Cinema: “Thor: Ragnarok”, de Taika Waititi

Resenha por Renato Caliman

Goste ou não, a estrutura dos filmes da Marvel será sempre a mesma, pelo menos até a conclusão da Fase Três com a segunda parte de “Guerra Infinita”. O próprio Kevin Feige já disse que esse é o jeito do estúdio, e se o público está gostando, porque mudar? A questão é que, com o passar do tempo, os filmes começaram a dar sinais de desgaste, e se durante uma sessão leve – de quase duas horas – vendo seus heróis favoritos a diversão era garantida, após deixar o cinema as lembranças tornavam-se facilmente esquecíveis. Essa sensação aumentou a cada nova experiência, mas só ficou evidente depois que “Doutor Estranho”, o último filme da Marvel em 2016, e as suas semelhanças com o “Homem de Ferro”. Bom, o certo é que o estúdio também parece ter percebido o cansaço, o que fez com que 2017 fosse muito mais audacioso. Em abril, “Guardiões Vol.2”. Em julho, “Homem Aranha: De Volta ao Lar“. E agora para fechar o ano marvelístico a surpresa “Thor: Ragnarok”, que comandado pelo excêntrico Taika Waititi, não é só o melhor filme da franquia como ainda se revela um dos filmes mais ousados do universo. Uma comédia assumida, com senso de humor agradável, cenário coloridíssimo e um elenco de peso, que tenta driblar, com estilo, a fadiga.

Após uma travessia malsucedida até Asgard, Thor (Chris Hemsworth) vai parar em Sakaar, um planeta desconhecido onde é feito prisioneiro pelo extravagante Grão-Mestre (Jeff Goldblum). Lá, ele é feito escravo e obrigado a enfrentar o campeão de um torneio entre gladiadores: ninguém menos do que Hulk (Mark Ruffalo), com quem ele nunca teve uma relação amigável. O Deus do Trovão tem que lutar para sobreviver e correr contra o tempo para formar uma equipe de ‘Vingadores’ a fim de impedir que a poderosa Hela (Cate Blanchett) destrua Asgard e dessa forma cumpra a profecia do Ragnarok. Todos sabem que o filho de Odin sempre foi meio sisudo. Nos medianos “Thor” (2011) e “Thor: O Mundo Sombrio” (2013) essa característica fica bem clara. Mas as expressões antiquadas e a seriedade no olhar foram postas de lado. Nesse terceiro filme, a narrativa abraça o humor e o humor abraça o asgardiano. Uma mudança brusca que ignora o passado do protagonista e de outros personagens, soando incoerente se olharmos para o todo, porém, se analisada individualmente cumpre bem aquilo que se propõe a fazer. Seguindo a vibe de “Guardiões” de não se levar a sério, o longa reúne um time de peso, hábil fisicamente e também com plenos poderes sobre o humor.

Chris Hemsworth, pela primeira vez, demonstra estar a vontade no papel. Bem na comédia, seu protagonista que era um dos menos carismáticos entre os Vingadores, ganha mais relevância e polivalência para as próximas dinâmicas de grupo. Ruffalo é outro que abandona o jeitão sério do cientista para fazer do Dr. Banner um tipo desajustado e indeciso (o qual lembra muito o Clark Kent de Christopher Reeve), e de seu Hulk um monstro verde bobão, inconsequente e engraçado, completamente diferente do raivoso de outrora, mas ainda assim fascinante. Hiddleston muda pouco. Continua o mesmo traíra de sempre, só que menos vilão e mais anti-herói, o que colabora para manter a elegância obscura do personagem. Tessa Thompson como Valkiria é quem tem o arco dramático mais interessante, com motivações palpáveis, e por isso desperta grande empatia do espectador. Goldblum interpreta Goldblum. O exótico Grão-Mestre é uma figura magnética em cena, com seus monólogos desconexos e o jocoso tom cordial de fazer piada. Por ultimo, Korg. Dublado pelo diretor Taika Waititi, desponta como o coadjuvante mais simpático, o qual gostamos logo de cara pela sua simplicidade, as piadas pontuais e o cativante senso de justiça.

Não pense que Cate Blanchett foi esquecida. A atriz compõe uma Hela com motivações que já conhecemos, embora nunca pareça afetada. Vilã típica dos quadrinhos, tem seus trejeitos peculiares e é capaz de representar uma forte ameaça na trama (despedaçar o Mjolnir não é pouca coisa), mas é prejudicada pelas poucas cenas, um equívoco ocasionado pelo roteiro, que enxerga Sakaar como sendo mais importante que Asgard, lugar onde ela se encontra o tempo todo. Ainda assim é curioso ver como as personagens femininas ganharam merecida importância na narrativa. Hela e Valkiria são independentes, tem poder e jamais se rendem a fúteis casos amorosos. Roteirizado por Eric Pearson, Craig Kyle e Christopher Yost, todos envolvidos com produções de desenhos animados, o que explica entre outras coisas a agilidade dos diálogos, e dirigido pelo neo-zelandês Taika Waititi (“O que Fazemos nas Sombras”, 2014), que imprime uma comédia simples e objetiva, “Thor: Ragnarok” exibe de bom humor à embates bem elaborados configurados por ótimos efeitos especiais. Uma produção de ritmo acelerado, uma trilha sonora tecno-pop anos 70 que leva o público a viajar pelo espaço sem muito esforço, além de uma ambientação estilosa em total sintonia com a proposta.

Nota: 8,5

– Renato Caliman (fb.com/renato.caliman) escreve no #CineMarmita: https://cinemarmita.wordpress.com

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