Entrevista: Young Lights

entrevista por Bruno Lisboa

Após um EP em 2013 (“An Early Winter”) e um álbum cheio (“Cities) em 2014, a Young Lights chega agora ao segundo disco, “Young Lights” (2017), o primeiro registro com a atual formação composta por Vitor ”Boss” Ávila (guitarra), João Paulo Pesce (baixo) e Gentil Nascimento (bateria) mais Jairo “Jay” Horsth Paes (vocal). Com produção de Leonardo Marques, o disco novo traz oito faixas e conta com as participações de Gustavo Bertoni (vocalista do Scalene) em “Fast Heart” e do guitarrista Matheus Fleming (Câmera) em “Understand, Man”.

“Young Lights”, o disco, também marca o desligamento da banda com o coletivo cultural Geração Perdida de MG e a aproximação do grupo com a produtora cultural Quente, casa de nomes como Oceania, Pequeno Céu, M O O N S e Dibigode, entre outros. “Não faz muito sentido pra gente ficar só em uma bolha, só em uma realidade ou em algo mais fechado”, conta Jairo “Jay” Horsth Paes em entrevista exclusiva ao Scream & Yell, uma conversa que mostra que o grupo está querendo voar mais alto. “O que a gente mais quer agora é tocar”, avisa Jay.

Formada como projeto pessoal de Jay em 2014 (ele nasceu em Belo Horizonte, mas cresceu nos Estados Unidos, local de onde retornou em 2010), a Young Lights agora é um quarteto em que todos os músicos colaboram intensamente na sonoridade: “Todo mundo contribuiu igualmente”, avisa Jay, que aproveita o bate papo para elogiar o estúdio Ilha do Corvo e o produtor Leonardo Marques, falar do processo de composição do disco e, ainda, louvar a cada vez mais forte atuação das mulheres na cena alternativa nacional. Confira o papo.

Ouça e baixe “Young Lights” no Bandcamp oficial do quarteto mineiro

“Young Lights”, o disco, soa de certa forma mais coeso do que os discos e EPs anteriores. Como foi o processo de criação do disco?
Bicho, o processo foi meio que uma loucura, mesmo. Acho que foi no começo de 2016 que começou a pré-produção. Escrevi uma porrada de música (sério, tipo umas 27 músicas) e eram todas “meia boca”, sem arranjos e com aquelas letras de “ah vou colocar isso aí e depois eu penso em algo mais inteligente pra falar” (risos). Acho que estava numa fase bem criativa por conta da falta de músicas novas nos shows. A gente estava tocando as mesmas músicas há três anos, coisas que gravei praticamente sozinho, com amigos e produtores. Anyways, eu e o João começamos a morar juntos numa casa enorme e montamos um estúdio no meio da nossa sala. Ao invés de uma TV de LED bonitona a gente comprou uma bateria e colocou lá no meio. Em vez de mesas a gente tinha amps e PAs, foi muito boa essa época e fico até com uma puta saudade porque a gente não mora mais lá. Foi uma fase boa da vida viu!? Depois, com as músicas mais ou menos estruturadas, a gente já marcava o estúdio com o Leonardo Marques (Ilha do Corvo), gravava e começava a brincar com elas, tacando uns reverbs, overdubs, uns sons cabulosos de feedbacks, synths dos anos 70…

Como foi trabalhar com o Leonardo Marques? Quais as contribuições ele trouxe para a sonoridade da banda?
Cara, te falo que eu, pessoalmente (Jay), não gosto muito de gravar. Meu tesão mesmo é suar, gritar e cair no palco. Acho gravação um saco e às vezes é muita pressão para executar algo que deveria sair naturalmente de dentro mim. Às vezes acho meio decepcionante. Mas dessa vez foi diferente, fiquei de cara. Primeiro é o lugar, né: a Ilha Do Corvo é um sonho pra qualquer músico. Lá tem até um cheirinho especial, não sei o que é que o Léo faz. Tem um fliperama oldschool, uns 300 instrumentos mais velhos que meu pai com sons absurdamente bons, além de ser um lugar muito confortável, quase nostálgico e muito aconchegante. Você simplesmente se sente em casa. O segundo ponto é o cara: O Leonardo Marques é uma pessoa sensacional, já passou por bandas como Diesel, Transmissor, Maglore, Congo Congo, já produziu uns discos maravilhosos. Ele é muito gente boa, atencioso, organizado, flexível e muito criativo. Antes de a gente começar a gravar, falamos pra ele que queríamos algo bem “BOOOOM” e ele entendeu exatamente. Quando gravamos “Understand, Man” foi quando soubemos que esse disco novo seria grandioso, com uma pegada diferente do que o Léo era acostumado a fazer, e acho que ele curtiu também! Ele ajudou a gente demais em relação a achar sons, timbres das guitarras, som de caixa pra bateira, grave nos baixos, equalização das vozes e a pegada dos violões. Usamos um piano lindão que ele tem no estúdio também, com um som meio sombrio e velho. Indicaria a experiência de gravar com ele pra todo mundo.

Há sempre uma discussão entre músicos quanto ao formato de gravação. Vocês preferem esta linha mais analógica ou preferem a digital?
Preferimos a linha analógica. Achamos que essa linha digital nivelou para baixo muitas bandas. Tudo muito comprimido e moderno demais, sem dinâmica e sinceridade. O disco tem vários errinhos e a gente optou por deixar desta forma em vários momentos mesmo. Entendemos também que não existe melhor nem pior. Acho que pra Young Lights especificamente (que, perto de várias bandas independentes, convenhamos, é bastante comercial), seria positivo ter uma gravação mais analógica e menos moderninha. Se a gente tivesse abusado de compressão, pre-sets ou autotunes, por exemplo, correríamos o risco de deixar o som muito plastificado. Fizemos a escolha certa ao gravar com o Leo Marques porque ele não deixou isso acontecer.

Recentemente vocês anunciaram a saída do Coletivo Geração Perdida. Aparentemente de forma amigável. Quais os motivos levaram a vocês optarem por esta escolha?
A Geração Perdida para mim representava um grupo de amigos muito talentosos que sempre se reuniam e faziam protestos artísticos. A gente bebia demais junto (risos), gravávamos tudo nós mesmos, fazíamos nossos próprios eventos, não dependíamos de ninguém e não éramos presos a nada. Mas eu acho que, ao passar dos anos, se transformou em algo diferente pra mim. A Young Lights sempre foi uma banda bem cabeça aberta pra tocar com outras bandas, fazer corres pra tocar em lugares diferentes, para públicos diferentes e eu acho que a vida, em função disso, foi levando a gente para um caminho diferente do deles. Não faz muito sentido pra gente ficar só em uma bolha, só em uma realidade ou em algo mais fechado. Acho que a gente estava com certa obrigação de ir a todos os eventos que a Geração produzia, sendo que a gente tocava também pra caralho e as datas não batiam, sei lá. É feito um fim de relacionamento mesmo: você vê que não faz mais sentido (até por questão de princípios diferentes) quando está fora. As coisas mudam mesmo, bicho. Continuo amando e apoiando todo mundo da Geração Perdida, pois eles são um grupo de pessoas sinistras e responsáveis pelos melhores discos do país.

Vocês fazem parte da geração de bandas brasileiras que cantam em inglês. Acredito que esta escolha deve-se muito de você ter vivido fora e também pela sonoridade que vocês adotam. Em algum momento vocês já foram pressionados a cantar em português? Tem essa intenção?
Muito boa essa pergunta. Muita gente já encheu o saco até demais. Fica chato demais alguém usar “você canta em inglês” como uma crítica, né. É o jeito natural que penso, falo e consigo aprender, portanto não pode ser surpresa para as pessoas que eu cante em inglês também. Entendo totalmente que talvez tenha gente que cante em inglês só pra tirar onda ou cante em inglês como uma forma de atingir um público maior no exterior e acho esse pensamento bem primitivo. Para mim, a música já é uma linguagem universal em si. Você tem de sentir e não é necessário entender. Por exemplo: as minhas bandas preferidas são Bon Iver, Radiohead, The Tallest Man On Earth e juro por Deus que até eu, como um falante fluente do idioma, muitas vezes não faço a mínima ideia do que essas caras falam nas músicas. Simplesmente amo o jeito que eles conseguem transmitir o sentimento através de melodias e notas no violão. Agora, seria massa demais se eu conseguisse realmente me expressar musicalmente em português. Esse grande dia vai chegar (risos). Já fiz uma música em português pro EP “Distância” da banda Lupe de Lupe. Ela foi feita com ajuda porque escrevo brutalmente errado em português. Inclusive, essa entrevista foi totalmente editada pelo Gentil, então se vocês lerem algo que está bem escrito não foi exatamente eu que escrevi. (O Gentil aqui está “penando” pra conseguir viu?).

É perceptível no novo disco uma maior participação de todos os integrantes, o que fez com que a sonoridade ganhasse mais camadas e energia. Isto se deu devido a uma maior liberdade na hora de compor? Todos puderam contribuir até o resultado final?
Tudo no disco foi bem pensado e ao mesmo tempo bastante natural. Eu escrevia a base das músicas e algumas ideias de arranjo, principalmente bateria. Eu acho que o resto do pessoal, em certos momentos, sentiu um pouco o peso para conseguir atender as expectativas que eu já havia criado na cabeça. Ao mesmo tempo, aprendi demais sobre composição neste período, e aprendi a deixar as coisas em aberto e ficar mais leve porque, na verdade, estávamos todos em um time. A partir do momento que decidi abrir um espaço para esses caras na minha vida e deixar com que eles fizessem parte do projeto/banda Young Lights, tudo deixou de ser “só meu” ou “a banda do Jay”. Todo mundo contribuiu igualmente, eu acho. As guitarras do Boss (Vítor) estão geniais, os baixos do João bem nítidos e groovados e as baterias do Gentil simples e marcantes. A gente faz um belo time e não trocaria eles por nenhum outro “músico fodão”. Do que a gente não entende de progressão de acorde ou teoria musical, a gente foca o dobro em feeling, sentimento e honestidade com a música. Foi essa a nossa missão com esse disco e a declaro cumprida.

Esta energia explosiva presente no novo disco é também muito latente também no palco, como presenciei no show que vi no Festival Transborda. Sei que você é um cantor que adora o palco, mas a transposição da canção, do estúdio para o palco, é difícil?
Massa demais que você conseguiu ir pra este show! Foi um show muito importante pra gente, o Transborda é um dos festivais mais importantes de BH. Cara, essa crítica de “vocês são muito diferentes ao vivo comparados com os discos” foi uma das que a gente mais ouviu. Nesse disco novo a gente levou muito em consideração isso. A gente queria muito que o disco novo tivesse a mesma pegada, energia e emoção dos shows ao vivo. Nos últimos trabalhos (o EP “An Early Winter” e o disco “Cities”) foi tudo gravado com instrumentos emprestados, pessoas emprestadas (com a maior boa vontade, claro) e as músicas acabaram tendo essa sonoridade. O disco novo foi totalmente diferente. Foi o Boss (guitarra) gravando com as guitarras dele, os pedais dele, o timbre que ele gosta, o João (baixo) gravou com o baixo dele (ou algum do estúdio com o timbre parecido) e os efeitos dele, o Gentil gravou com os pratos que ele usa ao vivo. Então, no final das contas, conseguimos transferir, pelo menos sonoramente, o palco para o disco. Não foi nada fácil chegar nesse som, mas veio naturalmente, porque a gente acabou descobrindo eles tocando pra caralho durante quase três anos juntos na estrada. Mas, pra transmitir lá na hora, acho que foi fácil. Até mesmo por ter gravado algumas partes ao vivo. Por exemplo, gravamos baixo e bateria ao mesmo tempo, com uma guia de violão. Também gravei a música que fecha o disco “Singing Bird (In A Cage)” ao vivo.

A Quente tem sido parceira da banda nesta nova empreitada. Como se deu a aproximação? Qual a importância de fazer parte do selo?
Conhecemos a Quente faz um tempo já. Acho que foi em 2015 que a gente começou a trocar ideia com eles sobre uma parecia. O Nest começou a frequentar os nossos shows, a sempre usar a camisa da banda. E essa atitude de achar uma galera que acredita no que você faz foi o que fez essa parceria ser bem bacana. Primeiro eles convidaram a gente pra fazer parte de alguns eventos que eles produziam, desde feiras e festivais como Sonâncias até projetos como o Música Quente. Mas a gente foi naturalmente se aproximando. Eles estão com uma galera foda de BH também como Pequeno Céu, Dibigode, M O O N S, bandas que a gente respeita demais. No começo de 2017, já pensando no disco, pensamos em como poderíamos levar esse material o mais longe possível e concluímos que não tinha mais ninguém em BH que estava disposto a ajudar a gente como a Quente estava. O Marcelo faz toda comunicação, o Luciano faz a logística/financeiro e o Nest acompanha a gente nos shows e faz papel de produtor. Acho que formamos um belo time! Como a gente ainda não vive só de música (todos nós temos trabalho durante a semana), essa parceria de agenciamento e produção deixa a gente com menos tarefas e com mais tempo pra focar nas músicas, nos ensaios e nas redes sociais. Acho que hoje em dia, se você achar uma galera que acredita em você e que está disposta a te ajudar, acredita neles e deixa rolar.

A música brasileira (especialmente a mineira) tem vivido um dos seus melhores momentos de uns tempos para cá. Nesse sentido quem são os espíritos irmãos da Young Lights?
Realmente a cena independente do Brasil e, especialmente de MG, está linda demais de se ver. É muito legal ver tantos amigos lançando disco e trabalhos incríveis como a galera da Geração Perdida — Fernando Motta, João Carvalho (Sentidor/El Toro Fuerte), Fábio De Carvalho, Jonathan Tadeu, Aldan, O Grupo Porco e o próprio Vítor Brauer com os spokenword loucos dele (eles fizeram uma turnê de 52 datas no Brasil em um Corsa ’98, isso é muito louco). A galera da Devise (o Luis Couto principalmente faz um corre absurdo), a galera do Kill Moves, que representa a Balaclava aqui em MG. Mas eu realmente tiraria meu chapéu pra galera da Miêta. Elas são a banda que faz o maior corre aqui em BH, acho. Temos um grande respeito pela banda, até porque elas fazem parte de algo maior que a gente, que é a cena de mulheres na música, que está sendo algo emocionante de se ver espalhando pelo país. As mulheres que tocam em bandas estão mais unidas e juntas coletivamente do que nunca. Respeito demais a nossa irmã Ekena, de SP, que começou alguns festivais feitos totalmente por mulheres. A Flávia (Biggs), de Sorocaba, que faz o Girls Rock Camp, a Ana Garcia (Coquetel Molotov), a galera da PWR Records, as meninas do Laboratório 96 (Uberaba), a Ana Zumpano (Lava Divers). Essas mulheres estão fazendo uma grande diferença na cena independente e espero que continuem. Enquanto isso, acho que, nós homens, ficamos o tempo inteiro disputando, querendo inflar nossos egos e esquecendo da coletividade. Enfim, a gente têm muito de aprender com elas.

Se por um lado há, como você apontou, existe a união das mulheres, de outro há o que o Vitor Brauer chamou, em entrevista por aqui, o status de “criar o seu próprio trono”, onde cada gere individualmente sua própria carreira. Por que isso acontece? O que falta para fazer com que a cena cresça ainda mais, mas de forma coletiva?
Acho que os dois pensamentos nem estão em lados tão diferentes assim, são até complementares. Gerir individualmente a própria carreira é tomar as melhores decisões sem ficar dependente dos outros, mas pensar coletivamente só tende a melhorar pra todo mundo, inclusive pra você (risos). O próprio Vitor fez um projeto com 52 versões de músicas de bandas independentes. As bandas divulgam essas versões, os fãs dessas bandas acabam conhecendo o trabalho dele e vice versa. Acho que isso é pensar coletivamente. E pra crescer de forma coletiva acho que o pensamento tem que ser focar mais nos pontos em comum do que o contrário. Claro que vão ter bandas, produtores, festivais que vão pensar diferente do você, mas, em algum nível, está todo mundo junto, ninguém na cena é uma multinacional ou algo do tipo. Acho que todo mundo tem que escolher as batalhas que quer lutar, ser verdadeiro a elas e pensar no resto como pormenores. É meio isso: focar nas coisas que realmente importam e nas batalhas que realmente valem a pena lutar senão você vai só se fechar cada vez mais.

Quais são os planos futuros da banda?
O que a gente mais quer agora é tocar. A fase de gravação é bem estressante, né? Então a gente quer fazer muitos shows a partir de janeiro de 2018. Queremos muito ir pro Sul do Brasil e também pro Nordeste, que só conseguimos ir uma vez. Precisamos ir mais vezes a São Paulo também. Enfim, queremos tocar muito daqui pra frente e aproveitar o máximo essa fase pós disco novo. Com relação a material, a ideia é fazer uma boa live para o disco novo nos próximos meses e já lançar músicas novas no segundo semestre de 2018, se tudo der certo.

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão. Escreve para o Scream & Yell desde 2014.

2 thoughts on “Entrevista: Young Lights

    1. Eu sou até suspeito, pois a Young Lights e o programa de música independente que faço, o Pró Ativo (fb/araxaproativo), têm andado lado a lado, rolando a parceria. Mas posso afirmar, pois já tive a oportunidade de vê-los ao vivo que, o som que impressiona em áudio é ainda mais poderoso ao vivo!

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