Três discos latinos: Morbo y Mambo, Manuel Vera Tudela e Onda Vaga

resenhas por Leonardo Vinhas

“Muta”, Morbo y Mambo (Submarino Atomico)
Na ativa desde 2007, a banda argentina Morbo y Mambo estreou com o EP “Das Papier” mostrando que estava disposta a ir além dos clichês afrobeat em que insistiam colocá-los. Depois de mudanças de formação, muitos lançamentos (entre EPs, singles, coletâneas de remixes e dois álbuns de estúdio) e shows América Latina afora, chegam à “Muta” um disco com uma riqueza rítmica e harmônica como poucos, plural a ponto de não caber em nenhuma definição convencional. Os metais continuam como um dos principais diferenciais da banda, usados de modo mais a criar ambiências ou mudar climas, em vez de marcar apenas “pontos de exclamação” ou aumentar a temperatura da fritura – escute o groove de “Nuevo Mood” ou a construção cinematográfica de “Tundra” para entender como isso funciona na prática. Há ecos de space rock (os timbres de baixo de Manu Aguliar são coisa de ficção científica), eletrônica “das antigas” e rock inglês, somados ao que a banda já levava na bagagem, e isso abre espaço para serem mais cancioneiros que nunca. Nisso colaboram os vocalistas convidados: Nick Albrook, frontman do Pond e ex-músico de turnê do Tame Impala, canta em “Portal”, enquanto Santiago Barrionuevo (El Mató a Un Policia Motorizado) desempenha esse papel em “Pomán”, que já havia sido lançada como “lado B” do single “Panama”. Alternando essas canções com os habituais temas instrumentais, o Morbo y Mambo amplia sua dinâmica e dá um passo ainda maior na consolidação de seu nome como uma das principais referencias de música desafiadora e com “potencial de exportação” de seu país.

Nota: 7,5 (ouça e baixe o álbum completo no Bandcamp)

“Hilo”, Manuel Vera Tudela (Independente)
Manuel Vera Tudela é um cantor e compositor peruano que consegue combinar doses justas e interessantes de indie pop, imagens “spinettanas” (de Luis Alberto Spinetta, um dos maiores nomes da canção argentina) e pequenos elementos do folclore de seu país. É companheiro de geração da dupla Alejandro y María Laura, que são um dos nomes mais relevantes no cenário pop menos óbvio da América Latina. “Hilo”, seu quarto disco, demonstra que essa proximidade não é só geracional, já que Alejandro Rivas, uma das metades da referida dupla, assina a produção, colaborando para dar a Vera Tudela o tratamento sonoro que sua música merece, capaz de manter o vigor mesmo nos predominantes momentos silenciosos do disco. A faixa de abertura, “Madre Negra”, já consegue o feito de resumir a estética sonora ao mesmo tempo que seduz o ouvinte para a audição integral do disco. E a sedução não defrauda: as nove canções restantes trazem a voz de vera Tudela bem tratada em arranjos onde se destacam os climas e a riqueza melódica, tão envolventes que você precisa parar e ouvir com muita atenção se quiser identificar cada instrumento participante. Com sutileza e simplicidade, Manuel Vera Tudela fez seu melhor disco, e embora tenha lá seus momentos em que ceda aos clichês indie, cria uma obra personalíssima e de longa vida.

Nota: 7,5 (ouça e baixe o álbum completo no Bandcamp)

“OV IV”, Onda Vaga (Independente)
Possivelmente a banda independente que mais cresceu na Argentina e no cenário latino-americano, o Onda Vaga se sentia refém de sua própria sonoridade majoritariamente acústica, a qual tinha que ser adaptada ao vivo para funcionar nos espaços cada vez maiores que tocam sem que isso representasse perda de identidade. “OV IV” é uma reação clara a essa situação, trazendo maior variedade rítmica e mais soluções elétricas e/ou eletrônicas, que expandem as possibilidades de sua receita de canção violeira. Os fãs de primeira hora não precisam temer: tudo aqui ainda funciona muito bem nas controversas “rodas de violão”, mas há tempos que já se sabe que a banda é mais que isso, e esse “mais” aparece no dub reggae “La Maga”, na cinematográfica “El Estupor” e “Despedida” (que soam como uma reinvenção da melhor fase dos Babasónicos) e no arranjo eletroandino para “No Es Un Exceso”. Mesmo as que guardam parentesco mais próximo com o formato consagrado da banda (“En el Barrio”, “Olviblater”, “Será que Estás Ahí”) apresentam corpo e volume bem maiores do que costumava aparecer. Ficou claro que “Magma Elemental” (2013) foi um álbum de transição, e que os quatro anos que a banda passou excursionando pelo mundo (Brasil incluído) permitiram que o som evoluísse de maneira natural e consistente. E, ao que tudo indica, de agora em diante a evolução só aumenta. Aguardaremos ansiosos por novos “episódios”, mas por ora esse aqui merece ser reassistido muitos e muitas vezes.

Nota: 8,5 (ouça o álbum completo no Youtube)

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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