Faixa a faixa: “Estação Cidade Baixa”, Nobat

Introdução por Bruno Lisboa
Faixa a faixa por Nobat

Natural de Belo Horizonte, Nobat segue desde 2012 construindo uma carreira de destaque na música produzida nas Minas Gerais. Em constante transformação, sua obra (antes ligada ao indie rock ensolarado) deu uma guinada para um formato nada convencional. O trabalho responsável por esta transição foi “O Novato” (2015), elogiado disco em que uniu elementos eletrônicos, tons mais lúgubres e instigantes.

Passados dois anos, Nobat está de volta com “Estação Cidade Baixa”, um álbum que foi gravado entre os meses de junho/ agosto de 2017 nos estúdios UN Music e Ilha do Corvo com produção de Leonardo Marques. Diversificado, “Estação Cidade Baixa” soa como uma continuidade natural de “O Novato”, mas vai além ao promover uma autêntica salada sonora mesclando ritmos como congado, afoxé, axé e funk. Nas letras, o cantautor segue sua sina de observar de maneira minuciosa o quotidiano, revelando dores e alegrias da vivência.

Apresentado de forma gradual, “Estação Cidade Baixa” foi lançado de maneira diluída a partir do mês de setembro, quando o primeiro da série três EPs conceituais (“Estação”) foi disponibilizado em várias plataformas de streaming (Bandcamp incluso). Em outubro foi à vez “Cidade” e agora em novembro “Baixa”, encerrando a sua trilogia. Sobre o processo de criação e gravação do disco Nobat resume:

“Comecei a compor esse disco durante uma viagem que fiz pra divulgar “O Novato”. Passei por algumas cidades no Brasil e em Portugal. Os encontros e vivências abriram um ciclo criativo muito intenso. Compus nessa época mais de 30 músicas e percebi que elas se dividiam em três grupos temáticos: algumas falavam sobre morte e nascimento, encontro e despedida, chegada e partida; outras falavam sobre Belo Horizonte, o carnaval, a Praia da Estação (movimento cultural); e outras ainda apontavam pra questões mais intimistas e densas. Quando fui reunir o material pro disco, percebi que havia a chance de dividir o álbum em três EPs e foi assim que fomos trabalhando tudo. Levei a proposta pro pessoal do selo UN Music, eles curtiram a ideia e a partir de então fui pro estúdio com a banda que já vinha construindo os arranjos pra começar a levantar o disco. Tivemos a luz fundamental do mago Leonardo Marques, que produziu o “Estação Cidade Baixa” e conduziu as questões com muito carinho. Gravamos o álbum entre maio e agosto deste ano, uma parte nos estúdios UN Music e outra na Ilha do Corvo, estúdio do Leo. Foi um processo mágico, muita coisa chegou madura ao estúdio e se transformou muito lá dentro. Contei com a parceria da banda formada por LULI, Danilo Derick, Heberte Almeida e Pablo Campos. Foi tudo muito rápido e precioso, vou sentir saudades desse processo.”

No faixa a faixa abaixo, Nobat fala sobre o conteúdo das letras e suas inspirações para este grande disco. Confira

ESTAÇÃO
Maria Clara
A canção fala sobre o nascimento de uma sobrinha que veio ao planeta com problemas de formação em um dos pézinhos, o que, segundo a previsão de alguns médicos, poderia prejudicar seu andar. A letra é um convite à caminhada de Maria Clara, destacando que o mundo tem muitas coisas pra ela ver e que é preciso andar em direção ao novo, restabelecendo a fé nas conquistas e na sua geração. É uma música de boas vindas.

Nova Era
Esta canção fala sobre a morte de minha avó, uma mulher baiana de grande sabedoria que nos deixou há dois anos. A letra diz que ela fará muita falta, mas canta seu transcender como ela gostaria, num samba-axé que restabelece a fé na jornada e nos novos tempos que viveremos sem sua presença física na terra. É uma música de até breve.

Bia
A gestação da Bia, outra sobrinha, foi aquela que eu acompanhei mais de perto, até pela proximidade com os pais. Vivi muito intimamente cada etapa, desde o dia em que foi revelada a gravidez até os últimos dias antes do nascimento. O problema é que no dia do parto, eu estava voltando de viagem e sem notícias fiquei sem saber o horário do nascimento. Durante o almoço eu senti mesmo cósmicamente a entrada deste ser no globo azul, pedi à Luísa, minha esposa, pra anotar o horário e disse que Bia tinha chegado ali. Depois de algumas horas fomos ao hospital e Bia tinha nascido exatamente na hora que eu falei, mesmo sem saber de nenhuma notícia. A música fala sobre esse pressentimento e essa conexão forte que começou ali, é também uma música de boas vindas.

CIDADE
praia_da_estação:
A Praia da Estação é um movimento belo-horizontino, com início em janeiro de 2010, que surgiu como contestação política a um decreto municipal expedido pelo então prefeito da cidade, Marcio Lacerda, que proibia a realização de eventos na Praça da Estação, uma das mais tradicionais da Capital mineira. Neste contexto, uma reação pública e lúdica surgiu: como Minas não tem mar e essa é uma de nossas grandes referências, e como a Praça da Estação possui fontes hidráulicas no seu chão que ficam ligadas aos fins de semana, moradores foram para a praça com trajes de banho e assessórios de praia para protestar e criar uma das principais mobilizações políticas dos últimas anos em Belo Horizonte. Fiz essa canção quando fui pela primeira vez à Praia. Fiquei bobo com aquela melancolia embriagada que celebrava a maior ausência do estado de Minas Gerais, o mar: ausência-símbolo caricatural do nosso imaginário. No início achei aquilo quase besta, algo de uma solidão doída e meio desesperada. Mas depois me dei conta de que era, na verdade, lindo, o hipermoderno, a chance de dar plasticidade a essa vida engessada pela realidade tantas vezes tão tacanha. Celebrar a ausência, porque não? A Praia da Estação deu à Belo Horizonte muito mais que força para ocupar espaços públicos, a Praia nos deu também a chance de inventar.

mar_ia
Essa música fala sobre o eterno desejo do mineiro de ver, de ter e de ser o mar. Essa coisa de estar nas cidades que acabam no mar e de ver que tudo termina lá nas ondas, como nós que vamos aos poucos nas idas do tempo.

maletta
Essa é uma canção de um grande amigo, Tiago Tereza, e no período que eu estava reunindo as músicas pra este trabalho não larguei mão dela. À época eu estava de mudança para o centro pra morar com minha esposa, Luli. A canção é de uma doçura imensa e fala dessa vontade de ir morar no centro, num quarto&sala no Maletta, ver duelo de MC’s a pé e ser feliz junto.

BAIXA
Desentoado
Essa é uma canção do Grupo Raízes, de Montes Claros, que foi lançada num disco de mesmo nome nos anos 70 e que embalou diversas passagens da minha vida. Conheço a música de berço porque minha mãe é conterrânea da trupe do Raízes e esse álbum era sempre lembrado nas rodas de violão em festas de família. A letra me lembra minha vida. Eu nasci em BH, mas, em razão do trabalho do meu pai, cresci no interior, numa cidade pequena e pacata, voltei para Belo Horizonte já adolescente. Ao chegar aqui me espantei muito com o ritmo, as tendências e o comportamento da capital, eu era estrangeiro na minha cidade natal, esse deslocamento na paisagem urbana é uma coisa que vivi na pele. “Eu sou fruta do no rte / Do curral / Sou boi de corte (…) / Vim parar nesse lugar / E logo me destoei / Entoei uma cantiga / Já entrei n uma briga”.

Eu Não Morreria Por Ti
Essa canção fala de um tipo de amor que eu não acho saudável e que faz muito mal a algumas relações que tem tudo pra serem imensas, fortes, fontes inesgotáveis de trocas riquíssimas. Aquele tipo de amor pelo qual você abre mão da sua vida para viver o outro na vida do outro. Isso pode destruir sua própria vida, aniquilar sua identidade e fazer você perder sua conexão com pessoas, valores e lugares fundamentais pra você.

Galeria
Essa música fala sobre cumplicidade, sobre dividir com a outra pessoa com quem se caminha todas as paisagens da vida, todos os episódios, os melhores e os piores, como se a existência fosse uma galeria de arte com vários blocos pelos quais as pessoas que se amam e se confiam passarão de mãos dadas. Aquela coisa de ir ao cinema e ver um filme horrível ou muito pesado, mas tudo valer a pena pelo simples fato de ter atravessado aquela experiência ao lado de quem se ama.

– Bruno Lisboa (@brunorplisboa) é redator/colunista do Pigner e do O Poder do Resumão. Escreve para o Scream & Yell desde 2014.

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