Entrevista: The Bombers

entrevista por Marcos Paulino

Formada por Matheus Krempel em Santos, há mais de 20 anos, a The Bombers nasceu durante o bom momento para a música independente que a cidade praiana viveu nos anos 90, e que teve como fruto mais vistoso o Charlie Brown Jr.. Apostando na mistura do punk rock com ska, reggae e hardcore, a banda gravou seu primeiro registro, a fita demo intitulada “7 Songs”, em 1998. Depois disso, a The Bombers lançou “Democracia Chinesa”, em 2007, e “All About Love”, em 2014. Este último saiu pela gravadora paulista Hearts Bleed Blue, assim como o recém-lançado “Embracing The Sun”.

Uma das novidades que trazem as 14 faixas do novo álbum é que o vocalista e guitarrista Matheus deixou de assinar todas as composições. Neste trabalho, ele dividiu essa tarefa com seus companheiros de banda, Gustavo Trivela (guitarra), Daniel Bock (baixo) e Mick Six (bateria), e disse ter adorado a experiência. Outra mudança foi a volta das canções em português, num total de três, sendo que uma delas é uma versão de “Mestre Jonas”, clássico do rock nacional composto pelo trio Sá, Rodrix e Guarabyra em 1973.

Aliás, conforme Matheus conta nesta entrevista, o rock setentista e oitentista brasileiro tem sido uma grande influência pra The Bombers. Confira.

Por que resolveram incluir músicas em português em “Embracing The Sun”?
Poderia apontar diversos motivos. Poderia até mesmo dizer que previsibilidade nunca teve nada a ver com a banda, mas isso não passaria de babaquice da minha parte. Na verdade, o que aconteceu foi que a minha cabeça meio que deu uma travada no final da época de composição do disco. Eu não conseguia mais pensar em inglês na hora de compor. Pra ajudar, nos últimos anos, iniciei um processo de redescobrimento do rock nacional e comecei a ouvir muito Mutantes, Tutti Frutti, Secos e Molhados, Novos Baianos e algumas coisas dos anos 80. Era uma coisa que já vinha martelando na minha cabeça, até que no ano passado participamos de um tributo ao Titãs regravando “Desordem”, e foi aí que todos na banda decidiram experimentar o português mais uma vez.

Como surgiu a ideia de colocar “Mestre Jonas” no disco?
Como te disse, o rock nacional e as suas raízes já estavam no nosso radar. Eu queria homenagear o Edvaldo Santana, que foi vocalista do Matéria Prima, uma baita banda de rock dos anos 70, regravando a faixa “Choro de Outono”, mas confesso que não conseguimos fazer uma boa versão dela. Foi nessa que o Trivela, nosso guitarrista, sugeriu “Mestre Jonas”, do Sá, Rodrix e Guarabyra. Levamos a música para o estúdio e, quando terminamos de tocar ela pela primeira vez, rolou uma identificação tão forte com a letra, com a energia da música, que lançar essa versão se tornou uma obsessão e, por mais complexo que tenha sido o processo de direitos autorais, no final valeu todo o esforço.

Na página da banda no Facebook, vocês dizem que detestam rótulos, mas classificam o som da The Bombers como “punk jamaicano santista”. Dá pra explicar?
A intenção dessa descrição tão maravilhosamente explicativa é justamente brincar com essa questão dos rótulos e despertar a curiosidade para o nosso som. Como você descreveria uma banda brasileira, que mora em São Paulo, cantando rock em inglês, português, espanhol, com influências de ska, reggae, hip hop, punk, folk, hard rock, baião e pop descartável? Punk jamaicano santista?

Vocês também se assumem como “uma das últimas bandas remanescentes da geração Punk 95 Brasileiro”. Sendo assim, quem forma o público que acompanha a The Bombers hoje: os fãs das antigas, a galera mais nova ou tudo junto e misturado?
Daquela geração que surgiu na época do boom neopunk de 94, e que inclusive teve a parte “baixada santista” dela retratada no documentário “Califórnia Brasileira”, não sobrou quase ninguém. Hoje em dia, os fãs das antigas são, na sua grande maioria, os senhores da razão. Um bando de velhos chatos, que ainda acham que o Green Day deveria lançar o “novo Dookie” e vibram com turnês comemorativas de 20 anos do álbum X, Y e Z, que tanto marcaram a adolescência deles. Os que não ficaram chatos ainda aparecem nos shows, mas a grande maioria é formada por gente no mínimo 15 anos mais nova do que eu.

A banda já deu um tempo entre 2008 e 2011, já teve três guitarras, já mudou de integrantes… Enfim, foram vários momentos. E hoje, nesta nova fase, com disco novo, como vocês estão se sentindo?
Felizes e realizados pela oportunidade de nos mantermos ativos, por termos o apoio da Hearts Bleed Blue, lançando discos e viajando Brasil afora, mesmo com tantas adversidades que uma banda enfrenta naturalmente.

Quando vocês pararam, uma das alegações era a descrença na cena punk. Agora, vocês acreditam que vivemos tempos melhores para as bandas que estão fora do mainstream?
As coisas não mudaram muito, nós é que ficamos menos ingênuos. Nossa existência em parte foi estimulada por essa descrença, e se hoje estamos aqui, com certeza não é para repetir os erros que presenciamos no passado. Até por conta disso, faço o que posso para ajudar a divulgar a produção independente daqui. Apresento um programa de rádio na Mutante Radio, uma rádio on-line, escrevo para o Blog n’ Roll dando dicas musicais, tenho um estúdio de gravações, o Porto Produções Musicais, produzo bandas e recentemente criei um selo microscópico, o Craic Dealer Records, para lançar artistas de forma colaborativa. Ainda vejo muita merda nesse meio, muito clubinho, muita egolatria, mas no geral são só moscas varejeiras.

De “7 Songs” a “Embracing The Sun”, como você analisa a evolução do som da banda?
No “7 Songs”, eu tinha 16 anos, estava no colégio sofrendo bullying por usar calça rasgada e tênis All Star. Estávamos aprendendo a tocar, e aquilo foi o máximo que conseguimos fazer. Hoje temos quase 40 anos, continuamos aprendendo a tocar, mas não temos mais vergonha de experimentar e buscar nossa própria identidade. Quando você se aceita, as coisas ficam muito mais divertidas, leves e acho que isso hoje se reflete no nosso som.

Você contou que no novo disco não centralizou as composições, e que todos participaram com letras, ideias e bases. Funcionou bem esse processo criativo coletivo?
Pra caralho. Quatro cabeças pensando, mesclando, trazendo, levando e brigando junto. No final desse processo, veio o disco que queríamos fazer, com as músicas que queríamos ouvir alguém tocando.

Entre a agenda de shows e novos projetos, o que os fãs da The Bombers podem esperar?
Já começamos a brincar com algumas ideias de som, gravar no celular e mandar um pro outro, discutimos algumas ideias sobre qual será o próximo passo, mas no momento ainda estamos focados em divulgar o disco novo o máximo que pudermos.

Marcos Paulino é editor do site Mundo Plug (www.mundoplug.com)

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