Boteco: Seis cervejarias brasileiras, doze cervejas

por Marcelo Costa

Abrindo uma série de dobradinhas com duas Urbanas, de São Paulo, da linha experimental ULab, da Urban. A primeira é a Relaxe e Gose, colaborativa com o Empório Alto de Pinheiros e colaboração o chef René Aduan Junior, da Alma Rústica Gastronomia, que desenvolveu um blend de sete sais juntando o polonês Rocha Kamienna, o indiano Rosa do Himalaia, o iraniano Azul Safira, o austríaco Salzburg, o francês Guérande mais os italianos Sale Dolce e Sale Dei Papi. O resultado é uma cerveja de coloração amarelo palha com creme branco vasto saltando pra fora da taça e permanecendo bastante tempo. No aroma, sal, mineral e prenuncio de acidez se destacam sobre uma base discreta de trigo. Na boca, acidez, cítrico puxado para limão, azedume e salgado chegam juntos e potentes no primeiro toque. Na sequencia, a acidez faz uma varredura limpando o palato (esqueça o amargor: são apenas 15 IBUs que são apagados pela força da acidez e do azedume). A textura é frisante e acética. Dai pra frente um conjunto arisco que lembra muito uma Berliner alemã tradicional, ainda que mais salgada. No final, limão e sal. No retrogosto, adstringência, sal e refrescancia. Bem boa!

A segunda da linha experimental ULab presente neste post é, assim como a primeira, produzida na fábrica da Dádiva, em Várzea Paulista: Funkylicious, uma Belgian Strong Golden Ale que recebe adição da levedura Brettanomyces naa refermentação na garrafa. De coloração dourada translucida com creme branco de alta formação, rápida diminuição do creme, mas com durabilidade rala longa. No nariz, bastante Brett encantando o fã com sugestões de couro, condimentação (pimenta do reino), uva e vinho branco. Na boca, doçura suave e uva verde azedinha no primeiro toque se abrindo com leve radicalização Bretta na sequencia que oferece condimentação, picância, acidez, azedume discreto, mais uva e vinho branco e couro de cavalo. A textura é sedosa com leve picância e o amargor (25 IBUs) fica em terceiro plano, já que a Brett brilha definitivamente nesta bela cerveja que finaliza levemente picante. No retrogosto, pimenta do reino, doçura e couro de cavalo. Amor.

Produzida também em Várzea Paulista, este novo rótulo da “linha vermelha” da paulistana Tito Bier homenageia a teórica alemã Rosa Luxemburgo (as anteriores haviam sido a Trotsky Red Ale e a Goethe Kolsh – e ainda falta a Marx Red IPA) com uma Altbier, estilo de cerveja clássico de Düsseldorf. De coloração âmbar clara alaranjada com creme bege clarinho de ótima formação e média alta retenção, a Tito Bier apresenta um aroma bastante maltado com doçura caramelada surgindo em primeiro plano além de leve tosta trazendo algo de toffee e de açúcar queimado. Na boca, a pegada maltada traz doçura caramelada e, também, toffee e tosta, o que deixa o conjunto muito mais interessante. A textura é suave e o amargor subsequente, médio, 46 IBUs justos e bem representados. Dai pra frente surge um conjunto que honra o estilo, com doçura suave até o final, amarguinho. No retrogosto, amargor e doçura, juntinhos. Bem boa.

A segunda da Tito Bier é, por sua vez, o primeiro latão da cervejaria: Thoreau, uma American Pale Ale Single Hop (Comet) que homenageia Henry David Thoreau, poeta, naturalista, ativista e filosofo que dizia: “De que serve uma boa casa se você não tem um planeta tolerável para colocá-la?”. De coloração âmbar caramelada com creme bege clarinho de boa formação e média retenção, a Tito Bier Thoreau exibe um aroma com frutado cítrico discreto chamando a atenção e sugerindo manga e maracujá bastante suaves sobre uma base deliciosa de caramelo. Na boca, esse encontro de caramelo (mais presente) e frutado cítrico se dá logo no primeiro toque, e é delicioso, abrindo-se na sequencia tanto para mel quanto para manga e maracujá, com leve intensidade. A textura é cremosa e levemente picante. Já o amargor subsequente é mais potente do que os 42 IBUs entregam, abrindo as portas para um belo conjunto, frutado e doce. No final, amargor suave, mas marcante. Já o retrogosto traz manga, amargor suave e leve caramelo. Minha Tito favorita até o momento.

Ainda no interior paulista, mas desta vez em Socorro, casa da Quinta do Malte, que depois da Krait Hop Lager e da Rubra Orange Wheat Ale, retorna com outros dois rótulos. O primeiro é a Don Capo, uma Brown Porter que recebe adição de essência de baunilha, e que foi produzida em colaboração com o Mestre Cervejeiro da Cooperativa Agrária, Alexander Robert Schwarz. De coloração marrom bastante escura com creme marrom claro espesso de ótima formação e média alta retenção, a Quinta do Malte Don Capo exibe um aroma que combina chocolate e baunilha em primeiro plano, oferecendo doçura e delicadeza, mas deixando as notas de torra do malte (café principalmente) escondidas. Na boca, predomínio de chocolate e baunilha logo no primeiro toque, mas com mais presença de café e amargor, ainda que de maneira sutil. A textura é suave e levemente picante, com o amargor (médio) aparecendo mais sobre a língua. Dai pra frente, uma Porter nacional caprichada e que surpreende positivamente. O final é mais amargo do que doce. No retrogosto, chocolate, baunilha e um bastante suave café. Bem boa!

A segunda da Quinta do Malte é uma Belgian Blond Ale cuja receita foi feita especialmente para comemorar os 25 anos da banda Angra, e que agora ressurge com o rótulo tradicional da casa. De coloração dourada com creme branco de média formação e baixa persistência, a Quinta do Malte Blond Ale exibe um aroma bastante adocicado, com caramelo e biscoito em destaque e suave percepção de levedura na base. Na boca, uma repetição caprichada do que o aroma adianta com caramelo potente, mas levedura assertiva desde o primeiro toque, o que traz consigo leve condimentação, que se abre mais delicadamente na sequencia do gole. A textura é suave, quase cremosa, com leve picância tanto da levedura quanto dos 7% de álcool. O amargor (27 IBUs) é baixinho e, dai pra frente, surge um conjunto que paga tributo ao estilo belga com respeito a tradição. No final, doçura caramelada com leve condimentação, sensação que se repete no retrogosto, suavemente.

Ainda no interior de São Paulo, mas agora em Ribeirão Preto com a primeira cerveja da Lund a passar por aqui, a American Pale Ale da casa, uma cerveja de coloração âmbar acobreada com creme branco de boa formação e média alta retenção. No nariz, bastante equilíbrio entre mel e doçura caramelada (derivados do malte) com sugestão suave, mas facilmente perceptível, de notas cítricas, sugerindo laranja, derivadas da lupulagem – há ainda remissão a biscoito e balinha de laranja. Na boca, o conjunto segue equilibrado com laranja, mel e caramelo juntos no primeiro toque seguidos de um amargor bastante suave, 41 IBUs comportados. A textura é suave, quase cremosa, com leve picância (de lúpulo, que aparece mais sobre a língua do que na garganta). Dai pra frente, um conjunto bastante agradável por dosar com muito equilíbrio os ingredientes da receita, que resultam em uma cerveja saborosa e refrescante. No final, doçura e cítrico, percepções que retornam deliciosamente no retrogosto.

A segunda Lund tira o American do nome e se assume apenas (Belgian) Pale Ale, uma cerveja de coloração âmbar alaranjada com creme bege clarinho e espesso de ótima formação e longa retenção. No nariz, malte em destaque sugerindo caramelo, biscoito e leve frutas secas. Já o lúpulo acrescente um suave toque cítrico (laranja, abacaxi) com calda de doce em compota. Na boca, a textura é levemente áspera e, depois, vai ganhando cremosidade. O primeiro toque sugere doçura maltada com leve toque frutada de laranja no primeiro toque. Na sequencia, o dulçor ganha corpo com caramelo e o frutado fica na base. O amargor é bem mais baixo do que na versão American, 25 IBUs moderadíssimos que apenas acalantam um conjunto muito caprichado, com malte bastante presente, leve presença de lúpulo e levedura, e um agradável final, carameladinho e levemente amargo. No retrogosto, caramelo, herbal suave e frutado. Boa!

De Ribeirão Preto para Itoupavazinha, bairro de Blumenau, com a Angela Witbier, da Hemmer Cervejas Artesanais (produzida na fábrica da Cervejaria Blumenau). Na receita, cevada, trigo, trigo não malteado, especiarias e extrato natural de laranja. De coloração amarelo palha (padrão Hoegaarden) e creme branco espesso de boa formação e média retenção, a Hemmer Angela Witbier (que homenageia a neta do fundador da empresa, Heinrich Hemmer) exibe um aroma com notas cítricas artificiais que remetem a suco de laranja dominando o olfato – há pouco espaço para a doçura do trigo tanto quanto para especiarias e levedura. Na boca, a mesma sensação que o aroma adianta, com sabor artificial de laranja dominando o primeiro toque e, na sequencia, abrindo espaço para uma sútil presença de especiarias e trigo. A textura é suave e o amargor praticamente inexistente (como pede o estilo), com apenas 10 IBUs. Dai pra frente surge uma cerveja leve e refrescante, mas marcada pela artificialidade do extrato de laranja adicionado na receita. No final, doçura e cítrico, sugestões que retornam no retrogosto.

A segunda vinda de Itoupavazinha é a Hemmer Emma Weizen, uma cerveja que homenageia a esposa de Heinrich Conrad Otto Hemmer, filho do fundador, que ficou viúva muito jovem, e conduziu os filhos a construir a base e os valores da empresa. Trata-se de uma German Weizen bastante tradicional, de coloração amarela bastante turva com creme branco espesso de boa formação e média alta retenção. No nariz, os aromas clássicos deste estilo alemão, banana e cravo, saltando para fora da taça acompanhados de leve bubblegum. Na boca, a textura é cremosa e muito levemente picante. O primeiro toque traz banana em primeiro plano e cravo bem suave, que vai se desfazendo dai pra frente enquanto a banana toma a dianteira num conjunto cujo amargor é de 10 IBUs (ou seja, nada). Dai pra frente, 90% de banana e 10% de cravo até o final, levemente picante. Já o retrogosto reforça o predomínio da banana. Boa Weizen.

Partindo agora para duas curitibanas da Way, sendo que a primeira já passou por aqui em sua segunda versão, e agora retorna com o resultado de seu primeiro teste: Way Watermelon 1, colaborativa dos curitibanos com a turma da Jester King, de Austin, nos Estados Unidos, lançada em janeiro de 2017, uma Fruit Beer com adição de suco de melancia e hibisco (que foi trocado pela pitaya na versão 2, que chegou ao mercado em setembro). A diferença já surge na cor, mais amarelada na versão 2, e aqui totalmente avermelhada. O creme é branco e de baixa formação e média retenção. Assim como a versão 2, a Way Watermelon 1 traz um aroma com percepção nítida da melancia em destaque com leve percepção de malte, hibisco, trigo e levedura. Na boca, melancia no primeiro toque com bastante presença de hibisco, que perde terreno na sequencia. A textura é suave, quase cremosa, e o amargor não existe, sobrando dai pra frente bastante melancia, hibisco perceptível e leve maltado. No final, melancia. No retrogosto, melancia… e hibisco. Boa, mas a versão 2 parece melhor definida.

Encerrando a série com a Way Farmhouse Ale Butiá, colaborativa dos curitibanos com a turma da Stillwater Artisinal, de Baltimore, em Maryland, nos Estados Unidos. Produzida no final de 2014 e lançada em maio de 2015 no tradicional Copenhagen Beer Celebration, na Dinamarca, a Way Farmhouse Ale Butiá segue a tradição do estilo belga, mas acrescenta polpa do Butiá na receita – a cerveja ainda passa por uma segunda refermentação com Brettanomyces. Na taça, a coloração é dourada levemente turva e alaranjada com creme branco de média formação e retenção. No nariz, o fedorzinho característico do estilo unindo notas cítricas, percepção suave de azedume e de acidez, doçura frutada e o funky tradicional da Bretta. Na boca, não há tanto brilho quanto no aroma, mas é possível perceber doçura frutada (Butiá) no primeiro toque que se abre, na sequencia, em aridez, acidez e azedume funky, tudo isso de maneira suave, mas arisca. A textura é cremosa e picante (como se fosse pimenta do reino) e o amargor é baixo, já que o que conta aqui é o funky da Brett trazendo azedinho e aridez em meio ao frutado. No final, mais frutado, menos azedume. Já o retrogosto “equilibra” o conjunto com pimenta do reino, Butiá e acidez suave. Que delicia!

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Balanço
A paulistana Urbana marca presença com uma Gose experimental potente salpicada com seis sais e incrivelmente fiel ao estilo alemão remetendo a uma das melhores Goses já feitas nesse país, a Abadessa Gose. Excelente. Outra Urbana experimental na área, e ainda melhor que a primeira: Funkylicious, uma Belgian Strong Ale deliciosamente zuada pela Brett. Amor. Primeira de duas da Tito Bier, a Rosa é uma Altbier que honra este delicioso estilo alemão, em que os lúpulos conseguem equilibrar a doçura do malte de maneira caprichada. Já a Tito Bier Thoreau é uma delicinha encatandora, com doçura de malte e frutado cítrico combinando de maneira incrível. A primeira de duas da Quinta do Malte foi uma grata cerveja: Don Capo, uma Brown Porter com essência de baunilha que desceu sossegadamente. Delicinha. A segunda da Quinta do Malte é excessivamente tradicional, mas cumpre com galhardia a função de replicar o estilo Belgian Blond Ale. A Cervejaria Lund estreou muito bem com sua American Pale Ale equilibradíssima, caprichadíssima, e de alto drinkability. Beberia mais algumas se tivesse na geladeira. Delicinha. Já a versão (Belgian) Pale Ale da Lund mantém o capricho da receita, mas perde um pouco de brilho quando comparada a versão American. A primeira de duas Hemmer decepcionou por trazer muita laranja artificial num conjunto bastante leve, o que fez com que ela tomasse a frente e se destacasse. Uma pena. Já a Emma Weizen consegue replicar com maior proximidade o estilo alemão, o que é difícil no Brasil, ainda que algumas alemãs de alto padrão cheguem num preço similar às gondolas brasileiras. Partindo agora para a Way, de Curitiba, primeiro com a Watermelon Ale versão 1, inferior a 2, mas ainda interessante.

Urbana Relaxe e Gose EAP
– Produto: Gose
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,48/5

Urbana Funkylicious
– Produto: Belgian Strong Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: 3,85/5

Tito Rosa
– Produto: Altbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.3%
– Nota: 3,33/5

Tito Thoreau
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5.3%
– Nota: 3,48/5

Quinta do Malte Don Capo
– Produto: Brown Porter
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.5%
– Nota: 3,37/5

Quinta do Malte Belgian Blond Ale
– Produto: Belgian Blond Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7%
– Nota: 3,08/5

Lund American Pale Ale
– Produto: American Pale Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3,21/5

Lund Pale Ale
– Produto: Golden Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,09/5

Hemmer Angela Witbier
– Produto: Witbier
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 2,81/5

Hemmer Emma Weizen
– Produto: German Weizen
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.6%
– Nota: 3,01/5

Way Watermelon Ale 1
– Produto: Fruit Beer
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 4.7%
– Nota: 3,07/5

Way Farmhouse Ale Butiá
– Produto: Farmhouse Ale
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 7.2%
– Nota: 4,00/5

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– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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