Três discos: Vedovelli, Zerzil e Maria Alcina

Resenhas por Renan Guerra

“Camaleão”, Vedovelli (Biscoito Fino)
Com passagens por algumas bandas, como a regueira Jacarandá, Vedovelli lança agora seu disco de estréia solo, “Camaleão”, com produção artística de Kleiton Ramil (da dupla com Kledir). Com capa colorida, inspirada no Festival das Cores indiano, “Camaleão” ao primeiro momento traz aquela energia “good vibes” que pode gerar certo preconceito, mas a cuidadosa produção faz o ouvinte mergulhar em um registro bastante pop, que consegue casar bem as referências MPB, reggae e folk. Porém, passeando entre momentos mais românticos e outros mais dançantes, a estreia de Vedovelli se mostra oscilante entre músicas realmente boas e outras bastante dispensáveis. “Retrato”, por exemplo, é uma canção bela e delicada. Já “Sinta”, por outro lado, reúne versos clichês, do tipo de poesia pra compartilhar no Facebook. Momentos como a faixa “Sou” parecem replicar aquele clima banda de reggae aleatória das praias de Santa Cantarina, porém em contraponto surgem músicas como “Despedida” ou “No Fundo do Peito”, que mostram um cantor delicado, sincero e romântico. Essa dicotomia é que acaba formando um disco mediano, pois se os momentos trilha sonora de novela de praia soam repetitivos e esquecíveis em “Camaleão”, a verve mais apaixonada de Vedovelli conquista, apresentando um artista delicado e com potenciais hits românticos.

Nota: 6

“ZZ”, Zerzil (Independente)
Mineiro radicado no Rio de Janeiro, Zerzil se comunica com o novo pop nacional neste “ZZ”, um disco de estreia que soa construído para o nosso tempo e para a geração millenial, tanto que os temas são os mais em voga: liberdade sexual, relações líquidas, empoderamento e desconstrução. A ótima “Maskara”, ao lado de Duda Brack, por exemplo, fala do já batido “recalque”, mas mesmo assim funciona muito bem em suas batidas envolventes e no jogo de vozes. Sempre de forma um tanto obtusa, Zerzil deixa clara sua estranheza em meio a tudo, ficando num limbo entre a neo-MPB Lacradora e o pop nacional LGBT, o que é positivo, pois traz um olhar distinto sobre temas em comum para ambos, funcionando de forma bastante distinta para a pista e para ferveção. As faixas de batidas eletrônicas têm versos rápidos e que grudam na sua cabeça com facilidade, como em “Beijaço”, por exemplo, que traz os versos “não dá pra curar o amor / o amor é a cura”. Há no disco uma dubiedade sexual interessante, mesmo quando repete alguns padrões, como em “Sorveteria”, uma releitura moderna do jogo “Salada Mista”. Já “Cerveja” é, certamente, a faixa mais divertida de “ZZ”, com seu refrão que diz “tem gosto pra tudo, até pra tomar… cerveja”, prova de que Zerzil é mais bem humorado que muitos dessa nova geração. É preciso agora que o músico consiga se comunicar com seu público, pois ele certamente terá espaço nesse novo mercado musical que começa a florescer nas noites dos millenials.

Nota: 6,5

“Espírito de Tudo”, Maria Alcina (Eldorado)
Quando alguém fala em “regravar canções de Caetano Veloso”, a primeira coisa que vem a cabeça é: “Precisamos de mais um disco de gente cantando ‘Leãozinho’?”. Ao primeiro play de “Espírito de Tudo”, porém, já se vê que estamos em outro universo, tão próprio de Maria Alcina e bem distante do mais-do-mesmo. Figura mítica da MPB desde os anos 70, Maria escolheu as faixas menos óbvias de Caetano, em releituras entre o rock, a música eletrônica e o brega, dando nova cara tanto para músicas clássicas quanto para pérolas perdidas na extensa discografia de Caê. “Espírito de Tudo” revisita canções dos Doces Bárbaros (“Gênesis” e “Os Mais Doces Bárbaros”), faixas da década de 80 (“Língua”, “O Estrangeiro”) e chega inclusive nos trabalhos mais recentes do baiano (“Rocks” e “A Cor Amarela”), com as escolhas da cantora surpreendendo: ela pega as faixas que mais representam o “caetanear”, aquelas de rimas e versos complexos, e consegue dar nova vida. “Língua” e “O Estrangeiro” soam vigorosas na voz forte e roqueira de Maria Alcina, mas a maior surpresa é “Fora da Ordem” (que contém o verso “Reflete todas as cores da paisagem da cidade que é muito mais bonita e muito mais intensa do que no cartão postal”, que sempre parece não caber na melodia), faixa que reafirma o clichê “mais atual que nunca” e que parece perfeita para esse 2017. “Espírito de Tudo” não é de todo coeso e até perde um pouco da força em alguns momentos (a versão de “Tropicália”, por exemplo, é quase subserviente a versão original), mas não deixa de ser uma grata surpresa, pois Maria Alcina segue vibrante com seu visual intenso carregando um repertório distinto, que diz muito sobre sua figura sempre avante.

Nota: 7,5

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites A Escotilha e Scream & Yell.

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