Saiba como foi o I Festival Ambienta, em Belém (PA)

Resenhas por Adriano Mello Costa
Fotos por Bruno Carachesti (veja mais)

A primeira hora do dia 19 agosto começava a acusar no relógio enquanto Lenine e sua banda se esforçavam para engrenar um show que parecia não ir muito além, não por culpa dos músicos ou do (apenas razoável) público presente, diga-se de passagem, mas algo não fluía como devia ser, como se esperava. Isso desde o show da primeira atração do I Festival Ambienta em Belém, a banda local Strobo.

O Festival trouxe como mensagem a sustentabilidade e o cuidado com o meio-ambiente em uma região onde ações desse tipo são mais que necessárias. A parte musical era apenas mais uma de tantas com palestras, bate-papos, exibição do filme “Amazônia Adentro” (2017) e oficinas. Os shows em si aconteceram no espaço do Hangar: Centro de Convenções da Amazônia, um excelente local acostumado a abrigar eventos de todo tipo.

Ambientado com esse clima, das barraquinhas de vendas de souvenir a comida passando por um projeto digital, a atmosfera inicial era aprazível e gerava boas expectativas sobre as apresentações que surgiriam. O Strobo subiu primeiro e, superados alguns problemas técnicos iniciais, engataram o instrumental vigoroso unindo diversos estilos com o eletrônico sempre pautado pelas guitarras de Léo Chermont e a bateria pulsante de Arthur Kunz.

Mas já na quarta música se percebia que algo não funcionaria direito. Explica-se: a organização do evento fez uma área vip/premium por quase o dobro do preço normal e essa área ocupava um lugar considerável na frente do palco, algo em torno de uns 30% do espaço. No início o público ainda chegava e isso causava uma sensação de desconforto não só a banda, mas aos presentes. Nem a subida de Sammliz no palco para cantar algumas músicas do seu ótimo disco do ano passado, como “Oya”, diminuiu o mal-estar.

Na sequência veio Félix Robatto, ídolo local, ex-integrante de uma das bandas mais bacanudas e interessantes já existentes na cidade (o La Pupuña) e idealizador do projeto Lambateria, entre outras coisas. Logo começou a destilar sua mistura de pop, brega, lambada, zouk, cumbia, guitarrada e o que mais aparecer pela frente, com muito bom humor. É sempre um show para cima, no qual o público dança, se entrega e contagia quem não está muito animado. Mas novamente a barreira entre os setores de público e o espaço vazio entre eles incomodava e fazia a receita não funcionar como devia. Félix até tentou romper isso, descendo e atravessando por eles, mas naquele momento não surtiu tanto efeito. Notava-se ali que o público seria apenas mediano e que o tamanho da área vip não seria preenchido em sua totalidade, aliás, não chegaria nem perto disso.

Faltou a organização do evento maleabilidade nessa hora. Acabar com área vip, como alguns falaram, talvez não fosse a melhor solução, pois o risco seria considerável, já que quem pagou a mais poderia tanto se sentir lesado quanto requerer a diferença do valor ou algo mais ainda. Contudo, dava para diminuir essa área, provavelmente. O material que a cercava podia ser reduzido trazendo mais público para perto do artista, como deve ser. O erro de cálculo foi trágico, pode-se dizer.

Lenine trazia a Belém pela primeira vez o show do ótimo disco “Carbono” (2015) e começou com canções como “Castanho” e “O Impossível Vem Pra Ficar”. Depois ainda apareceram outras como “Cupim de Ferro”, “Quede Água?” e “Simples Assim”. A banda é ajustadíssima em palco e Lenine o domina com a experiência que traz consigo ao escolher quando explorar alguns hits como “Hoje Eu Quero Sair Só” e “Paciência”, por exemplo. Um show com execuções de nível, canções fortes, público conhecedor, mas que não conseguiu ser tudo que podia ser por causa da falta de uma interação mais forte.

Após o show do Lenine, várias pessoas (do já mediano público) foram embora e não viram o show da Karol Conká, onde (acompanhada de um DJ) soltou os versos de músicas como “Bate a Poeira”, “Tombei” e “É o Poder”. No meio de cada frase, de cada rimada, de cada alfinetada e afirmação, uma simpatia tremenda no sorriso e uma força tão contagiantes que merecia ter sido vista por mais gente. Bela apresentação.

Na parte musical o I Festival Ambienta prometeu muito mais que entregou. As causas e objetivos são mais que justas, o espaço escolhido perfeito, a escalação dos artistas interessante, contudo o preço pode ter afugentado uma parte do público (ainda mais em agosto em uma cidade onde todos torram grana em julho) e a estipulação de setores prejudicou completamente o andamento dos shows, a junção única entre palco e espectador que é tão fundamental.

– Adriano Mello Costa assina o blog de cultura Coisa Pop: http://coisapop.blogspot.com.br

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