Entrevista: Jota Quest (2017)

entrevista por Marcos Paulino

O dia 22 de setembro foi marcante para os mineiros do Jota Quest. Nessa data, além de subirem ao palco do Rock in Rio pela quarta vez, lançaram o primeiro projeto acústico de seus mais de 20 anos de carreira. Em CD e DVD, “Acústico Jota Quest – Músicas Para Cantar Junto” reúne 22 sucessos de todas as fases da banda. Também foram incluídas três canções inéditas, compostas em parcerias com Alexandre Carlo (Natiruts), Wilson Sideral e Leoni.

O show apresentado no acústico foi registrado nos dias 11 e 12 de maio, nos Estúdios Quanta, em São Paulo, para uma plateia formada por poucos fãs, alguns amigos e conhecidos do mundo da música. A apresentação contou com as participações especiais de Milton Nascimento e Marcelo Falcão (O Rappa) e a produção musical foi do velho parceiro Liminha, que também tocou violões.

Entre o início do projeto e o lançamento do acústico, Rogério Flausino, Marco Túlio, PJ, Paulinho Fonseca e Márcio Buzelin gastaram quase um ano pra traduzir os muitos hits da banda para o novo formato. Trabalho que, conforme Marco Túlio classifica nesta entrevista ao Mundo Plug, parceiro do Scream & Yell, foi “grande e intenso”. Saiba mais sobre “Músicas Para Cantar Junto” no bate-papo a seguir com o guitarrista.

Um disco acústico muitas vezes funciona como um coringa num período de transição criativa dos artistas, porque costuma dar um bom retorno. Por que vocês demoraram 20 anos pra lançar um?
Realmente, um acústico pode servir como um coringa, mas no nosso caso nunca pensamos nele dessa forma. O acústico é, sobretudo, baseado na canção, porque não tem performance, não tem telão, megalomania, nada disso. E, se não tiver consistência, uma música não se sustenta no acústico. Fomos protelando esse projeto até que nos deparamos com o fato de que tínhamos 20 anos de carreira, e que era uma hora boa pra pensar nisso. Estamos falando pra uma nova geração, que não conhece o começo da nossa carreira. Então juntamos um repertório que daria consistência pra um projeto como esse com um momento que seria legal pra atender nosso público contemporâneo e ainda mostrar pros mais novos um histórico que não conhecem. Não acho que um acústico seja pra se fazer dois na vida, é uma carta só.

Teve muita briga pra decidir quais músicas entrariam no acústico?
Nosso primeiro passo foi definir qual critério usaríamos pra escolha, e aí cada um foi pesquisar pra propor. Depois pensamos com quem gostaríamos de trabalhar, e aí veio o Liminha, que é um personagem que está com a gente desde sempre, e que inclusive tocou violão no show inteiro. Ele já tinha feito o acústico dos Titãs, que foi muito especial, e tinha a experiência de vários projetos. Então foram sete meses de ensaios, de divergências, de diferenças de critérios, de debates pra gente achar o fio da meada. E não é só um apanhado de músicas, é um show, então tem um tempo, um limite. Mas 90% do repertório bateu, todo mundo concordou que era isso mesmo. Nos outros 10%, teve um MMA envolvido.

Foi muito complicado transformar sucessos consagrados com guitarra, baixo e teclado em formato acústico?
Foi. Colocamos esse projeto na mesa há um ano, foi um processo longo. Não é fácil desapegar de um formato de uma vida inteira. Não é só ir pro violão e tocar a música, isso talvez seja só o ponto de partida. Mas ficaria chato fazermos 25 músicas iguais, é preciso dar uma forma pra cada uma. Porque o arranjo é importante, mas tem que ser trabalhado dentro dessa coisa do minimalismo que o acústico sugere. É preciso ter uma essência, um brilho, uma cor especial pra cada música, pra que somadas não virem um tédio. Isso deu trabalho, demandou muito ensaio.

Por que vocês decidiram incluir músicas inéditas e não guardá-las pra um próximo disco?
Nesse processo de um ano, era inevitável aparecerem músicas novas. Não teria por quê, ao contar a história da banda, não ter esse capítulo atual. E as músicas faziam sentido, então por que esperar? Elas se integraram bem ao repertório e o público gostou de ter novidades.

Por que vocês optaram por gravar um show com um público limitado a amigos e poucos fãs?
A gente queria criar um clima de mais intimidade. Era uma coisa nova, outro formato. No meu caso específico, é outro instrumento, sou um guitarrista tocando violão. A gente queria o conforto de uma sala de estar pra tudo aquilo soar de maneira íntima. Quem assistir ao DVD vai entender isso. Não tem essa coisa de o Rogério pular, a performance. É tudo muito focado na letra e na melodia. Foi legal ter feito assim.

Pra divulgação do trabalho, vocês optaram por ir liberando as faixas aos poucos, estratégia que vários artistas têm utilizado. Isso vale a pena, apesar de perder o impacto do lançamento de todo material simultaneamente?
Isso foi uma proposta da Sony Music, e achamos interessante. Às vezes, você lança um disco e tem que trabalhar um ou dois singles, e pode acabar perdendo muita coisa boa que tem ali. Foi legal ir mostrando aos poucos, criando uma expectativa.

Como foi fazer um intervalo no trabalho acústico pra participar do Rock in Rio?
O Rock in Rio não combina com acústico. Tivemos que refletir como seria o show, porque não poderíamos perder a oportunidade de também levar o acústico pra lá. Então optamos por fazer “Só Hoje” acústico, até porque essa já era a proposta original. Acho que cumpriu a missão. Estamos no meio do processo de transição do elétrico pro acústico. Em alguns lugares, como teatros, vamos fazer o acústico integral; em outros, vamos fazer só um set acústico. Pra 10 mil ou 20 mil pessoas, não tem jeito, a energia é outra.

O Rock in Rio foi tão legal quanto vocês esperavam?
O Rock in Rio canalizou todo o sucesso daquela geração do rock nacional dos anos 80. E eu era adolescente assistindo a tudo aquilo em casa, porque não tinha idade pra ir, mas estava maravilhado. Aquilo influenciou todos nós que somos da geração dos anos 90. Esse foi o quarto Rock in Rio de que participamos. Só de estar ali, participando daquele sonho de adolescente, já é uma mágica fantástica. Além disso, tem a importância pra banda e a repercussão, que extrapola aquele palco e aquele público.

Vocês já estão trabalhando num novo disco de inéditas?
Não, estamos mergulhados nessa coisa do acústico. Foi um trabalho de um ano, uma imersão forte. Traduzir os 21 anos da banda em formato acústico foi um trabalho grande e intenso. E não é só um disco, criamos um show também. Vamos rodar com esse show o máximo possível. Estamos muito longe de pensar num novo de inéditas! [Risos]

– Marcos Paulino é jornalista editor do site Mundo Plug (www.mundoplug.com)

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2 thoughts on “Entrevista: Jota Quest (2017)

  1. Podem criticar o quanto quiserem mas não tem como negar. Jota Quest e Skank são duas bandas que não param, são 20 anos lançando hit atrás de hit. Ah, coloco o Nando Reis também nessa trinca.

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