Punk na Califórnia: um roteiro nostálgico da cena dos anos 90 (Parte 1)

Rancid: o mapa das letras numa jornada pela East Bay
Texto, fotos e vídeo por Rodrigo Alves

Uma barbearia, um banco, uma loja de roupas, duas lanchonetes e estudantes agitados de um lado para o outro. Assim pulsa a esquina que une as avenidas Durant e Telegraph no centro de Berkeley, cidade de 120 mil habitantes às margens da Baía de São Francisco, na Califórnia. Três décadas atrás, naquele mesmo endereço, seria fácil esbarrar no adolescente Timothy Ross Armstrong, com sua jaqueta surrada, seu cabelo espetado e seu violão canhoto. O próprio Tim recorda esses velhos tempos na música “Telegraph Avenue”, do álbum mais recente do Rancid. É o que ele tem feito com a banda nos últimos 26 anos: quase uma dezena de discos, duas centenas de canções e letras autobiográficas que se espalham pelo mapa numa teia de citações.

A missão da viagem à Califórnia em agosto deste ano era gastar a sola do tênis no encalço dessas referências pela famosa East Bay. E, claro, como ninguém é de ferro, testemunhar o próprio Rancid tocando ao vivo em Berkeley, a cidade natal que até hoje enche o peito de orgulho do ilustre filho punk.

Na hora de percorrer o roteiro, a internet é uma mãe, e o mapa é um pai, mas a primeira alusão à banda veio na sorte. Depois de 15 horas divididas em dois voos do Rio de Janeiro até São Francisco, eram mais 40 minutos no trem antes de chegar ao hotel. Entre uma e outra cochilada em cima da mala, a janela mostra a placa identificando a quinta das 13 estações do caminho: Daly City.

Flashback rápido para 1995, quando o Rancid colocou na praça seu terceiro disco, “… And Out Come The Wolves”, para muita gente o melhor entre os nove lançados até hoje. A faixa 10, “Daly City Train”, é uma homenagem a Jackyl, um artista e poeta amigo da banda. Mas a letra não alivia a barra do personagem e lembra que ele se drogava com uma seringa no banheiro masculino da estação Daly City. Sim, aquela mesma estação no caminho para o hotel.

O trem em questão é o BART (Bay Area Rapid Transit), transporte subterrâneo e de superfície que liga São Francisco, Berkeley e Oakland. Os caras do Rancid circulavam direto naqueles vagões quando eram moleques, e a prova está em “Buddy”, que o guitarrista e vocalista Lars Frederiksen aponta como sua música preferida do disco novo, “Trouble Maker”. A letra fala sobre amizade em tom poético e cita o trem logo no segundo verso: “Eu fico nostálgico sempre que penso em você / Como na época em que pegávamos o BART para São Francisco, só pela paisagem”.

As escapadas para a cidade vizinha renderam outras citações, principalmente no segundo disco, “Let’s Go”, de 1994. Com uma letra bem curtinha, “Tenderloin” cita o bairro de mesmo nome em São Francisco e conta a história de uma prostituta que, “por dinheiro, andava pela Rua Larkin”. É nesta rua, aliás, que fica o Tenderloin People’s Garden, uma horta comunitária cultivada por voluntários com um imenso painel colorido que ocupa a parede do hotel McAllister. A placa deixa bem claro: “Todo mundo tem direito a comida saudável. Tudo que é plantado neste jardim é gratuito para a comunidade”.

Com a música “Harry Bridges”, a referência vai mais fundo nos livros de História. O mapa aponta para a junção das ruas Mission e Steuart, numa região bem turística de São Francisco, pertinho da baía. Quem passa por ali nem desconfia o que aconteceu naquele cenário há mais de 80 anos. Em 5 de julho de 1934, aquela esquina foi palco de um grande protesto por direitos trabalhistas. A polícia respondeu com violência, atirou contra a multidão e matou três manifestantes. O dia conhecido como Quinta-Feira Sangrenta desencadeou uma greve geral na cidade, liderada pelo sujeito que dá nome à canção do Rancid. Harry Bridges foi um estivador e sindicalista nascido na Austrália, que viveu na Califórnia e morreu em 1990. O episódio da greve também é tema da faixa “Union Blood”, do primeiro disco, que leva o nome da banda.

Se São Francisco já tem tantas referências, rola até uma certa tensão quando o trem chega a Berkeley. Foi ali que o Rancid nasceu. É ali que fica até hoje o 924 Gilman Street, clube seminal da cena punk da East Bay, que consagrou Tim Armstrong e Matt Freeman ainda nos tempos de Operation Ivy.

Com forte tradição de esquerda, a cidade não engole os desmandos do presidente Donald Trump. O clima naquela semana, inclusive, era de forte indignação após os eventos em Charlottesville, na Virgínia, onde neonazistas marcharam com tochas gritando contra negros, judeus e imigrantes. Na saída das estações de metrô, sempre tinha alguém distribuindo panfletos e convocando para manifestações contra a marcha da extrema-direita. Berkeley é assim, progressista e combativa.

As letras do Rancid lembram que a tradição política vem de um tempo em que a cena punk nem existia. “Telegraph Avenue” não fala apenas da esquina onde Tim tocava violão na adolescência. Olha esse outro trecho: “Mario Savio fez um discurso / Era ele contra a máquina / Por causa disso ele passou três meses na prisão / Mas disse que faria tudo de novo”. E quem é esse tal Mario Savio? Que discurso foi esse? As respostas estão na avenida que abriga o campus da Universidade da Califórnia, um dos maiores centros de ensino de música e artes do mundo.

Savio foi um dos ativistas mais importantes dos Estados Unidos na luta por liberdade de expressão. Em 2 de dezembro de 1964, nas escadarias da universidade em Berkeley, ele se esgoelou num famoso discurso por melhores condições trabalhistas. Diante de 4 mil pessoas, não titubeou: “É preciso jogar seus corpos contra as engrenagens, contra os mecanismos, contra as manivelas, contra todo o aparato! Você tem que fazê-lo parar! Você precisa indicar para as pessoas que comandam, para os donos, que, a não ser que você seja livre, a máquina será impedida de funcionar!”. A fala incendiou a multidão, e a polícia da Califórnia enjaulou Savio na cadeia por três meses.

Pouco antes, ele já tinha tirado da cartola outro momento histórico. O clima ficou tenso durante um protesto no campus e, na iminência do confronto, os manifestantes cercaram um carro da polícia. Calmamente, Savio tirou os sapatos, subiu no capô e discursou ali de cima. Pediu paz, orientou os trabalhadores, e todos voltaram para casa em segurança.

A entrada da Universidade fica bem no início da Telegraph, uma longa avenida que atravessa Berkeley inteira e só termina em Oakland. Nos anos 60, era uma espécie de quintal do movimento hippie. Até hoje, se misturam ali estudantes, moradores de rua, centros culturais, livrarias tradicionais como a Moe’s Books e lojas de disco incríveis como Amoeba e Rasputin.

A poucos metros dali fica o Greek Theatre, o anfiteatro ao ar livre que recebeu o Rancid no dia 20 de agosto, na escala mais aguardada da turnê “From Boston To Berkeley”, com o Dropkick Murphys. Show matador, mais longo e mais enérgico que a primeira apresentação da banda no Brasil, no Lollapalooza deste ano, em São Paulo. Clássicos como “Radio”, “Roots Radicals”, “Salvation”, “Ruby Soho” e “Journey To The End Of The East Bay” deram o tom, mas não sufocaram as músicas mais recentes, também berradas pela punkzada local.

Antes de tocar “Telegraph Avenue” ali pertinho da própria avenida, Lars Frederiksen fez um forte discurso sobre tolerância:

“Nós não damos a mínima se você é preto, branco, gay, hétero, trans, muçulmano, católico, cristão, budista, não faz diferença. Se não fosse a liberdade de expressão, nunca teria existido o punk rock. Não toleramos racismo, machismo ou qualquer merda dessas”.

Nem é preciso dizer que o povo ficou louco. E a reação se repetiu logo após a execução de “Olympia, WA”. Diante da plateia ensandecida, Lars foi para o microfone e comentou com Tim Armstrong:

“Já esteve num show que você não queria que acabasse nunca? É esse show aqui. É bom estar em casa, né? Somos um bando de sortudos desgraçados!”

Pelo visto, todos nós somos.

– Rodrigo Alves (fb.com/rodrigo.alves.378537) é jornalista e, no começo dos anos 2000, editou o site Planeta Hardcore no Rio de Janeiro

Leia também:
– Punk na Califórnia: Um guia pelas ruas de São Francisco, L.A., Berkeley e Oakland

6 thoughts on “Punk na Califórnia: um roteiro nostálgico da cena dos anos 90 (Parte 1)

  1. Cara, muito massa a matéria! Top demais! Essencial para entender o cotidiano do Rancid e a história do punk rock local.
    Parabéns!!!
    Quando saem os próximos episódios?

  2. Cara, sensacional esse tour e as referências históricas. Em NYC fui na “52nd and broadway” citada na Olympia, WA. Não tem nada demais pra ver lá, mas valeu pela ligação haha.

    Aguardando os próximos episódios.

  3. Artigo fantástico, quase tátil. Sem dúvida transporta os reles mortais para mais perto dessa experiência. Vou até ouvir “And Out Come the Wolves”, o único disco do Rancid que tenho.

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