Três HQs: “Unfollow: 140 Tipos”, “A Diferença Invisível” e “Aqui”

resenhas por Adriano Mello Costa

“Unfollow: 140 Tipos”, de Rob Williams e Mike Dowling (Panini Comics)
Larry Ferrell criou uma rede social que se alastrou como uma peste pelo mundo, entrando na vida das pessoas de cabo a rabo do planeta e redefinindo a forma de comunicação estabelecida antes (viu alguma semelhança aqui?). Bilionário, mas sofrendo de uma doença terminal e sem muito tempo de vida pela frente, Larry desencadeia um último processo social: cria um aplicativo que escolhe aleatoriamente 140 pessoas de todo o globo para herdarem sua fortuna pessoal estimada em 18 bilhões de dólares. Usa elevados recursos para reunir os escolhidos em uma ilha privada e colocar as regras do acordo que consistem basicamente em: a) só terão a grana depois da sua morte, e b) a cada morte de um dos premiados o valor da parte respectiva será automaticamente rateado entre os sobreviventes e assim sucessivamente. É partindo disso que Rob Williams (roteiro) e Mike Dowling (arte) elaboraram uma nova série para o selo Vertigo, da DC Comics, que chega agora ao Brasil pela Panini Comics reunindo as edições de 1 a 6 publicadas nos EUA entre janeiro e junho de 2016. “Unfollow: 140 Tipos” tem 148 páginas e conta também com arte de R.M. Guéra e cores de Quinton Winter e Giulia Brusco. Essa nova série da Vertigo recebeu elogios de nomes como Brian Azzarello, mas, na verdade, essas edições iniciais resultam em uma junção de dezenas de ideias já desenvolvidas de maneira mais concisa anteriormente e com bem mais brilho. Ao agrupar vários estranhos de lugares diferentes e com ideais e pensamentos distintos para testar assim os limites da humanidade quando está em jogo a própria sobrevivência e muito dinheiro, o roteiro apenas recicla situações com uma roupagem moderna e sem grande efeito, apesar da arte bem trabalhada. Por enquanto é dispensável. A conferir adiante.

Nota: 5

“A Diferença Invisível”, de Julie Dachez e Mademoiselle Caroline (Editora Nemo)
Marguerite sempre se sentiu deslocada de tudo. Do mundo, dos padrões que a sociedade impõe e espera dos seus participantes, até mesmo do círculo composto pelas pessoas mais próximas de si. Aos 27 anos, por conta de suas “manias” e jeito de ser, sofreu preconceitos das mais variadas estirpes. Não entendia o que acontecia, qual “problema” tinha que impedia de ser como os demais. Depois de muito caminhar e bater cabeça descobre que tem Síndrome de Asperger, um tipo de autismo onde a interação social é dificultosa, rotinas devem ser mantidas a todo custo e é recomendável viver e trabalhar em lugares tranquilos sem muitos barulhos e cheiros por causa da hipersensibilidade. Quando descobre, sua vida dá uma pequena reviravolta e tem adicionada uma sensação de paz que nunca provara até então. Esse é o mote de “A Diferença Invisível” (La Différence Invisible, no original), trabalho de 192 páginas lançado na França em 2016 que ganha publicação nacional agora via editora Nemo com tradução de Renata Silveira. A autora Julie Dachez passou por tudo que relata na obra sobre o nome de Marguerite e resolveu mostrar isso a todos com os desenhos simples, contudo funcionais, de Mademoiselle Caroline que retratam bem a relação drama-humor de algumas situações. É um trabalho que deve ser analisado basicamente por dois prismas: primeiramente como material sobre o tema, não tão explorado e conhecido e sem os clichês padrão de autismo já expostos na cultura; e num segundo momento, como extensão para qualquer tipo de preconceito que alguém sofre simplesmente por ser diferente, por não entrar nos padrões que estipulam-se ser os “aceitáveis”, seja por quais forem os motivos que isso ocorra. De qualquer prisma que se olhe, temos uma leitura relevante e que vale o tempo gasto.

Nota: 7 (leia um trecho no site da editora)

“Aqui”, de Richard Mcguire (Quadrinhos e Cia)
O americano Richard Mcguire é daqueles que atuam com distinção em vários segmentos. É renomado designer gráfico além de autor de livros infantis, músico e roteirista. É também quadrinhista, responsável por “Aqui” (Here, no original), que a Companhia das Letras lança agora no país via selo Quadrinhos na Cia. com 304 páginas e tradução de Érico Assis. O projeto inicial foi concebido no final dos anos 80 após uma aula com o grande Art Spiegelman (autor de “Maus”), que levou a história de seis páginas para a revista independente Raw. Em 2014 a obra ganhou a versão estendida que temos o prazer de conhecer agora. Em “Aqui”, Mcguire utiliza o mesmo espaço físico durante um vasto espaço de tempo que vai desde bilhões de anos A.C. até o futuro. Dentro desse espaço, representado na maior parte do tempo por uma sala, mas também pelo terreno unicamente, esboços de uma mesma vida se repetem com outros personagens, talvez com laços entre si ou não, mas que praticam atos semelhantes como segurar um bebê, contar uma piada, dançar, brigar, discutir, brincar (de Twister, por exemplo). Como lemos em uma das páginas: a vida é propensa a essas correspondências. “Aqui” pratica poesia em arte ao usar o tempo como protagonista, a variação dos anos, as pessoas que passam pelo mesmo espaço e se vão e o tempo que segue lá, implacável, imparável. E vai muito além experimentando na forma de contar sua história, aliás, história não, histórias. Sem ser linear em nenhum momento, “Aqui” força o leitor a voltar as páginas a cada momento para uma visão melhor. Isso culmina em desenhos que mais parecem pinturas, com cores refletindo cada período apresentado e fazendo com que a maioria das páginas, se retiradas, ampliadas e enquadradas sirvam de obra de arte em qualquer parede, porque é isso que “Aqui” é: uma obra de arte.

Nota: 10 (leia um trecho gratuitamente no site da editora)

– Adriano Mello Costa assina o blog de cultura Coisa Pop: http://coisapop.blogspot.com.br

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