Literatura: “Linha M”, de Patti Smith

por Bruno Capelas

Comecei a ler “Linha M”, de Patti Smith, de forma despretensiosa — comprei o livro há algum tempo, em uma Feira do Livro da USP, mas nunca o tirei da estante. A razão é simples: apesar de ter lido — e gostado muito — de “Só Garotos“, primeiro livro de memórias da poeta punk de Nova York, eu nunca fui exatamente um grande fã seu. (A memória pode me trair, mas acho que li “Só Garotos” antes de completar minha primeira audição completa de “Horses“, seu grande disco). A prosa de tom delicado de “Só Garotos” foi o que me fez comprar “Linha M” (os dois editados no Brasil pela Companhia das Letras).

A despretensão de ler “Linha M” (“M Train” no original) também tem surgiu por razões pessoais. Cheguei ao fim de 2017 morto de tanto trabalhar — um bocado por opção própria. Cabeça vazia, o ditado é bem conhecido. Enquanto escrevo essas linhas, me preparo para ir dormir antes de meu último dia de trabalho coletivo nesta temporada. Comecei a ler o livro pouco antes do começo do plantão de Natal, época em que nada acontece e os dias parecem se arrastar à espera de algo — “love is the ring, the telephone”, vale sempre lembrar.

O que me chamou a atenção no começo do livro é que quase sempre que eu acabava um capítulo (quase sempre acompanhado da audição de “Harvest Moon”, de Neil Young, disco que até é citado en passant por Patti) me dava uma instantânea vontade de dormir. Mas é uma vontade diferente de dormir: não é porque o livro fosse chato, mas apenas porque seu ritmo lento, contemplativo, pedia isso. Ao percorrer as páginas, entendi o porquê: ao contrário de “Só Garotos”, no qual conta a história de seu relacionamento com o fotógrafo e artista Robert Mapplethorpe, “Linha M” é um livro “em suspensão”, escrito sob o efeito das memórias da vida ao lado de Fred ‘Sonic’ Smith (do MC5), com quem Patti viveu entre 1980 e 1994 — quando ele morreu, vítima de um ataque cardíaco.

A diferença não é tão evidente à primeira vista: “Só Garotos” é um livro sobre o passado. Já “Linha M” é sobre o presente em ausência — mesmo tendo sido escrito quase duas décadas depois a morte de Fred. Não importa se está em viagem, por México, Japão, Espanha ou Alemanha, ou em sua Nova York vendo seriados policiais e tomando incontáveis cafés (até para aplacar o seu próprio ritmo): a narrativa de Patti sente os efeitos dessa “letargia”, desse espaço “entre” em que o nada parece preencher os dias. É um livro bonito, “dolorosamente bonito” como diz a frase crítica escolhida para estampar a contracapa e convencer o incauto leitor a embarcar nessa jornada.

Acompanhar Patti nesse caminho não é exatamente simples: sua escrita é dispersa, alternando sonho, realidade, viagem e memória. Mas é um exercício interessante — afinal, a própria cabeça do leitor também não funciona assim? Ao ler “Linha M”, me deixei levar por páginas apenas percorrendo as letras e pensando em histórias da minha própria vida que ressoavam com as letras de Patti — o café especial que ela toma no México me trouxe à tona o mate que passei uma tarde inteira bebendo em Colônia do Sacramento no ano passado. A ausência de Fred, as histórias vividas juntas com ele e que não podem mais ser compartilhadas, também me fizeram pensar nas minhas próprias, à maneira que me cabe.

E essa foi talvez a maior beleza de “Linha M” para mim: ao contar seu pequeno cotidiano, Patti Smith me fez pensar em como o meu dia a dia funciona — e como as lembranças são escolhas. Posso levar algumas frases bonitas do livro (minha favorita é “Desculpe, hoje não tem leite, só alegria”, dita pela autora a um gatinho encontrado em sua nova casa em Rockaway Beach, na zona metropolitana de Nova York), mas não preciso levar sua história exatamente comigo. É como se o livro fosse mais do que tinta e papel, mas sim, um espelho — mágico, talvez — que revele não só o que há dentro do leitor, mas também o que falta nele. Às vezes, é o suficiente.

– Bruno Capelas (@noacapelas) é jornalista e trabalha no caderno Link, de O Estado de São Paulo

Leia também:
– Um clássico: “Horses”, o primeiro disco de Patti Smith (aqui)
– “Só Garotos” é para todos aqueles que ainda acreditam no amor (aqui)
– Leia um trecho de “Só Garotos”: Patti Smith, CBGB e Television (aqui)

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