Punk na Califórnia: um roteiro nostálgico da cena dos anos 90 (Parte 2)

Um guia punk pelas ruas de São Francisco, L.A., Berkeley e Oakland
Texto, fotos e vídeo por Rodrigo Alves

Pedalar na ponte Golden Gate, pisar na calçada da fama em Hollywood, circular pelos estúdios de cinema, viver a vida sobre as ondas em praias famosas. Dá para ficar duas semanas na Califórnia e ignorar tudo isso? Ô, se dá! O que não dá para deixar passar é aquela lojinha de discos escondida, o restaurante do baixista daquela banda, o clube que funciona há três décadas sem dono, ou até uma singela esquina conhecida como Triângulo do Diabo. Então pega o mapa e prepara a sola do tênis, porque começa agora uma viagem com cheiro de punk rock pelas ruas de São Francisco, Los Angeles, Berkeley e Oakland.

Muitos lugares relevantes da cena californiana nos anos 80 e 90 sumiram e deixaram poucos rastros. Acontece de chegar ao bar famoso e só encontrar o letreiro enferrujado na parede, ou procurar uma gravadora e achar uma pizzaria. Mas muita coisa ainda está de pé, então vale a pena cumprir o roteiro nostálgico de uma cena que pariu bandas como Rancid, Green Day, Bad Religion, NOFX e dezenas de outras menos cotadas.

Se é para começar de um jeito realmente punk, a primeira parada é no número 3422 da Mission Street, em São Francisco. Ali fica a Thrillhouse Records, uma pequena loja de discos 100% independente, sem fins lucrativos e tocada com a ajuda de voluntários boa-praça. Resumindo, dá vontade de morar lá dentro. O espaço é apertadinho, mas tem bastante vinil, fitas cassete, alguns CDs, camisetas, fanzines e até uma máquina de fliperama para quem quiser matar o tempo. Como não tem lucro envolvido, os preços são ridiculamente baixos. A grana que entra serve para manter o local, promover shows (como o dos franceses do La Fraction, que você assiste lá no fim do post) e, como se não bastasse, gravar discos de bandas locais. O catálogo de lançamentos tem pérolas como uma reedição do Bobby Joe Ebola e o segundo disco do incrível trio feminino Songs For Moms.

Ali perto da Thrillhouse, na Palou Avenue, fica a sede da Fat Wreck Chords, gravadora do Fat Mike, vocalista e baixista do NOFX. Eles também têm uma loja, mas só abrem em dia de evento. E o recado no site é em letras maiúsculas: “Por favor NÃO apareça em outros dias” – isso é a cara do Fat Mike. Ok, somos compreensivos e obedientes.

O jeito é voltar à Mission Street, que rasga boa parte de São Francisco e guarda outros achados. Na metade dela, entre as ruas 21 e 22, fica a Lost Weekend Video, instalada no saguão de um cinema. Não é só punk, mas tem bastante coisa de música – e, olha, esse povo gosta de fliperama, porque ali ficam duas máquinas. Na mesma quadra, dois pontos dignos de visita: a Needles and Pens, galeria de arte que vende fanzines bem bacanas, e a 1-2-3-4 Go! Records – mas sobre essa a gente fala daqui a pouco, porque a loja de São Francisco é só uma filial, a original é em Oakland.

Antes disso, ainda tem coisa na Mission Street. Bem no início dela, a esquina com rua Steuart foi o cenário de um grande protesto por direitos trabalhistas nos anos 30. A violência da polícia causou uma greve geral liderada por Harry Bridges, sindicalista australiano retratado pelo Rancid na música que leva seu nome. O Rancid tem outras referências em São Francisco: o bairro Tenderloin, a estação Daly City, o trem/metrô BART… mas tudo isso você viu (ou vê) aqui, no primeiro artigo desta série.

Falando no BART, é com ele que se chega a Oakland, outra cidade californiana que respira punk rock. Inclusive na hora do almoço. Na esquina da famosa Telegraph Avenue com a 18th Street fica o restaurante Rudy’s Can’t Fail Cafe – são dois na região, o outro fica ali perto, em Emeryville. O nome remete às músicas do The Clash (“Rudie Can’t Fail”) e do The Specials (“A Message To You Rudy”). E os donos da casa são Mike Dirnt, baixista do Green Day, e Jefferey Bischoff, guitarrista do Tilt. Ah, o beefaroni de quarta-feira – macarrão à bolonhesa com queijo e pão de alho – é espetacular.

Oakland tem ainda várias atrações interessantes sobre questões sociais e cultura negra, como o African American Museum e o tour dos Black Panthers, que percorre lugares icônicos do partido fundado nos anos 60 para proteger os negros da violência policial.

Não podiam faltar as lojas de disco, como a 1-2-3-4 Go! original citada ainda há pouco. Mais antiga que a filial de São Francisco, ela fica na Rua 40, com vinis, livros, camisetas e até uma máquina de foto 3×4. Rolam uns shows por lá também. Acabei comprando duas fitas cassete de nome comprido e muita relevância para a cena punk local: “1039/Smoothed Out Slappy Hours”, do Green Day, e “How To Make Enemies And Irritate People”, do Screeching Weasel.

As duas fitas foram lançadas pela Lookout! Records, gravadora criada nos anos 80 para escoar o som da East Bay e fechada em 2012. A sede ficava na Adeline Street, em Berkeley. Chega a ser engraçado ver o prédio hoje, com uma pizzaria Domino’s no lugar onde funcionava um dos selos mais influentes do punk rock americano.

Berkeley e Oakland são cortadas pela Telegraph Avenue, que começa no campus da Universidade da Califórnia. Ali perto fica a esquina com a Durant, onde Tim Armstrong, do Rancid, ficava tocando violão na adolescência. Dá para passar a tarde mergulhado nos labirintos de lojas de disco seminais como as imensas lojas independentes Rasputin e Amoeba (que foi fundada em 1990 por ex-funcionários da Rasputin). As gordas seções de punk rock, sério, são coisas lindas de se ver.

Em Berkeley fica ainda o 924 Gilman Street, clube mais importante da cena, que surgiu nos anos 80 e funciona até hoje de forma independente, sem donos, nas mãos de voluntários. Mas os detalhes do Gilman ficam para a terceira e última parte desta série, no fim deste mês, quando vamos falar sobre as origens do Green Day.

A viagem termina em Los Angeles. A cena ali era bem diferente do Norte da Califórnia, e o pau comia em incontáveis episódios de violência e briga de gangues. Mas tinha muita música boa. Alguns clubes não existem mais. É o caso do Cathay de Grande, em Hollywood, citado na biografia do NOFX como o lugar mais significativo da história da banda. Olha o que o Fat Mike diz no livro: “O clube ficava na esquina das ruas Argyle e Selma e tinha três ou quatro shows de punk por semana – às terças, o preço era 1 dólar. Durou cinco anos, e uma fonte não confirmada da Wikipedia diz que era o clube mais perigoso da América”. Bons tempos. Hoje, no local, está o bar The Argyle, com seus drinques sofisticados.

Não muito perto dali, no Centro de Los Angeles, fica o fantasma de outro clube importante, o Gorky’s. A casa de temática russa começou como um bar e depois passou a receber shows. Hoje só resta o letreiro abandonado na esquina das ruas 8th e San Julian, numa área tomada por lojas de artigo funerários – bem apropriado.

Andando pelo Centro, dá para esbarrar em vários clubes ainda na ativa, como o Lexington (que no início era uma casa de comédia), o Redwood (que tem um hambúrguer de respeito), o The Smell e o Five Star. Esse último fica bem pertinho do encontro da 3rd Street com a Main. Nos anos 60, a frequência das bebedeiras e das porradarias deu a esse cruzamento o delicado apelido de Triângulo do Diabo. Em 2017, a calmaria reina por ali.

Hollywood, claro, tem a sua Amoeba (São Francisco também tem). E ali perto fica um lugar para quem quer se afundar na história: o Punk Museum, criado pela artista figuraça Taquila Mockingbird. Fotos, pinturas, ilustrações, cartazes. Só não dá para garantir que vai ficar ali por muito tempo, porque a vibe atual é de show itinerante.

Até endereços mais recentes em Los Angeles valem uma visita. É o caso da Pop Obscure Records, lojinha muito simpática no Centro que vende bastante vinil e deixa uma bateria armada no canto para uns shows de vez em quando (como o da lenda Mike Watt, ex-Minutemen, fIREHOUSE e Stooges, que se apresentou em janeiro deste ano acompanhando o Secondmen – trecho do show nos vídeos abaixo).

Para quem curte punk, a Califórnia não tem erro. Vale o esforço das longas caminhadas embaixo de sol e até o baita azar de torcer o pé num buraco da calçada pouco antes de entrar numa loja. Ok. Nem doeu.

– Rodrigo Alves (fb.com/rodrigo.alves.378537) é jornalista e, no começo dos anos 2000, editou o site Planeta Hardcore no Rio de Janeiro.

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