Três filmes: “Extraordinário”, “Assassinato no Expresso do Oriente” e “Os Meyerowitz”

resenhas por Adriano Mello Costa

“Extraordinário”, de Stephen Chbosky (2017)
August Pullman, mais conhecido como Auggie, tem 10 anos e uma vida bem diferente da maioria das crianças da mesma idade. Desde que nasceu, passou por 27 cirurgias para corrigir diversas situações e, mesmo com o sucesso delas, seu rosto ainda exibe deformidades acentuadas. Educado pela mãe em casa e amparado por toda uma rede de proteção familiar, August vê as coisas mudarem quando começa a ir para a escola pela primeira vez e passa a lidar com todo o assombro e preconceito dos demais alunos. “Extraordinário” (Wonder, no original) é a adaptação do livro homônimo da escritora R. J. Palacio, que fez bastante sucesso e rendeu trabalhos posteriores, dirigida por Stephen Chbosky (autor do livro e roteirista do filme “As Vantagens de Ser Invisível”). O resultado é bastante fidedigno as páginas e apresenta Jacob Tremblay (do ótimo “O Quarto de Jack”) no papel principal, com Julia Roberts e Owen Wilson como os pais. A maior parte da película é narrada pela visão do protagonista, porém, os demais envolvidos como coadjuvantes também contam sua visão da história na tela. A mensagem de “Extraordinário” é nobre e mais do que nunca necessária: é preciso respeitar as diferenças e aqueles que não são iguais a nós. O filme ainda avança delicadamente sobre a questão do bullying. Contudo, “Extraordinário” é a típica produção feita sob medida para emocionar o espectador. Tudo é pensado nesse sentido. Cada frase, cada gesto, cada mensagem que fica nas entrelinhas moldam um tradicional longa que pega uma ideia de validade universal e a transforma em produto açucarado para o grande público. Com atuações bem medianas, exceção feita a Jacob Tremblay, Izabela Vidovic (que interpreta a irmã) e Sônia Braga (que faz a avó materna), o filme emociona por conta da mensagem, mas incomoda em igual escala por tamanha plastificação.

Nota: 5

“Assassinato no Expresso do Oriente”, de Kenneth Branagh (2017)
Há muita coisa para se admirar na carreira do norte-irlandês Kenneth Branagh. O ator, diretor, roteirista e produtor têm várias obras respeitáveis no currículo, como, por exemplo, as adaptações de William Shakespeare para o cinema. Em 2017, Branagh adentra o universo de suspense, crimes e mistério da escritora Agatha Christie transportando para as telonas o famoso “Assassinato no Expresso do Oriente” (“Murder on The Orient Express”), publicado originalmente em 1934, onde é responsável pela direção e interpretação do protagonista, o hábil detetive belga Hercule Poirot. O livro já teve adaptações anteriores, mas agora é apresentado com um elenco repleto de estrelas formado por Daisy Ridley, Penélope Cruz, Johnny Deep, Michele Pfeiffer, Judi Dench, Josh Gad e William Dafoe. Além disso, faz parte de um plano maior de levar mais trabalhos da autora para um novo público. A trama foi modificada levemente pelo roteirista Michael Green, todavia mantêm a essência intacta. Durante uma viagem no expresso do título ocorre um assassinato que logo cai nos braços de Poirot para resolver quando a neve tira o transporte dos trilhos e o impede de ir adiante. Ali, parados e sem auxílio, o detetive parte para a resolução do caso, mas se depara com uma vastidão de dissimulações, mentiras e informações desconexas que o trava na busca rápida pelo culpado, coisa não muito comum na carreira e que o deixa meio transtornado. Com ritmo lento e sincopado, Kenneth Branagh conduz o filme revelando um pouco de cada vez e, para quem não conhece o livro ou não viu as adaptações anteriores, deixa o mistério em alta até o esperado último momento. Esse ritmo cadenciado pode até não agradar espectadores acostumados com filmes a 180 por hora, mas serve perfeitamente a este “Assassinato no Expresso do Oriente”.

Nota: 7

“Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe”, de Noah Baumbach (2017)
Harold Meyerowitz (Dustin Hoffman) é um escultor e ex-professor universitário que teve relativo destaque na primeira profissão e foi mais aplaudido na segunda. Amargurado com o reconhecimento que nunca teve, mas não deixando isso transparecer tão fácil (pelo menos ele acha que não), Harold mora em uma boa casa com a mais recente esposa, Maureen (Emma Thompson). É o personagem de Hoffman que serve de ponto de partida para todos os acontecimentos de “Os Meyerowitz: Família Não Se Escolhe” (“The Meyerowitz Stories”, no original), uma produção do Netflix que causou discussão esse ano sobre a possibilidade de longas feitos e distribuídos na plataforma poderem participar de festivais (foi exibido em Cannes). Discussões à parte, o novo filme do diretor Noah Baumbach (de “Frances Ha”, “Enquanto Somos Jovens” e “Mistress America”, entre outros) é um ótimo trabalho. Explora temas já conhecidos na sua filmografia e apresenta personagens deslocados e com pouca aptidão social no meio de relações disfuncionais – na maioria das vezes. Tudo tem início quando Danny (Adam Sandler, talvez no trabalho mais interessante de sua carreira) chega para passar uns dias com o pai em Nova York junto com a filha Eliza (Grace Van Patten). Danny largou a carreira de músico para criar a filha e agora que está divorciado e a filha vai para a Universidade, está perdido, bem perdido. No decorrer da trama aparecem a irmã Jean (Elizabeth Marvel) e Matthew (Ben Stiller), todos igualmente detonados pelos anos de convivência com o egoísmo e rancor escondido do pai. Com diálogos afiados que se cortam e atravessam em uma dinâmica que só os próprios personagens entendem, Noah Bambuach extrai de cada ator um trabalho contundente num drama familiar maluco que no meio dos acontecimentos usa o humor como forma de amenizar as pesadas dores silenciadas.

Nota: 8

– Adriano Mello Costa assina o blog de cultura Coisa Pop: http://coisapop.blogspot.com.br

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