Em Porto Alegre: Festival Rock Gaúcho e Vênus em Fúria

por Janaina Azevedo e Thiago Kittler
Fotos do festival Vênus em Fúria por Minuta Imagens (confira galeria)

Este é um testemunho duplo de um festival que se propôs a reunir nomes consagrados e os talentos do futuro do rock criado no Rio Grande do Sul: o Festival Rock Gaúcho edição Independência ’17. Eu e o repórter Thiago Kittler nos revezamos nessa cobertura: ele, no primeiro dia, sábado, e eu no dia seguinte. Calhou de, justamente no domingo em questão, o Festival Rock Gaúcho não ser o único nas redondezas do bairro Bom Fim. Ao chegar no Araújo Viana, auditório mítico da cidade, para o FRG, percebi que, atravessando a rua, eu poderia assistir também ao Vênus em Fúria, iniciativa das organizadoras do Girls Rock Camp Porto Alegre. Detalhe: o Vênus em Fúria acontecia em outro endereço envolto em mitos da cultura portoalegrense: o Ocidente. Bastava atravessar a Osvaldo Aranha que eu teria acesso a dois festivais.

Então, minha opção foi a de me dividir entre ambos e tentar captar o máximo do que está rolando na nossa cena atual. Para isso, lógico, tive que fazer escolhas e sacrificar alguns shows para conseguir estar em dois locais ao longo da tarde e noite dos eventos. Mas isso fica para o final. Agora, fique com as impressões do repórter da Grande Porto Alegre, Thiago Kittler, sobre o início do Festival Rock Gaúcho.

O FRG em seu primeiro dia:

No sábado, destacaram-se as apresentações dos ‘medalhões’ atuais e da década de 1990. Vera Loca e Papas da Língua fizeram os shows que mais empolgaram o público, que levantou dos assentos, dançou – ou tentou em alguns momentos no espaço possível – e cantou junto hits de ambos. A Vera Loca circula com desenvoltura há muitos anos pelo interior do estado, e um pouco mais recentemente ganhando a capital – mesmo que, oficialmente, a banda tenha sido criada em Porto Alegre. Os caras são ‘cancheiros’. Abriram com uma das faixas preferidas do público, “Graffiti” e fizeram uma apresentação com muita interação.

Ainda deu tempo de o vocalista, Fabrício Beck, vestir a camiseta da campanha “1 salva 8”, da Santa Casa de Misericórdia de Porto Alegre, pela doação de órgãos. Dedicaram “Maria Lúcia” a um radialista que abriu espaço para a banda ainda no início dos anos 2000 e, brindando, “Borracho Y Loco” – versão, assim como a faixa de abertura do setlist – ao público presente e organizadores. Em seguida, veio Nei Van Sória. Ter capitaneado a realização do festival o fez a plateia recebê-lo de pé. No entanto, musicalmente, houve certo estranhamento, visto que pouca gente no Araújo Vianna – que seguia mais e mais ocupado por espectadores – parecia conhecer sua carreira solo. Além do baixista, dois (!) bateristas e uma backing vocal, Nei poderia ter um guitarrista base em seu grupo de apoio. Assim, teria ‘cama’ sonora mais ampla nos momentos em que seguir para os solos de guitarra – ainda que isso não tenha comprometido a performance.

Ao executar uma canção inédita, ele anunciou seu próximo álbum, que se chamará “Neblina”. O trabalho vindouro fala “sobre os tempos que estamos vivendo”. “Estão criando um nós contra eles. Não caiam nessa.” Na sequência, o ex-Cascavelletes lembrou o amigo e colega de banda Flávio Basso, o Júpiter Maçã. Enquanto tocava, a voz e violão, “Lobo da Estepe”, o telão mostrava imagens dele e Júpiter na única reunião dos Cascavelletes – cantando a mesma música –, em 2006. Outro clássico ‘cascavellético’, “Jéssica Rose” foi a canção da sequência. Finalizando um show longo, Nei Van Soria & Banda receberam o filho do músico, Téo; Léo Henkin, do Papas da Língua; Fabrício Beck, da Vera Loca e outros músicos para apresentar “Sob Um Céu de Blues”, sucesso dos Cascavelletes composto pelo vocalista da banda, presente no palco.

Penúltima banda da noite, “o Papas”, como é conhecido pelos fãs, fez do setlist um desfile de hits para quem nasceu, cresceu e/ou viveu no Rio Grande do Sul – ou ainda veio passar as férias nas praias daqui, hahaha – da década de 1990 até meados dos anos 2000. “Vem Pra Cá”, “No Calor da Hora”, “Vou Passar”… Em “Um Dia de Sol”, anunciaram a canção como trilha de novela – a banda é, talvez, a única a conseguir tal feito de divulgação nos últimos anos, no estado. O vocalista Serginho Moah puxou “Toda a Forma de Amor”, de Lulu Santos, para se manifestar sobre os atuais ataques preconceituosos que ocorrem no Brasil. A seguir, “Eu Sei”, que foi trilha de novela e parece ter uma interessante referência em “Redemption Song”, do Bob Marley. Nada mais providencial, em seguida, que a execução de “Mary Jane” – catem a letra para entender do que falo.

Nesse ponto dos shows, o Auditório Araújo Vianna parecia lotado. Após o fim do competentíssimo show do Papas, um dos minipalcos – duas pequenas extensões laterais no palco principal – recebeu a Akeem Music. Músico e banda apontaram para referências em geral mais modernas que o restante dos grupos da noite. Falando nisso, vamos às bandas da novíssima geração que se apresentaram nos minipalcos e no palco principal:

Pedra de Roseta – Ao vivo, coesos, mas nada originais. Vocal potente e bom baterista. Lembra Reação em Cadeia e é indicada pra quem gosta daquela leva do ‘pós-grunge’ iniciada pelo Creed e assemelhados. Tem gente que gosta, ué.

Los Marias – Em uma troca rápida feita pela produção, os garotos passaram a apresentar um folk-rock bastante cantarolável e alegre, até dançante, em alguns momentos. Fizeram o público cantar o refrão “Não vá pensar que eu já esqueci de todas as coisas que fizeste a mim”. Boa banda, boas linhas vocais e de baixo. Por fim, afirmaram que o “rock gaúcho é referência no mundo inteiro”. Desculpa, mas não é não – e retruco como ouvinte de rock que nasceu, cresceu e vive no Rio Grande do Sul.

Le Batilli – O músico e sua banda de apoio vieram da Restinga, um bairro com uma oferta de infraestrutura totalmente oposta ao Bom Fim, exaltado pelo release do festival, onde se encontra o Araújo Vianna – e boa parte dos roqueiros de classe média porto-alegrenses. Talvez pequenos (mas seguidos) problemas de som tenha interferido na concentração da banda. Pareceu a mais fraca, quanto a performance, das novidades. Contudo, a empolgação dos guris foi mais impactante que os problemas de execução das músicas, cativando quem os ouvia.

Ainda haveria o show do Pouca Vogal, reunindo Humberto Gessinger, o Senhor Engenheiros do Hawaii, e Duca Leindecker, garoto pródigo do pop noventista do eixo classe média porto-alegrense Bom Fim-Bela Vista. Infelizmente, a rinite e vida ‘longe demais (do centro) das capitais’ fez este digitador perder a apresentação.

Já no domingo, o FRG e o Vênus em Fúria

Quando cheguei no FRG, uma fila já se formava na entrada do Araújo Viana. Em uma tarde de shows tão díspares quanto Rosa Tattooada, Cachorro Grande, Nenhum de Nós e Armandinho, não consegui identificar padrões entre os fãs. Não arriscaria dizer qual seria a atração que mais arrebatou público nessa tarde. Como o Thiago explicou, o festival tinha uma dinâmica diferente, que eu nunca tinha visto: além do palco central, foram montadas duas estruturas menores, na frente do espaço principal, ocupando um vão que fica entre o gargarejo e as primeiras fileiras de cadeiras. Eram os “palcos alternativos”, onde as bandas inscritas no festival pelo site e selecionadas pela organização apresentavam o seu breve show. Enquanto a técnica arrumava o palco entre um show e outro, essas atrações executavam algumas poucas músicas.

Foi também uma forma de delimitar os espaços entre as bandas clássicas e as novatas, já que somente duas das atrações mais recentes se utilizaram do palco principal. Uma delas é a Grandfuria. Trata-se de um sexteto de Caxias do Sul, que defendeu em seu repertório autoral uma mistura de rock alternativo moderno, à escola perpetuada por Queens of the Stone Age, e elementos – temáticas, também – da música nativista. O resultado é um show com vigor e personalidade. Além da formação clássica, o Grandfuria conta com um acordeonista, que acrescenta uma camada melódica muito bonita no som pesado dos caras. Tocaram por meia hora, foram saudados pela casa ainda pouco cheia e se despediram de um bom show, um bom pontapé inicial para a tarde que viria. No Ocidente, as primeiras atrações do Vênus em Fúria já davam seus acordes iniciais, mas eu ainda conferiria mais algumas bandas do FRG antes de ir para lá.

Imediatamente após a Grandfuria, subiu ao palco alternativo o Théo Dorneles, de quem nunca tinha ouvido falar sequer remotamente. Um rapaz tímido e desajeitado, acompanhado por um baixista e um tecladista com quem forma um trio, digamos, semi-acústico. Théo canta em inglês, as composições são suas e o som é um indie lo-fi, sem referências óbvias. Tocou três músicas com seu trio, a última delas, chamada “Teasing You”, um puxado de blues que me agradou bastante. Ouviria mais um pouco do som do Théo. Mas logo mais outra atração subiria ao palco principal, fazendo um contraste abrupto do show anterior. Foi quando tudo começou a ficar mais divertido.

Quatro rapazes, cozinha + duas guitarras, um vocalista que faz pose e grita: estamos em um show de hard rock. Em pleno 2017, Porto Alegre vê surgir a banda Doris Encrenqueira. Eu já tinha ouvido falar neles: “Dóris Encrenqueira é como se o Guns’n’Roses tivessem surgido ontem”, me disse o Edu K, um tempo atrás. E é isso mesmo. Se é clichê ou característica do estilo, eu não sei. A Dóris Encrenqueira é fiel à cartilha do hard rock: berros agudos, guitarrista solando com o pé no amplificador, músicas empolgadas sobre farra, mulher e bebedeira. Achei a banda bem vaidosa: lá pelas tantas, o vocalista anuncia que estão vendendo CDs no festival e que quem quiser, pode pedir para tirar fotos com ele. Nada mal para um quarteto recém nos primeiros passos da carreira.

Mas a verdade é que a Dóris faz por merecer. Banda muito boa no que se propõe, fiquei com vontade de assisti-los em um palco menor, em um show mais espontâneo, com um público mais reativo às provocações dos rapazes. Porque no FRG, o público ainda não estava aquecido. Infelizmente, acredito que eles não tenham tido a recepção que mereciam por um show tão divertido. Vamos a mais um show nos palcos alternativos. A banda Calibre se apresentou e eu tentei entender porque estavam ali, com um rock pesado tão genérico que nem de longe fez jus ao charme e à personalidade das atrações que já haviam passado pelo festival. Vocês lembram das mil bandas que tentaram pegar carona em ondas como new metal ou funk rock ali pelos anos 2000? Pois o Calibre poderia ser uma dessas. Mas estava no FRG, deslocada e sem a menor graça. Das bandas que assisti (lembre: em dois festivais) naquela tarde, foi o ponto fraco. No fim do show, o vocalista gritou PAZ, a banda tirou selfie com o público – ainda pouco e foi embora. Em seguida, um showzão de verdade.

O Rosa Tattooada subiu ao palco principal e o hard rock estava de volta. O trio foi a primeira atração que moveu o público apático, que agora havia levantado e começava a se aglomerar no gargarejo, entre as cadeiras. No início do show, já tocam um clássico: “Um Milhão de Flores”. Pela primeira vez temos músicos com décadas de experiência no palco, e é notável como a cancha faz bem: não há esforço entre os três para entregarem um som vigoroso e empolgante. Lá pelas tantas, o vocalista Jacques Maciel chama ao palco os caçulas da Dóris Encrenqueira. “Posso me aposentar tranquilo”, anuncia, enquanto o quarteto volta para dividir os vocais e as guitarras em “Rock’n’Roll a Noite Inteira”, praticamente os veteranos passando o bastão para os mais novos. Um momento muito divertido do FRG. O show seguiu e, obviamente, a maior comoção rolou quando tocaram “O Inferno vai Ter que Esperar”, a grande música do trio. Foi quando fiquei sabendo que, lá no Vênus em Fúria, começava o primeiro show que eu queria ver. Hora de atravessar a Osvaldo Aranha.

Um casal, uma banda: o Medialunas está voltando! Depois de um tempo longe dos palcos, para cuidar dos primeiros anos do filhinho de Liege e Andrio, fiquei muito satisfeita ao ouvir durante o show que a banda se organiza para retornar às atividades. Agora, vou explicar para vocês o que é a Medialunas: uma melodia, construída na guitarra, muito bonita, às vezes até doce e meiga, com a companhia da bateria, e que aos poucos vai ganhando força, cada vez mais até explodir em barulho e pancadas, muitos gritos e depois voltar, leve e circular, uma música após a outra. Sim, vocês pensaram em anos 90. É isso mesmo. O legal da Medialunas é que a cumplicidade do Andrio, na guitarra, e da Liege, com as baquetas, é tão forte que transparece no show: é como se eles se comunicassem com gestos e sons no palco, meticulosamente coordenados nessa bagunça que é o som que eles produzem. Alternativo até dizer chega, mas não dá pra dizer chega: a Medialunas é uma banda muito legal de ver ao vivo.

Lá do Araújo Viana, porém, outra banda já me esperava. “Isso aqui é só o começo”, ouvi o Beto Bruno dizendo enquanto procurava um lugar para assistir a Cachorro Grande, nos primeiros instantes do show. Era o início da apresentação, mas o vocalista falava de outro começo: o de uma nova história, um novo capítulo para o rock gaúcho, impulsionado pelo festival, na visão dele. O futuro nos dirá se Beto estava certo ou apenas empolgado. Mas por enquanto, o que tivemos foi um ótimo show de uma das bandas mais queridas do público gaúcho. Para mim, ouvir a Cachorro é como voltar no tempo, lá nos anos 00, quando eles apareceram e eu ainda era adolescente. Parecia tão especial ter uma banda essencialmente roqueira, era como se eles tivessem sido decalcados de outra época e jogados em Porto Alegre. O rock gaúcho era tão repleto de artistas engraçadinhos, e eu não queria gente engraçadinha: eu tava interessada em rock, guitarras e gritos. A Cachorro tinha isso. E ainda tem.

E eu não estava sozinha na nostalgia: antes de tocar “Debaixo do Chapéu”, Beto fez questão de lembrar que foi aquela a primeira música composta em Porto Alegre, pelo cantor, ainda garoto, recém-chegado de Passo Fundo. Cachorro Grande é nostalgia, é o som datado, é terno de lã na capital do verão quase insuportável, é cama de teclado psicodélico, é o Marcelo Gross fazendo o gesto de Pete Townshend ao tocar a guitarra, é tudo isso mesmo. E é legal para caralho por exatamente esses motivos. “Sexperienced”, “Dia Perfeito”, “Você Me Faz Continuar”, “Sinceramente” e até um breve cover de “Miss You”, dos Stones. Público empolgado, ânimos lá em cima. Foi assim que acabou o FRG para mim: depois da Cachorro, não voltei mais ao Araújo Viana. Por escolha, declinei dos shows de Nenhum de Nós e Armandinho. A partir de agora, vamos conversar sobre a maravilha que foi o Vênus em Fúria.

Voltei para o Ocidente a tempo de assistir ao The Biggs. Sempre quis, nunca tinha conseguido. A conexão Sorocaba-Porto Alegre trouxe essa incrível banda para um show curto e grosso. Não tem muita explicação para o som que o trio faz, aquilo é punk e eu não vou me arriscar a transformar algo tão puro em palavras. Só vou comentar que ver a Flávia Biggs, uma verdadeira autoridade do underground nacional, à frente desse furacão, é o tipo de coisa que dá orgulho de ser mulher.

Aliás, essa é a hora de explicar um detalhe muito importante sobre o Vênus em Fúria: trata-se de um festival 100% organizado e executado por mulheres. Desde a concepção até às atrações, passando pela técnica, a curadoria e a produção executiva, tem por trás um pequeno batalhão de mulheres, quase todas com larga experiência na produção cultural do Rio Grande do Sul. O festival acontece a cada dois meses, e todos os fundos levantados vão para o acampamento para meninas Girls Rock Camp de Porto Alegre.


Só mesmo esse festival para trazer a Porto Alegre o show das maravilhosas meninas da Quarteta, a banda de punk feminista festivo que veio de São Paulo (apesar de ¾ da banda ser gaúcha). A definição é da própria vocalista, a Katiane, que escolho aqui como a front woman mais carismática dos dois festivais. Que vontade de ser amiga dessa menina. A Quarteta também segue a cartilha do punk, com uma música alta e gritada, rápida e pesada. Realmente é festiva, porque dá pra dançar. E é feminista, porque não economiza no discurso. “Bucetinha My Choice”, “Não é Não” e “Mamilos Livres”: essas músicas não soam feministas para vocês? Pois são, e são ótimas.

E como eu finalizei essa intensa maratona de dois festivais simultâneos? Com a Losna, um trio de thrash metal, quase pisando também no death e no sludge. Experientes na cena de metal em Porto Alegre, o Losna é formado pela guitarrista Debora, a baixista Fernanda e o baterista Marcelo. Peso para terminar a noite e concluir que Porto Alegre tem muita coisa rolando mesmo. Quem não tá ouvindo, é porque não tá prestando atenção.

– Janaina Azevedo (www.facebook.com/janaisapunk) é jornalista e colabora com o Scream & Yell desde 2010.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *