Boteco: três cervejas da série Odonata, da Dádiva

por Marcelo Costa

A prestigiada série de Russian Imperial Stouts iniciada em setembro de 2016 pela Dádiva com a Odanata #1 Frutas Vermelhas, a #2 Baunilha a #3 Café, as três somente na pressão, teve uma sequencia engarrafada que chegou ao mercado em julho deste ano, cuja premissa era unir a bela receita da casa com a intervenção de convidados. Para a #4 foi chamado César Adames, que envelheceu a cerveja em barricas de carvalho norte-americano com rum, e a blendou com malte defumado em folha de tabaco cubano de Pinar del Río resultando numa cerveja de cor marrom bastante escura (praticamente preta) com creme marrom claro de ótima formação e longa retenção. No nariz, fumo, tabaco e rum se destacam, mas há uma potente percepção de jabuticaba que acaba se sobressaindo com o tempo e encanta. Na boca, rum e jabuticaba no primeiro toque e seguindo ampliadas na sequencia, de maneira absolutamente encantadora. A textura é sedosa e o amargor é baixo (80 IBUs adiantados, mas a sensação é de metade disso). Dai pra frente segue uma cerveja incrível, que não aparenta nada dos 12% de álcool, com o rum surgindo elegante, defumado discreto e jabuticaba apaixonante. O final é aconchegante e amadeirado. No retrogosto, rum e jabuticaba incríveis. Palmas!

A segunda da sequência é a Odanata número #5, produzida em parceria com Mauricio Porto, colecionador de whisky, especialista e blogueiro, que envelheceu essa cerveja por dois meses em barricas de Single Malte Scoth “das Highlands” escocesas, conforme avisa Mauricio em seu blog, O Cão Engarrafado. O resultado é uma cerveja de coloração marrom bastante escura (praticamente preta) com creme marrom claro de ótima formação e longa retenção. No nariz, uma deliciosa complexidade que une baunilha, madeira, Single Malt, mel, chocolate amargo além de sutis notas vinilicas que remetem ao estilo Flanders Red Ale. De maneira interessante, nem (os 12% de) álcool e nem o café (derivado da torra do malte) soam perceptíveis no aroma. Na boca, uma pancada apaixonante de chocolate amargo, vinho e mel, com leve alcaçuz, mais madeira, baunilha e defumado discreto, mas perceptível e incrível. A textura é sedosa, com maior percepção de álcool e também de amargor (60 IBUs mais intensos aqui do que os 80 da anterior) do que na #4. Dai pra frente segue um conjunto arrebatador, mais arisco do que a anterior, mas tão sensacional quanto. O final junta baunilha, amargor (mas não café) e leve fumaça. No retrogosto, mais baunilha, um pouco de vinho, madeira e defumado.

Fechando a série com a Odanata número #6, feita em parceria com a Dinah Paula, médica, nutróloga e sócia da Cachaçaria Quinta das Castanheiras de Minas Gerais. Nessa cerveja, Dinah apostou no envelhecimento por três meses da cerveja em barricas de carvalho francês com cachaça própria. Exibindo coloração marrom bastante escura (praticamente preta) com creme marrom claro de ótima formação e longa retenção, a Dádiva Odanata #6 apresenta um aroma que destaca caramelo, melaço, baunilha, madeira, amêndoas, jabuticaba e cachaça (álcool aparentemente mais presente no aroma aqui do que nas anteriores). Na boca, doçura média no primeiro toque (caramelo) seguida de sugestão deliciosa de jabuticaba e forte presença de álcool (que amacia conforme a cerveja aquece na taça). A textura é sedosa, mas a sensação de álcool sobre a língua não é tão intensa quanto na versão #5 (ainda que, no conjunto, a #6 exiba uma presença alcóolica superior as outras duas desta série). O amargor é incrivelmente baixo e, dai pra frente, surge um conjunto que, com a cerveja na temperatura correta, apresenta um equilíbrio mesmo com 12% de álcool. O final é docinho com leve picância alcoólica. Já o retrogosto traz caramelo, jabuticaba e felicidade alcoólica. Bela!

Balanço
Abrindo essa série Odonata de maneira primorosa com a #4, versão de César Adames, que fez uma das grandes cervejas do ano no país: rum não agressivo, defumado discreto, jabuticaba e calor. Sensacional. A Odonata #5, versão de Mauricio Porto, repete a excelência da anterior, diferenciando personalmente com mais agressividade de amargor, um suave namoro com o estilo Flanders Red Ale e baunilha, Single Malt e mel brilhando. Uma delícia. Fechando a série, a #6 mantém o alto padrão das duas anteriores, mas ainda assim soou um pouco abaixo, com menos complexidade, porém, incrível. Uma das melhores séries do ano no Brasil.

Dádiva Odonata 4
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 12%
– Nota: 4,39/5

Dádiva Odonata 5
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 12%
– Nota: 4,34/5

Dádiva Odonata 6
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: Brasil
– Graduação alcoólica: 12%
– Nota: 4,31/5

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– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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