Três séries: “Designated Survivor”, “O Nevoeiro” e “Os Defensores”

resenhas por Adriano Mello Costa

“Designated Survivor”, de David Guggenheim (ABC, 2016/2017)
O Estado da União é uma data tradicional onde geralmente em formato de discurso o Presidente dos EUA – em linhas gerais – presta contas ao congresso do ano e apresenta relatórios e propostas necessárias para o futuro. Por lei, um integrante do governo é excluído do evento e deixado em local distante para que, caso haja um atentado ou alguma catástrofe, o governo e o país possam seguir adiante. Bom, na série “Designated Survivor”, da ABC, esse desastre acontece e todos os integrantes do governo são mortos após um ataque fulminante. Criada por David Guggenheim (roteirista de “Protegendo o Inimigo”, 2012), “Designated Survivor” traz Kiefer Sutherland de volta a televisão em um papel de destaque. Ele é Tom Kirkman, secretário de habitação do governo prestes a ser demitido, que foi o sobrevivente designado no dia da tragédia e acaba assumindo o comando da nação sem ter a mínima noção do que está fazendo. Mas, ao contrário de certos indivíduos que na vida real estão nessa situação, Kirkman é um homem justo, de bom coração e ideais nobres, um verdadeiro unicórnio dentro da política. Distribuída internacionalmente pela Netflix gradualmente de acordo com a liberação original, os 21 episódios da temporada inicial, que terminou em maio de 2017 (uma segunda está a caminho), passam por uma verdadeira metamorfose. De início fraco e sem ritmo, repleto de clichês mil e com Sutherland mais uma vez emulando gestos e trejeitos de Jack Bauer de “24 Horas” na atuação, a série vai engatando lentamente. Dividida entre a condução da gestão política e o thriller de suspense que visa desmascarar a conspiração que causou o ataque (tinha que ter uma, lógico), se configura no seu terço final em boa pedida de entretenimento, com destaque para as atuações de Virginia Madsen (“Sideways – Entre Umas e Outras”, 2004) como uma deputada republicana e Kal Penn (“Madrugada Muito Louca”, 2004) como secretário de comunicação do governo.

Nota: 7

“O Nevoeiro”, de Christian Torperf (Spike TV, 2017)
Tudo corre mais ou menos dentro da normalidade em uma pequena e tradicional cidade do estado do Maine, nos EUA. O espectador é apresentado a alguns personagens e há um pouco do cotidiano, quando no dia seguinte conhece o fato que a jovem Alex (Gus Birney), filha do casal Kevin (Morgan Spector) e Eve (Alyssa Sutherland), foi estuprada em uma festa na noite anterior, sendo que seu melhor amigo Adrian Garf (Russell Posner) afirma que o culpado é o capitão do time de futebol da escola e filho do xerife local, Jay Heisel (Luke Cosgrove). Enquanto o fato começa a ser apurado e as tensões se espalham, uma forte e dura névoa cobre a cidade. O que a princípio é visto como uma alteração climática, se altera e ganha transtornos dramáticos e sobrenaturais. Assim temos “O Nevoeiro” (The Mist, no original), série com 10 episódios na primeira temporada, disponibilizada agora em agosto no Netflix. É baseada em um conto de mesmo nome de Stephen King publicado pela primeira vez em 1980 e que já tinha virado filme em 2007 pelas mãos do diretor Frank Darabont. Nesta nova adaptação, o criador é Christian Torperf (de “Rita”, 2012) que insere modificações ao texto original, mas mantêm a essência da obra. Com o fenômeno alastrado e angariando vítimas em sequência, os habitantes passam a ficar em lugares fechados (como um shopping), o que não demora a suscitar conflitos internos. Junto a essa guerra pela sobrevivência contra si mesmos e o terror desconhecido que espreita fora das portas fechadas, a série investe em uma trama paralela forte (a do estupro) e adiciona nas entrelinhas discussões sobre racismo, xenofobia e misoginia, que se mostram tão interessantes quanto o medo do fantástico. Se as atuações fossem melhores e não tão comuns o resultado final seria até mais empolgante.

Nota: 7

“Os Defensores”, de Douglas Petrie e Marco Ramirez (Netflix, 2017)
No dia 18 de agosto, a Netflix disponibilizou a primeira temporada de “Os Defensores” (“The Defenders” no original) em sua plataforma, estancando a ansiedade sobre como seria essa reunião dos heróis já mostrados em séries individuais. Grande aposta da Marvel com o canal de streaming, em “Os Defensores” estão reunidos Demolidor (Charlie Cox), Jessica Jones (Krysten Ritter), Luke Cage (Mike Colter) e Danny Rand (Finn Jones), em conjunto com parte do elenco de apoio de cada um. O nome “Os Defensores”, na origem dos quadrinhos, começou nos anos 70 com uma equipe completamente maluca formada por nomes díspares e individualistas (Hulk, Dr. Estranho, Namor e Surfista Prateado, por exemplo). Nessa nova versão, que já ganhou transposição para os quadrinhos pelas mãos do craque Brian Michael Bendis, o grupo engloba uma roupagem mais urbana e menos fantástica, porém mantendo a pegada individual dos integrantes. Concebida pela dupla Douglas Petrie e Marco Ramirez, responsável pela controversa (e fraca) segunda temporada de “Demolidor”, o primeiro acerto fica por conta da quantidade de episódios, usando 8 ao invés de 13, o que não deixa as coisas ficarem maçantes. Para unir os elos, o roteiro utiliza Claire Temple (Rosario Dawson) e adiciona como antagonista principal a sempre misteriosa associação do Tentáculo, representada pela enigmática Alexandra (Sigourney Weaver), que aos poucos abre os objetivos pretendidos. “Os Defensores” agrada, mas no placar geral fica aquém das empreitadas solo de Jessica Jones e Luke Cage na telinha. Conta com a reabilitação da personagem de Elodie Young (como Elektra Natchios em atuação bem superior à que vimos antes), entretanto esbarra nas dezenas de dúvidas que continuam permeando o Demolidor e no desempenho novamente sofrível de Finn Jones como Punho de Ferro, o que só se agrava se levarmos em conta que ele é uma espécie de centro onde a trama gira.

Nota: 7.5

– Adriano Mello Costa assina o blog de cultura Coisa Pop: http://coisapop.blogspot.com.br

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