Três Documentários: “Rocco”, “Whitney: Can I Be Me” e “Who The Fuck Is That Guy?”

resenhas por Renan Guerra

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“Rocco”, de Thierry Demaizière e Alban Teurlai (2016)
“Rocco” retrata o último ano do astro pornô Rocco Siffredi em frente às câmeras. De caráter intimista, o longa tenta buscar certa compreensão sobre o que pensa o ator, suas expectativas e suas tensões. Esse intuito fica claro logo no início: o primeiro take do filme é um close no pênis que deu fama a Rocco, aos poucos a câmera sobe, até fechar-se em seu rosto, imagem que mais veremos durante o filme. Acompanhamos assim a produção de algumas cenas, sua relação com as atrizes e sua perspectiva sobre a pornografia. Em retrocesso, ele fala sobre suas relações familiares, lembrando a vontade de sua mãe de que ele fosse padre e a perda de seu irmão ainda pequeno. No tempo presente, vemos sua esposa explicando como funciona sua relação com um astro adulto e seus filhos adolescentes são apresentados, inclusive incluindo uma constrangedora cena em que ele questiona os meninos se eles já assistiram o pai em ação. Talvez se o filme apresentasse certo resumo sobre a carreira do ator – recontando sua trajetória ao estrelato, suas conturbadas relações e seu flerte com o cinema de arte (nos filmes de Catherine Breillat) – seria dado ao espectador a chance de formar um painel mais completo sobre sua persona, mas aqui tudo parece milimetricamente moldado para soar intimista e delicado, de uma forma estranha. No final das contas, os melhores momentos do filme são da estrela pornô Kelly Stafford, que propõe debates sólidos sobre a presença feminina no cinema adulto e sobre o quanto a sexualidade feminina ainda assusta os homens.

Nota: ** ½

“Whitney: Can I Be Me”, de Nick Broomfield e Rudi Dolezal (2017)
Produzido pelo canal Showtime em parceria com a BBC, “Whitney: Can I Be Me” é um documentário bastante pessoal, que apresenta os fatos mais profissionais sobre a artista “en passant”, focando mais nos dramas íntimos que levaram ao triste fim de Whitney Houston. Com imagens inéditas da última turnê internacional da cantora, realizada em 1999, o filme vai e volta no tempo tentando montar um complicado quebra-cabeças das relações da artista: seu intenso casamento com Bobby Brown; a influência e inveja de sua mãe Cissy Houston; a estranhíssima relação com seu pai; a sua amizade íntima (ou relacionamento amoroso?) com Robyn Crawford; e seu caso de amor com as drogas. Logo no início, o filme já apresenta distintos debates sobre a obra de Whitney, por exemplo, como sua voz era subaproveitada em discos pop bastante medianos ou como ela foi rechaçada pela comunidade negra, que a considerava uma “vendida aos brancos”, mas o documentário cresce ao mostrar como ela passa de uma artista que não fala sobre a vida íntima a uma estrela decadente que tem sua intimidade exposta constantemente, de forma bastante julgatória. Com uma história barra pesada, Nick e Rudi conseguem manter uma mão firme ao criar essa composição de fatos que levam ao fim trágico, sem transformar Whitney em uma personagem maniqueísta: há uma exposição bem específica das relações tóxicas que a cercavam, mas não há uma culpabilização de outras pessoas. Há sim a figura de uma artista que fez escolhas, sofreu e se perdeu nesse caminho, muito mais humana do que o conceito de diva tenta vender.

Nota: ***½

“Who The Fuck Is That Guy? – The Fabulous Journey of Michael Alago”, de Drew Stone (2017)
Michael Alago era apenas um garoto gay e latino na Nova York do final dos anos 70 e 80, mas se tornou parte da movimentada cena musical da época, sendo responsável, por exemplo, pelos primeiros grandes contratos do Metallica e do White Zombie. É sobre essa história improvável que o documentário de Drew Stone se concentra: um homem gay movimentando a cena heavy metal. Carismático e engraçado, Michael Alago conta histórias e passagens, porém o que se destaca no filme são as falas de seus amigos, uma lista bastante heterogênea, que inclui John Lydon, Phil Anselmo, James Hetfield, Kirk Hammett, Cindy Lauper e Rob Zombie (esses dois últimos produtores do filme). Com ritmo veloz, o filme apresenta todo o espírito dos anos 70 e 80, desde as doideiras sexuais e psicotrópicas até o terror da AIDS, sempre apresentando de forma interessante as experiências musicais de Alago, que apesar de associado ao heavy metal, deixou sua marca em outros gêneros: destaca-se aqui sua amizade com Nina Simone, sendo ele um dos responsáveis pelo último disco dela, “A Single Woman” (1993). De forma completamente inesperada, “Who The Fuck Is That Guy?” consegue trazer um olhar bastante particular sobre a música independente, o heavy metal, o life style gay, o preconceito sexual e racial e o uso de drogas, tudo isso de forma bastante divertida. Destaca-se no filme a entrevista com John Lydon, que aparece espirituoso e risonho ao contar histórias como a do fatídico show do PIL no The Ritz, em que a banda tentou tocar atrás da tela de projeção, gerando revolta e bagunça na plateia.

Nota: ****

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites A Escotilha e Scream & Yell.

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