Punk na Califórnia: um roteiro nostálgico da cena dos anos 90 (Parte 3)

Um mergulho nas origens do Green Day
Texto, fotos e vídeo por Rodrigo Alves

Três décadas atrás, em outubro de 1987, Ollie Jackson dava nó em pingo d’água para criar meia dúzia de filhos. O marido tinha morrido de câncer no esôfago cinco anos antes, e ela equilibrava bandejas de um lado para o outro no Rod’s Hickory Pit, uma pequena churrascaria em El Cerrito, no norte da Califórnia. Entre uma picanha e uma costelinha, rolavam uns shows, e a garçonete deu um jeito de realizar o desejo do filho caçula, que começava a se aventurar no punk rock. Foi assim, com fumaça no ar e cheiro de gordura, que o adolescente Billie Joe Armstrong e o amigo Mike Dirnt tocaram ao vivo pela primeira vez. Para uma plateia de 30 pessoas.

Trinta anos depois, a dupla continua na ativa e desembarca no Brasil mais uma vez. A turnê começa no Rio de Janeiro no dia 1º de novembro e passa por São Paulo (dia 3), Curitiba (5) e Porto Alegre (7). Mudaram os palcos, de restaurantes miúdos para grandes arenas. Mudou a plateia, de clientes famintos para multidões ensandecidas. Mudou até o nome da banda, na época Sweet Children, hoje Green Day.

Dos shows improvisados nos anos 80 aos grandes concertos atuais, a trajetória é mais do que conhecida: o pulo para uma grande gravadora em 1994, o estouro com o álbum “Dookie” e o sucesso estrondoso que veio na sequência, incluindo nomeação para o Hall da Fama do Rock e até ópera na Broadway. Mas a turnê sul-americana de 2017 também pode ser um bom gancho para destrinchar o Green Day dos primórdios, que se limitava a abrir shows de bandas maiores e era contestado na cena punk pelas melodias pegajosas demais. Então bora para a Califórnia, porque os vestígios daquele tempo ainda estão por lá.

Billie Joe e Mike Dirnt nasceram e cresceram na região da East Bay, circulando entre cidades como Oakland, Rodeo e El Sobrante. Eles se conheceram em Crockett, no ensino médio, e formaram o Sweet Children em Pinole, no ensino fundamental. Para quem não é da área, os nomes das cidades se embaralham, mas o importante é que, no fim dos anos 80, toda aquela região da Baía de São Francisco estava prestes a viver uma explosão de punk rock. E o olho desse furacão estava em Berkeley.

Foi lá que surgiu o clube mais importante da cena local: o 924 Gilman Street, que ficava, veja você, no número 924 da rua Gilman. Quem botou o lugar de pé foi Tim Yohannan, fundador do renomado fanzine Maximum Rockroll. A partir de 1986, as bandas da East Bay tinham, portanto, um bom canal de divulgação na imprensa alternativa e um lugar para, de fato, castigar suas guitarras ao vivo.

O 924 Gilman serviu de berço não só para o Green Day, mas para bandas relevantes como Operation Ivy, Rancid, Corrupted Morals, Neurosis e The Offspring. A regra ali era clara. O clube não tinha fins lucrativos, não tinha sequer um proprietário, era gerido por voluntários e escancarava na porta um cartaz que resumia o espírito da casa: sem racismo, sem machismo, sem homofobia, sem álcool, sem drogas, sem brigas e sem cachorros (nada contra eles, era só para não maltratar os amigos caninos com o som alto). A atmosfera inclusiva, tolerante e bem-humorada era uma maneira de reagir à violência que tomava conta da cena californiana, onde era praticamente impossível ir a um show punk sem ser engolido por uma pancadaria.

O mais incrível é que o Gilman funciona exatamente da mesma forma até hoje. Em julho deste ano, tive a oportunidade de passar uma tarde no clube e acompanhar uma das reuniões periódicas que eles fazem com integrantes da comunidade para tomar decisões sobre o local na base do voto (dá uma olhada aí no vídeo).

A reunião funciona assim: qualquer pessoa pode entrar, propor temas e comentar, mas só pode votar quem já estiver pelo menos na segunda participação. Para cada tema levantado, o povo levanta a mão aprovando ou reprovando, e assim o clube toca a sua vida.

Naquela tarde de julho, tinha desde um cara querendo exibir ali um documentário sobre transgêneros até um morador de rua pedindo apoio para combater uma passeata da extrema-direita na esteira da manifestação neonazista que tinha ocorrido uma semana antes em Charlottesville. Deu para testemunhar todo esse exercício democrático sentado no palco icônico que recebeu inúmeras bandas da cena punk nos últimos 30 anos.

Foi esse clube que embalou o início da carreira do Green Day, quando Billie Joe e Mike Dirnt ainda tinham cabelos grandes e recrutaram o baterista Al Sobrante, ex-Isocracy (o atual, Tré Cool, só entrou na virada para os anos 90). O YouTube tem esse lindo registro da íntegra de um show no 924 Gilman em 1991, já com o povo de cabelos curtos e Tré Cool nas baquetas.

Esse início aí não foi exatamente fácil.

O Gilman e os punks da East Bay torceram o nariz para o estilo pop das músicas compostas por Billie Joe. Durante algum tempo, o jeito foi tocar nos quintais, nas garagens e até numa cabana no alto da montanha.

A coisa começou a mudar quando a banda chamou a atenção de Larry Livermore, fundador da Lookout! Records. Se a cena tinha o Maximum Rocknroll como braço jornalístico e o Gilman como palco, a Lookout! era a gravadora responsável por catalogar aquele som e distribuí-lo em forma de discos. Larry tocava em uma banda com Tré Cool e viu potencial no Green Day. Não deu outra.

A união com o selo rendeu logo de cara três EPs: “1000 Hours” (1989), “Slappy” (1990) e “39/Smooth” (1990), que depois seriam reunidos e mesclariam seus nomes no primeiro álbum oficial da banda, “1039/Smoothed Out Slappy Hours” (1990). O estilo punk hipnótico já estava ali em músicas como “Going To Pasalacqua” e “I Was There”. Mas o negócio ficou sério mesmo no segundo álbum.

Quando a Lookout! lançou “Kerplunk”, em dezembro de 1991, ficou claro para todo mundo que, mais cedo ou mais tarde, a banda ia estourar. O disco já tinha a clássica “Welcome To Paradise”, que depois seria regravada no “Dookie”, além de tiros certeiros como “2000 Light Years Away”, “Christie Road” e “One Of My Lies”.

Assinar com uma “major” era um tabu na cena punk, mas o Green Day já estava acostumado com a desconfiança desde o início no Gilman. Christopher Appelgren, um jovem funcionário da Lookout! que depois se tornaria presidente da gravadora, estava cabreiro. Com a autoridade de quem tinha inclusive desenhado a capa icônica do “Kerplunk”, ele tinha medo de que o mercado mastigasse a banda e cuspisse de volta.

Appelgren recordou a tensão desta época durante um papo que tivemos na varanda de um café em São Francisco, em julho deste ano (trechos da entrevista estão no vídeo abaixo, e este link aqui tem a entrevista completa, falando de Rancid, Screeching Weasel, Pansy Division, política, arrependimentos etc).

“Pense em bandas como Hüsker Dü ou The Replacements, que assinaram com grandes gravadoras e isso praticamente encerrou a carreira delas. Então meu primeiro pensamento quando ficou claro que o Green Day ia tentar um acordo com a Warner era uma preocupação. Eram caras parecidos comigo, da mesma idade, incrivelmente talentosos, dedicados à música. Mas o que vai acontecer se eles tentarem e não funcionar? A cena que gerou esses caras poderia rejeitá-los”, lembra o ex-dono da Lookout!.

Durante uma turnê com Bad Religion e Samian, Billie Joe recebeu uma ligação de Appelgren. Larry Livermore queria que o colega de gravadora explicasse suas preocupações diretamente para o vocalista. A resposta no telefone foi clara e serena: “Nós acreditamos que vai funcionar”.

E funcionou.

“Dookie” saiu pelo selo Reprise, da Warner, e vendeu mais de 10 milhões de cópias.

A banda passou a lotar estádios, como fará agora em novembro na turnê pela América do Sul.

A Lookout! fechou em 2012, e o endereço na Adeline Street, em Berkeley, abriga hoje uma pizzaria Domino’s.

Christopher Appelgren mora em Oakland e trabalha com marketing em São Francisco. Com um sorriso no rosto, ele não tem dúvidas: “Billie Joe estava certo”.

– Rodrigo Alves (fb.com/rodrigo.alves.378537) é jornalista e, no começo dos anos 2000, editou o site Planeta Hardcore no Rio de Janeiro

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