pune funcionários que se divorciam, teme perder o emprego tanto quanto assistentes sociais do Estado que venham averiguar o por que do desejo de colocar o garoto num internato. Após uma discussão verborrágica, Alyosha foge e o casal precisa acionar a polícia (que mais atrapalha do que ajuda) e uma ONG para tentar achar o garoto. São 127 minutos de tortura silenciosa em que Andrey fustiga o espectador mostrando uma sociedade muito mais preocupada com bens materiais, selfies e conforto do que com pessoas – soa até uma continuação velada de “Leviathan” e é tão bom (e triste, e doloroso, e terrível) quanto.

Nota: 8.5 (em cartaz nos cinemas)

“Corpo e Alma”, de Ildikó Enyedi (2017)
Endre é o diretor financeiro de uma empresa na região periférica da capital Budapeste. Ele sofreu um AVC, que paralisou um lado de seu tronco, principalmente seu braço esquerdo. O coração não foi afetado, mas já havia parado de bater por amor muito tempo antes. De uma janela, Endre observa o cotidiano da empresa e, certo dia, percebe uma nova funcionária que acabou de ser admitida: ela se chama Mária, e esta recostada em uma pilastra, preocupada que uma pontinha de seus pés está sob a luz do sol, um sutil sinal de TOC que pode, muitas vezes, passar por distração adolescente, e é percebido delicadamente por Endre, que passa a prestar mais atenção nela, e toma coragem para dividir uma mesa com Mária no almoço. Esse é apenas o primeiro “encontro” de Endre e Mária, que acontecerá no refeitório de um gélido e desromantizado matadouro, a empresa que ambos trabalham, mas é o primeiro encontro no plano real, pois os dois estão vivendo um romance… nos sonhos. Vencedor do Urso de Ouro de Melhor Filme e do Prêmio da Crítica no Festival de Berlim, e indicado ao Oscar, o húngaro “Testről és lélekről” (no original), da cineasta Ildikó Enyedi, é um daqueles belos filmes de atuação, e tanto Géza Morcsányi (Endre) quanto Alexandra Borbély (Mária, tão dedicadamente contida quanto Agata Trzebuchowska em “Ida”) cumprem a função com louvor, respeitando os limites de seus personagens exageradamente limitados para expor a alma de dois corpos que haviam sido fechados para o amor – um deles nem havia sido aberto –, mas que foram fisgados por algum milagre romântico. Conduzido com sutileza, “Corpo e Alma” é uma excêntrica surpresa que esbarra em Jung e pisca o olho (esquerdo) para Afrodite (e Hera) enquanto canta uma “antiga canção” de Laura Marling num dos grandes filmes de 2017.

Nota: 9 (em cartaz nos cinemas)

“The Square – A Arte da Discórdia”, de Ruben Östlund (2017)
Christian é o dito cidadão respeitável (que ganha alguns milhares de coroas suecas por mês): ele é o curador de um museu de arte moderna em Estocolmo, pai de duas filhas e permanente apoiador de boas causas. Mas será que bastam boas intenções para se praticar bons atos? Vencedor da Palma de Ouro em Cannes e também indicado ao Oscar, “The Square”, de Ruben Östlund, se lambuza de ironia para satirizar tanto a mitificação da arte quanto a falsa boa vontade dos mais ricos, sempre dispostos a atos quase heroicos de dignidade que muitas vezes podem ser desmascarados por um simples gesto do acaso, como a defesa da farinata, ou um assalto. Desta forma, assim que Christian tem seu celular e carteira roubados no meio de uma praça da capital sueca (num daqueles golpes datados em grandes capitais como Rio e São Paulo), ele rastreia o aparelho e o descobre na periferia de Estocolmo, um local onde vivem pessoas “diferenciadas”. Christian decide então deixar uma carta ameaçadora em todos os apartamentos do tal prédio reclamando o celular roubado, um gesto infantil e irresponsável que dá início simultaneamente a uma derrocada pessoal, passional (na sua relação com Anne, interpretada por Elisabeth Moss) e profissional: após aprovar descuidadamente uma peça publicitária para o museu (que irá viralizar nas redes sociais, para seu infortúnio), Christian sofrerá por ser olhar enviesado. Quase como um Toni Erdmann com viés social, “The Square” não é nada sutil em sua tentativa de desconstruir uma sociedade construída equivocadamente, e tanto a cena metalinguística do “gorila” no jantar beneficente quanto a versão de Bobby McFerrin e Yo-Yo Ma para “Ave Maria”, que pontua toda a trama, são momentos de genialidade artística num filme que pode, sim, ser acusado de ser vítima de sua própria crítica, mas ao menos o faz sarcasticamente. Bastam boas intenções para se praticar bons atos?

Nota: 8.5 (em cartaz nos cinemas)

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne

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