Três filmes: “8 Sobrenomes Bascos”, “Neve Negra”, “O Candidato”

por Marcelo Costa

“Ocho Apellidos Vascos”, de Emilio Martinez-Lazaro (2014, Espanha)
Rafa (Dani Rovira) nasceu em Sevilha e nunca saiu da Andaluzia (na parte meridional da Espanha, divisa com Portugal). Orgulhoso de sua terra, regionalista e metido a galã, o rapaz se envolve com Amaia (Clara Lago), uma jovem que nasceu do outro lado da Espanha, em Euskadi, como é conhecido o País Basco na língua basca (junto aos Pirineus, fronteira com a França). O noivado de Amaia terminou, ela saiu para encher a cara, encontrou Rafa, eles se desentenderam e acabaram na cama (isso mesmo). Assim que o rapaz acorda, percebe que Amaia voltou ao pequeno povoado (fictício) de Argoitia, no País Basco, e apaixonado decide ir atrás dela, para desespero dos amigos andaluzes. Comédia de costumes é um estilo (quase) infalível para se fazer humor tendo como objeto da piada diferenças que podem ser culturais (“2 Dias em Paris”, “Casamento Grego”, “Espanglês”), religiosas (“O Casamento de May”) e até futebolísticas (“O Casamento de Romeu e Julieta”). No caso de “Oito Sobrenomes Bascos” (“Namoro à Espanhola” em Portugal), o estilo sobrevive a uma cinematografia tosca, com fotografia e cenografia canhestras, devido a um grupo de atores dedicados que conseguem fazer o espectador rir das diferenças (até pouco tempo traumáticas) entre os povos espanhóis (vale citar a dupla Karra Elejalde, o pescador que interpreta o pai de Amaia, e Carmen Machi, uma andaluz perdida no País Basco). Apesar do acabamento fraco, “Oito Sobrenomes Bascos” quebrou recordes de bilheteria na Espanha a ponto de ganhar uma “continuação” em 2015: “Oito Sobrenomes Catalães” (também disponível no Netflix Brasil). Para ver despretensiosamente.

Nota: **

“Neve Negra”, de Martín Hodara (2017, Argentina / Espanha)
O maior filme argentino do ano? Bem, a Argentina já foi melhor então. Logo na primeira cena, uma paisagem estilo “Twin Peaks” surge na tela, porém, a trama não se passa em território norte-americano, mas sim na Patagonia argentina. É lá que o garoto Juan ouve alguém lhe chamar, se vira e… suspense. O roteiro então pula algumas décadas, e o espectador é apresentado a Marcos (Leonardo Sbaraglia), que mudou-se para a Espanha e está em um voo voltando ao território familiar acompanhado da esposa Laura (Laia Costa), grávida, para cuidar do sepultamento do pai, recém-falecido. Já na casa da família, Marcos é avisado que a irmã Sabrina (Dolores Fonzi) está internada numa clinica psiquiátrica e que compradores estão interessados nas terras herdadas, o que o forçara a encontrar o irmão Salvador (Ricardo Darin), e remexer o passado numa história traumática que ainda envolve o garoto Juan (Iván Luengo), a irmã e o pai (Andrés Herrera). Primeiro filme de Andrés Herrera (que também assina o roteiro ao lado de Leonel D’Agostino), um profissional que já havia trabalhado como assistente de Fabián Bielinsky em filmes argentinos icônicos como “Nove Rainhas” (2000) e “Aura” (2005), “Neve Negra” padece de obviedade e clichês de gênero, ainda que consiga surpreender o espectador forçadamente, jogando com os personagens de forma às vezes desleal: o personagem de Marcos é fraco, o ato de Laura é obvio e o desenrolar de Salvador não é factível, mas há uma boa história aqui, que perde pontos exatamente pelos exageros que o roteiro propõe para que ela se desenrole, mas que merece atenção… despretensiosamente.

Nota: **½

“O Candidato”, de Daniel Hendler (2016, Uruguai / Argentina)
Como ator, Daniel Hendler (de 41 anos) já estrelou mais de 30 filmes, entre eles uma das mais belas películas latino-americanos deste século, “Whisky” (2004), de Juan Pablo Rebella e Pablo Stoll. Como diretor, estreou em 2010 com “Norberto’s Deadline”, premiado nos festivais da Cidade do México, de San Sebastian, de Lima e no BAFICI (Buenos Aires Festival Internacional de Cine Independiente). Lançado em 2016, seu segundo filme, “El Candidato”, é uma ácida e provocante comédia politica, que sacaneia os métodos publicitários que tentam transformar um homem “qualquer” em um grande político dos novos tempos, daqueles que não se dizem políticos, mas sim uma alternativa às velhas práticas partidárias, ainda que sejam a mesma coisa. Martin Marchand (Diego De Paula) é um filho de um empresário famoso e bastante rico. Ele vive em uma enorme casa no meio de uma fazenda em lugar nenhum assessorado por um braço direito que antes poderia ter trabalhado na casa da Familia Addams. Aos 40 anos, Martin parece um garotinho mimado, mas deseja sair da sombra do pai, e por isso contrata uma agência de publicidade para preparar sua plataforma política, que poderá incomodar velhos aliados da família. Os melhores momentos do filme surgem do confronto lacônico entre Martin e seu auxiliar com a equipe da agência, mas o que se sugeria uma comédia ácida ganha contornos de suspense conforme novos elementos são lançados na trama, fazendo com que o filme ganhe amplitude, mas perca coesão e se encerre de forma abrupta e sem muito impacto. Vale ver despretensiosamente.

Nota: ***

– Marcelo Costa (@screamyell) edita o Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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