Entrevista: Millencolin

entrevista por Homero Pivotto Jr.

O frio intenso em partes do ano, às vezes acompanhado da neve, cria um cenário bucólico na Suécia que, segundo moradores do país, é um dos fatores que contribui para que tantas bandas sejam formadas por lá. Afinal, reunir os amigos e mandar um som em alguma garagem e/ou estúdio aquece os corações e ajuda a passar o tempo. Mas há bandas da nação escandinava que conseguem criar um clima ensolarado em suas composições independentemente da estação do ano. É o caso do Millencolin.

Surgido nos anos 1990, o quarteto buscou referências, principalmente, no punk rock melódico da Califórnia (EUA) para criar músicas apropriadas para uma session de surf ou skate, e despontou — ao menos no Brasil — na mesma década, quando nomes como Bad Religion, Pennywise e NOFX ganharam popularidade em solo nacional. Pegando influência desses artistas, mas criando uma identidade própria, o Millencolin conquistou seu espaço entre o público fã de punk rock/HC menos truncado. No total, já são oito álbuns de estúdio, o mais recente, “True Brew”, lançado em 2015.

Em 2017, o quarteto retorna ao Brasil para mostrar serviço em cena, comprovando que, além dos esportes radicais, é excelente trilha para moshpits e rodas de pogo. A turnê sul-americana (que ainda inclui Chile e Argentina) passará por três capitais brasileiras: São Paulo (Tropical Butantã, 06/10), Curitiba (Spazio Van, 07/10) e Porto Alegre (Opinião, 08/10). O baterista Fredrik Larzon respondeu alguma perguntas exclusivas para a Abstratti Produtora via e-mail, diretamente de sua terra natal. Entre os temas, o porquê de a Suécia ser tão prolífica na cena roqueira mundial, radicalismos e história do Millencolin.

Como fã de rock sueco, preciso começar perguntando: tem algo na água do seu país (risos)? Porque há muitas bandas legais de diferentes vertentes. Podemos citar Millencolin, Entombed A.D, Dismember, At The Gates, In Flames, Hellacopters, Anti-Cimex, Wolfbrigade, Disfear, Dissection, Nasum, Refused, The Hives, Grave, Masshysteri, Unleashed, Kvoteringen (que tem você como baterista), Genocide Superstars, Graveyard, No Fun At All, Håkan Hellström, Invsn… e até ABBA e Europe. Qual sua opinião sobre o fato de existirem tantos artistas bacanas na Suécia?
Valeu! Legal saber que você curte nossa música — e as bandas citadas são realmente sensacionais! Não é fácil dar a você uma razão. Alguns dizem que nos anos 1980 e 1990 o Estado apoiava associações internacionais economicamente e isso resultou em um monte de grupos musicais e artistas solos. Outros acreditam ser o clima, ironicamente. Para nós, como conjunto, nos ajudou muito ter um lugar para ir e alugar equipamento e gravar demos em um estúdio por uma pequena taxa anual. Isso nos inspirou e nos deu liberdade para promover shows e coisas do tipo. Quanto mais ensaiávamos, mais tempo de graça no estúdio a gente conseguia. Muitas das bandas daqui, incluindo o Millencolin, se inspiraram nos Estados Unidos ou na Inglaterra para criar algo diferente. Era trabalho duro e dedicação. Ao mesmo tempo, temos todos os tipos de música, TV e filmes por aqui que não são dublados de seus idiomas originais. Além disso, aprendemos inglês desde muito cedo nas escolas, bem como outros idiomas. E isso facilita as coisas para quem busca encontrar público fora da Suécia. Claro que a maioria das produções na mídia vinham dos EUA e da Inglaterra.

Outra questão interessante é bandas de estilos distintos parecerem parceiras e curtir diferentes tipos de som. Isso é maravilhoso e comum hoje em dia, mas no passado não era tão normal. As pessoas achavam estranho, por exemplo, pegar um encarte de banda death metal agradecendo outra de hardcore melódico (no encarte do álbum “Clandestine”, do Entombed, o quarteto death metal saúda o Bad Religion, por exemplo). Como é isso com vocês?
Concordo, pelo menos em relação a certo período. Claro que há muita divisão por gênero aqui, mas não senti isso por um longo tempo. Nunca sentimos a necessidade de fazer parte de uma cena específica. A Suécia é um país muito pequeno, e penso que, cedo ou tarde, você vai topar com outros artistas, independentemente do tipo de som que faz. Isso faz a gente descobrir que somos apenas pessoas compartilhando nosso amor pela música. São apenas tipos ou graus de extremos diferentes. É música: se você gosta, curta! Se não, apenas não ouça. É uma questão de mostrar respeito, além de ser uma boa maneira de buscar inspiração quando não se fica restrito a um estilo.

O Millencolin começou nos anos 1990. Como era a cena punk com a qual vocês tinham contato?
Quando começamos a banda, havia poucas bandas fazendo algo similar (No Fun At All, Superdong / Skumback, Randy, Satanic Surfers etc). Creio que fomos pegos pelo punk/hc estadunidense, especialmente o do sul da Califórnia. O skate também foi crucial! Sem skate, provavelmente não haveria Millencolin. Os outros três caras (Nikola Sarcevic, baixo e voz; Mathias Färm, guitarra; e Erik Ohlsson, guitarra) andam de skate desde adolescentes e ficavam praticando no carrinho sempre que não estávamos ensaiando. Ouvimos um monte de música que nos inspirou nos vídeos de skate e decidimos começar uma banda no estilo desses artistas. A gente também tocava em outras bandas. Não demorou muito para abandonarmos os outros projetos musicais e focarmos no Millencolin. A cena era boa: muitos shows, muita gente nas gigs. A gente fazia eventos e convidava outras bandas e vice-versa. Trocávamos demo, fazíamos fanzine e coisas assim.

O Millenconlin tem essa referência forte do punk estadunidense, mais do que do europeu. Ao menos no Brasil, a banda passou a receber mais atenção quando nomes como Green Day, Rancid, Bad Religion, Pennywise e até Offspring começaram a fazer sucesso em nosso país. Vocês se sentem parte desta onda do punk rock noventista?
Sim! Ouvíamos muito o que saía pela Epitaph Records e pela Fat Wreck. Fomos muito influenciados por Bad Religion, Descendents, Operation Ivy, Pennywise, NOFX e outros. Fizemos alguns shows no começo da carreira com Bad Religion e Offspring aqui na Suécia. Também rolou uma tour na Europa com o Pennywise. Ao assinarmos com a Epitaph, isso ficou mais evidente. Definitivamente, nos sentimos parte deste movimento!

Quais bandas foram como heróis para vocês e quais elementos do hardcore estadunidense chamaram sua atenção?
As bandas que mencionei anteriormente, junto com Circle Jerks, Misfits, Agent Orange, Quicksand e Samiam foram algumas das que nos influenciaram. Também tivemos referências de artistas suecos e de outros estilos. Sempre tentamos manter a mente aberta para sempre estarmos inspirados.

Como a Epitaph descobriu o Millencolin? O quão importante foi ter essa oportunidade de mostrar sua música para o público ‘certo’ — não que a Europa fosse o alvo errado, mas o som de vocês parece ter mais apelo na América?
Começamos a trabalhar com a Burning Heart Records, da Suécia, depois das nossas demos. Como eles lançavam artistas similares, porém suecos, para a Epitaph, as duas gravadoras começaram a fazer parcerias. Porém, assinamos ainda antes disso com a Epitaph. Lembro do Fletcher (Pennywise) falando para o Brett (dono da Epitaph e integrante do Bad Religion) no meio de uma bebedeira para ele assinar com a gente. Hahaha. Em 1995, isso aconteceu e o “Life On A Plate” saiu nos EUA logo depois de termos feito uma Vans Warped Tour por lá. Foi algo grandioso para nós, com certeza. Desde então, trabalhamos juntos (Millencolin e Epitaph)!

Como vocês lidam com a questão de fazer sons só por diversão e outros mais sérios, como uma ‘real’ banda punk (brincadeirinha!)?
Nikola escreve boa parte das letras, mas entendo o que você está falando. Sempre quisemos fazer punk melódico com sons sobre o cotidiano, descrevendo situações alegres e problemas sérios. Tem sido assim desde sempre, mas é cada vez mais importante para a gente com o passar dos anos lidar com algumas questões. Como as mudanças no mundo e o jeito que as pessoas tratam umas às outras, por exemplo. Às vezes é preciso ficar atento às entrelinhas para entender o significado das nossas músicas. Creio que Nikola é um excelente compositor!

O disco mais recente, “True Brew”, é um bom exemplo: há temas positivos, mas também músicas mais críticas, como “Sense & Sensibility”. Essa faixa fala sobre as merdas feitas por racistas e nacionalistas idiotas. Como está esse lance na Suécia e o que você pensa de episódios recentes envolvendo essas questões, como em Charlottesville?
É muito ruim! O racismo está crescendo por toda a Europa e é assustador e fudidamente nojento!

Como merdas assim impactam sua arte e até suas vidas pessoais?
Temos o poder de dizer o que sentimos sobre isso e parece mais importante do que nunca nos mostrarmos contra isso.

E sobre disco novo, há algo nesse sentido?
Sim! Temos ideias para sons e tal, mas antes queremos nos concentrar na turnê pela América do Sul e os shows na Suécia que virão em seguida. Estamos muito felizes sobre essa tour e ansiosos para tocar no Brasil! Obrigado pelas perguntas! Nos vemos nos shows!

Homero Pivotto Jr. é jornalista. Entrevista cedida pela Abstratti Produtora.

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