Entrevista: Putas Bêbadas

entrevista por Pedro Salgado, de Lisboa

Logo no começo da conversa com o Putas Bêbadas no Quiosque do Jardim do Príncipe Real, em Lisboa, enquanto bebe um cafpe, o baixista e vocalista Miguel Abras recorda o momento da sua entrada na banda: “Eles formavam um trio composto pelo Leonardo Bindilatti (bateria), o Hugo “Sushi” (guitarrista) e um baixista que se desinteressou do projeto. Na época, eu tocava baixo, mas não tinha banda e aceitei o convite”, conta. Um ano mais tarde, o conjunto lisboeta editava o EP “Duas Songs” (2012), na mesma altura em que o Pega Monstro lançou o primeiro álbum. A entrada do guitarrista João Dória, pouco depois, coincidiu com um período em que Hugo não pode tocar com o grupo devido a compromissos profissionais. “Agradou-nos a forma como o Dória se enquadrou no grupo, a sua leitura legal das canções e o interesse que ele tinha em canta-las”, explica.

O álbum de estreia, “Jovem Excelso Happy” (2013), mostrava um estilo garage punk contundente e funcionou como manifesto de intenções de uma banda para quem o espírito de 1977 ainda está presente e impulsionou a carreira do Putas Bêbadas. O quarteto atuou no Crak Festival (Bélgica) e fez vários shows durante essa fase. Em função de diversos assuntos pessoais, o processo de gravação do novo disco demorou quatro anos, mas recompensou o esforço do coletivo. Globalmente, “Orgulho de Ex-Buds” (2017), mantém a aceleração dos trabalhos anteriores, destacando-se a arrasadora “Geme”, a pegada dançante de “Proteína” ou a atmosférica “Fada Deste Lar”, num registo subversivo e sexual, mas plenamente confiante.

Fazendo jus à sua postura guerreira, a banda apresentou o novo álbum num ringe de luta após um combate de Muay Thai, em Novembro, no Campolide Atlético Clube. Para além da tentativa de desformatar os moldes dos shows e sugerir alternativas em iniciativas similares, a identificação de processos também norteou a festa de lançamento do disco. “A nossa música sempre se relacionou com o conceito de combate, uma luta não violenta, mas bruta e quisemos mostrar isso de forma distinta sem recorrer apenas a uma atuação prévia de outro grupo”, refere João Dória.

As letras de Miguel Abras, um dos aspectos marcantes do conjunto, descrevem habitualmente um personagem imaginário, que anda na rua, metido em apuros, quase sempre bêbado e violador. Uma das novas figuras criadas pelo músico lisboeta é apresentada na faixa “Gorduchinha” com sentido de humor. “Essa música relata a história de um sujeito desesperado que toma um relâmpago no saco quando se encontra numa falésia transformando-se em empregada escolar. Como já lavei pratos foi nesse universo que me inspirei para escrever a canção. Tento sempre pegar em figuras que não são retratadas (risos)”, conclui. De Lisboa para o Brasil, o Putas Bêbadas conversou com o Scream & Yell. Confira:

“Orgulho de Ex-Buds” é um disco catártico no qual a voz se destaca e engloba várias soluções rítmicas. Sentem que o novo disco superou “Jovem Excelso Happy”, o álbum anterior?
Não tanto, porque o álbum anterior estava fechado nele próprio e este trabalho reflete apenas a nova abordagem estética que temos nessas canções. O outro disco foi gravado em fita K7, usando o formato como “engenharia” desse álbum e no “Orgulho de Ex-Buds” utilizamos o auto-tune. Esse efeito resultou de uma descoberta, não foi premeditado, nem planejamos que a voz tivesse um papel tão forte no trabalho. Depois percebemos a força que essa construção iria dar às músicas e inclusivamente fizemos coros. É um pouco como muitas bandas têm feito até hoje. Nesse capítulo, os Beach Boys são referências e agradam-nos. Acaba por ser uma lufada de ar fresco. Tentamos fugir do punk tradicional, apesar da estrutura estar presente e a banda ter essa raíz. Por isso, esse disco não é o passo maior, mas apenas a etapa seguinte.

Agradou-me a fúria sônica e a provocação sexual de “Fada Deste Lar”. Em quem se inspiraram para fazer essa música?
Essa canção foi inspirada numa ex-namorada do Dória e a parte que ele canta aborda os encontros românticos, enquanto o Abras tem uma perspectiva mais sexual, agressiva e crua. Na canção, também é evocado o aspecto florestal sugerindo uma ninfa e a paixão desconhecida. É uma espécie de paradoxo entre borboletas e violência sexual.

Um dos aspectos que mais me impressionou no show foi a sua liberdade interpretativa e a convicção com que abordaram o hardcore e o punk rock. Identificam-se com esta perspetiva?
Sim, temos uma forma criativa de abordar a música que escutamos e aceitamos diferentes modos de interpretação. O Putas Bêbadas não gravou o disco tocando ao mesmo tempo. Se o tivesse feito daria outro estímulo à banda. Como no nosso show cada elemento cai para cima do outro, numa espécie de derrocada, esse fato gera um efeito poderoso. O punk e o hardcore são referências do grupo e isso reflete-se na música que fazemos.

Sendo integrantes da Cafetra Records como vêm a evolução do selo?
Ainda estamos aprendendo a fazer as coisas da melhor forma, mas, durante estes 10 anos, evoluímos imensamente na forma como programamos eventos, distribuímos a nossa música e tentamos aprimorar esse processo. Fazemos o trabalho independente de sempre, usando como recurso o tempo disponível e a vontade que temos no desenvolvimento das várias tarefas. O espírito de cooperar e escrever canções mantém-se inalterado.

Identificam-se com algum músico ou banda brasileira?
Agrada-nos a provocação do Mamonas Assassinas e a forma de cantar do Tim Maia. O funk e a sua conotação sexual, meio garanhão, não sendo uma influência direta, também nos seduz. Para além disso, apreciamos o metal feminino brasileiro dos anos 80 e de uma banda punk de São Paulo, o Olho Seco. A música “Orgasmo Legal”, do Júpiter Maçã, é um dos temas da nossa preferência. Gostamos bastante de música brasileira, embora não se manifeste diretamente na sonoridade do Putas Bêbadas.

Qual é a ambição futura de vocês?
Fazer muitos discos, continuar tocando, enquanto tivermos algo para dar ao público, e arrumar um espaço maior em Portugal para que mais pessoas escutem a banda. Atuar no Brasil seria muito legal, mas também pretendemos inovar o nosso trabalho. O futuro é imprevisível e só o caminho que trilharmos poderá esclarecer todas as questões.

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell desde 2010 contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui.

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