Entrevista: Filipe Catto (2017)

entrevista por Marcos Paulino

No final de 2017, pouco depois de completar 30 anos, Filipe Catto lançou “Catto”, seu terceiro disco. Gaúcho de Lajeado, ele vem construindo uma carreira sólida como intérprete, e há quem diga que é o melhor cantor brasileiro da geração dos anos 2000. Mas Filipe também compõe, apesar de ter exercido essa função com menos frequência neste novo trabalho, se comparado aos anteriores, “Fôlego”, de 2011, e “Tomada”, de 2015.

Depois de se apresentar por um tempo na noite de Porto Alegre, o gaúcho se mudou para São Paulo em 2010, e no ano seguinte emplacou a música “Saga” na trilha sonora da novela “Cordel Encantado”, da TV Globo, o que lhe rendeu um contrato com a gravadora Universal Music. Foi apenas a primeira de várias canções suas que embalariam tramas globais. Filipe já dividiu o palco, em diversas ocasiões, com nomes de peso, como Daniela Mercury, Fafá de Belém, Toquinho, Maria Bethânia e Vanessa da Matta, entre outros.

Em 2017, enquanto viajava com a turnê “Over”, na qual cantou acompanhado de violões, gravou as 10 faixas de “Catto”. Numa delas, “Só Por Ti”, tem Zélia Duncan como parceira. O disco também traz uma versão de um clássico do cancioneiro de Portugal, “Canção do Engate”, de António Variações. Com distribuição da Biscoito Fino, o álbum vai ganhar uma turnê com início previsto para depois do Carnaval, como Filipe conta na entrevista a seguir, concedida ao Mundo Plug, parceiro do Scream & Yell.

Você disse no material de divulgação de “Catto”: “Este disco é uma celebração do meu retorno de Saturno”. Afinal, o que isso quer dizer?
Retorno de Saturno é uma grande mudança pessoal que acontece na vida de todo mundo, na idade entre 27 e 32 anos. E esse retorno é quando o planeta das responsabilidades, que é Saturno, chega de volta ao lugar de origem. Ele demora 28 anos pra completar o ciclo. Então, quando você passa por isso, significa que a vida te transforma literalmente em quem você é por bem ou por mal. No meu caso, foi para o bem, e fiquei muito feliz de ter passado por todas as coisas que passei durante os últimos anos, que foram de absoluto aprendizado, e chegar nesse lugar, desse disco, que é de absoluta liberdade, de amor, é um disco que foi feito com muita entrega e muita tranquilidade. Meu retorno de Saturno se revelou uma prova da minha leveza, enquanto que a minha leveza diante do mundo é a minha maior arma.

Atravessar esse portal simbólico, que é a barreira dos 30 anos, teve alguma influência na concepção do álbum?
É superimportante, porque acho que hoje consigo enxergar minha trajetória. Já estou no mercado há bastante tempo, meu trabalho é uma fonte imensa de prazer e de realização pra mim. Então, nesse nível de energia que gosto de trabalhar e nesse nível de consciência que faz com que eu faça o que faço, ficar mais velho tem sido cada vez mais uma experiência incrível e muito prazerosa.

O disco é um tanto viajandão, psicodélico, talvez libertário. Isso refletiu seu atual estado de espírito?
Acho que meu trabalho é extremamente sensorial. Sou um artista muito imagético e que trabalha muito a questão da experiência da música. Isso é uma coisa que eu já vinha trabalhando nos meus espetáculos ao vivo, de ter essa preocupação mais 360 graus, com a concepção estética do trabalho. Nesse disco, tive mais tempo de gestação, diferentemente dos outros, nos quais tive uma ou duas semanas para gravar. Neste, tive nove meses. Então, o aprofundamento dentro desse trabalho reflete muito a entrega estética que tive e, claro, dentro disso, tive uma relação muito mais profunda com as texturas, com a linguagem da música, de realmente fazer pela música tudo o que eu achava que tinha que fazer em cada faixa. Esse foi um trabalho de muita liberdade e de muito prazer. Acho que quando coloco esse prazer na manufatura de cada canção, é quando todos esses campos e as camadas e a profundidade da música se revelam. Não consigo mais desassociar o resultado do meu trabalho de seu processo, que foi um processo de entrega pessoal, de descoberta, de tempo, de labor, um processo bem artesanal de todos os sentidos e que deu esse resultado extremamente rico em sons, texturas e viagens. Que bom que você percebeu a viagem toda que foi!

Seu disco de estreia foi lançado por uma grande gravadora, a Universal, o segundo foi independente e o terceiro saiu pela Biscoito Fino. De qual dessas experiências você mais gostou?
Estou no melhor momento da minha carreira, sinceramente. Até nesse lugar da feitura, hoje sou um artista independente. Tenho a distribuição da Biscoito Fino, eles são meus parceiros, e o disco foi gerado de forma independente. A gente bancou essa parceria a partir da feitura dele, para o lançamento. Acho que isso funciona muito bem pra mim, porque gosto de ditar o meu tempo, de poder fazer as coisas de acordo com as minhas demandas e acho que isso é fundamental para a arte. Realmente me sinto muito feliz em ter encontrado esses parceiros, que fazem com que esse trabalho gire.

Em 2017, você se dedicou à turnê “Over”, com voz e violões. Esse projeto vai continuar em 2018?
O “Over” foi um espetáculo que era de palco mesmo, que não tinha nenhuma pretensão de virar disco, nem nada do tipo, e é um trabalho que eu sempre quis ter feito. Na verdade, eu já vinha esboçando a ideia do “Over” há uns anos. Quando rolou a oportunidade de fazer, em 2017, foi super legal, e resolvi fazer apesar de já estar gravando o disco. O que aconteceu foi que o disco chegou em um momento meio inesperado, foi surpreendente, eu não esperava que fosse fazer um disco tão rápido. Mesmo assim resolvi fazer o “Over”, mesmo que por pouco tempo. Talvez ele volte. Terminei a temporada para me dedicar totalmente ao disco, mas nunca fecho essa porta. Como ele é um espetáculo com dois violões e um conceito de concerto mesmo, é um trabalho que pode voltar, sim, em algum momento. Depende muito das circunstâncias da vida, mas foi uma delícia fazer esse show.

Várias de suas músicas foram incluídas em trilhas de novelas. O quanto isso ajuda a divulgar o trabalho?
Música na novela é a maior difusão de música que existe no Brasil. É a certeza de que você vai ser ouvido por muitas pessoas, de muitos lugares, então é bastante interessante que você coloque uma música e que no interior do Acre alguém vai ouvir isso, acho que é riquíssimo. Adoro ter música em trilha de novela, de filme, porque é uma maneira de se comunicar com as pessoas que não necessariamente estariam em contato com a sua música.

Você também já teve a oportunidade de dividir o palco com nomes consagrados da música brasileira e tem a parceria da Zélia Duncan no novo trabalho. O que isso significa pra você?
É um prazer e um privilégio poder fazer música com pessoas que sempre me influenciaram. Acho que fazer música com meus amigos, como a Zélia e outros que tanto admiro, é um presente sem igual. Ter a Zélia no disco e ter composto “Só Por Ti” com ela é um grande privilégio, uma grande alegria.

Há quem o classifique como o melhor cantor da geração pop surgida nos anos 2000. O que você acha disso?
Fico super emocionado, feliz e agradeço muito às pessoas que me consideram um dos maiores artistas do Brasil. Acho que é um privilégio poder fazer música num país que é lugar de tanta música, de tanta pluralidade, de comportamento, de caras, de jeitos, especialmente hoje que estamos dialogando tanto e, graças a Deus, dialogando com todos os espaços do Brasil, então tem música sendo feita em todo canto. É muito bom ser um intérprete, um artista diante de tanta riqueza, e fico muito emocionado com o carinho do público, das pessoas que valorizam o meu trabalho nesse nível, de me colocar nesse lugar e de valorizar nesse ponto o meu trabalho.

Cauby Peixoto disse uma vez que você é um dos novos cantores que ele mais admirava. Mas muita gente te compara com o Ney Matogrosso. De qual dos dois você mais se aproxima?
O Cauby e o Ney são dois grandes intérpretes. Acho que a gente vem muito desse lugar, que é das vozes, isso vem junto deles, da Betânia, da Elis, de Clara Nunes, Caetano. O Brasil é um país de cantores, de vozes e de extrema conexão com a música. Gosto de todos, acho que são grandes exemplos para todos os intérpretes da minha geração e das gerações que virão. Sou muito grato ao trabalho dessa gente incrível e também muito grato ao trabalho de outros artistas que me influenciaram muito, como Chico Buarque, Milton Nascimento, artistas que falam muito do meu coração e que também trazem consigo essa riqueza que temos na música brasileira.

O que nem todo mundo sabe é que, além de intérprete, você também é compositor. Canções de sua autoria devem aparecer cada vez nos seus discos?
Acho que sim. Naturalmente, eu sempre compus. O meu primeiro disco era inteiramente de canções minhas. “Fôlego” tinha oito músicas minhas, o “Tomada” acho que cinco. No novo tem três, mas acho que só isso por causa do contexto estético do disco. Quando vamos fazer um disco, ele se conta, ele se fala, não tenho como prever qual é o repertório de um disco ou de um futuro projeto. É claro que sempre vai ter música minha, porque adoro compor e é natural. Mas realmente a composição vem de um lugar de muita liberdade pra mim. Gosto de poder ter esse espaço de compor, de ter esse tempo, de me ouvir pra poder escrever o que realmente quero escrever. Também pesquisar e ouvir e estar aberto à composição de outros artistas é uma composição. Ser intérprete, pra mim, também é compor em cima de outra composição. Então, diante disso, só escolho músicas como intérprete que dizem respeito à minha voz e ao que quero dizer naquele momento, seja de minha autoria ou não. O que interessa é o que estou querendo dizer naquele disco.

“Catto” vai ganhar uma turnê em 2018?
Sim, a turnê vai rolar em 2018. Vai começar provavelmente depois do Carnaval. Nas redes sociais, vamos falar tudo sobre essa turnê, aguardem as novidades. Vamos gerar bastante material para comunicar a turnê e esperamos ir para todos os lugares do Brasil.

– Marcos Paulino é jornalista editor do site Mundo Plug (www.mundoplug.com)

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