Entrevista: Pavilhão 9

Entrevista por Gil Luiz Mendes

No final da década de 90, o que tocava na maioria dos fones de ouvidos por pessoas que frequentavam pistas de skate pelo Brasil era a junção de rock com rap. Não que isso fosse novidade. 10 anos antes, Aerosmith e Public Enemy já misturavam distorções de guitarra com os scratchs. Com a passar do tempo Rage Against The Machine, Suicidal Tendencies, Faith no More e Red Hot Chili Peppers aprimoraram a forma de reunir riffs e rimas em uma mesma canção.

Quase na virada do século, o Brasil tinha como principais representantes dessa vertente musical uma tríade de bandas que conquistou grande espaço nas rádios e na MTv: Planet Hemp, Charlie Brown Jr e Pavihão 9. Não parece, mas o tempo passou bem rápido e lá se vão quase 20 anos que essas bandas eram encontradas diariamente em rádios e canais de TV do Brasil. Longe de ser um revival ou uma celebração nostálgica, o Pavilhão 9 retorna ao cenário com um novo disco de inéditas querendo alcançar o público mais jovem.

O álbum “Antes, Durante e Depois”, sétimo disco da banda, foi lançado em agosto e mostra que o som e o discurso da banda não mudaram, mas há um claro desejo de soar como algo novo para quem não tem mais do que 20 anos. Da formação original apenas os vocalistas Rossi e Doze permanecem. A banda agora conta com Leco Canali (Tolerância Zero), Rafael Bombeck e Heitor Gomes (Charlie Brown Jr.). Na entrevista abaixo, realizada no escritório da Deck Discos, em São Paulo, Rossi, Doze e Heitor falaram do processo de gravação do último disco, comunicação com um novo público, além de rap e política nos tempos atuais.

Como surgiu a ideia de voltar com a banda em uma nova formação?
Rossi – Passamos 11 anos sem lançar um disco de inéditas e eu estava em carreira solo, mas eu e o Doze sempre comentávamos em voltar com o Pavilhão. A gente sentiu essa necessidade de continuar porque muita gente perguntava pela banda, dizendo que a gente estava sumido. Aí bolamos um plano para voltar, trazer a banda para essa nova atmosfera de rede social. Mas a minha maior preocupação era com a banda, para fazer uma nova formação e quem a gente iria chamar.

Em quanto tempo foi feito esse processo de renovação?
Rossi – Foi um processo que durou três anos. Foi preciso juntar as pessoas que estão hoje no trabalho. Devido a este tempo pensávamos em como iríamos voltar, como seria o som. Estudamos todos esses tópicos, e principalmente como iríamos nos comunicar depois de 11 anos com essa nova geração que ouve muito rap. Diante disso, pensei nos profissionais que poderiam estar próximos da gente, desde da assessoria de imprensa até o Leandro Dexter que fez a capa do disco em HQ. Mas o principal seria a banda. Não adiantaria ter todo mundo e não ter uma banda legal. Ainda mais a gente que vem de uma caminhada de seis discos.

“Antes, Durante e Depois” foi lançando em agosto, mas já deu para sentir a opinião desse público mais jovem?
Rossi – A gente está muito feliz. Teve um feedback muito bom do público, que falou muito bem da formação nova, da pegada do som. Fiquei bem feliz de ver que não perdemos a alquimia, a pegada e ainda trouxemos um refresh, o algo novo que é a nova formação.

E como foi para quem entrou agora na banda?
Heitor – É um misto de realização e gratidão pelo universo. Para mim é uma oportunidade de permanecer na estrada. O Pavilhão tem o som que eu mais gosto de fazer, que é misturar o rap como o rock. Eu tenho isso no sangue, gosto muito da música black e tenho muitas influências de artistas negros. É uma responsabilidade enorme tocar no Pavilhão 9 porque é uma banda consolidada na história do rock nacional. Mexer nesse legado demanda competência e experiência para desenvolver um trabalho. Para manter essa alquimia e pegada que existiu nos anos 90 teve todo um trabalho, principalmente na composição desse novo álbum.

Como foi fazer esse disco?
Heitor – O Rossi e o Doze são muito pesquisadores de sons, e eles souberam direcionar bem as músicas. Teve muita parceira também, porque a gente tem que estar sempre em contato para entender para que lado eles estão querendo caminhar e como os músicos têm que conceber essas ideias. O Rossi trouxe influências novas para esse disco, bebendo um pouco da fonte dessa nova geração que faz um rap mais de pista.

Rossi – Eu quero ressaltar que o Heitor já tinha tocado com a gente e ia tocar no Lollapalooza 2012 conosco, mas no dia ele não pode. O Charlie Brown Jr. e o Pavilhão sempre foram duas bandas muito próximas, então a gente está na mesma atmosfera musical. Foi muito gostoso fazer toda a produção junto com esses caras. Eles trouxeram bastante ideia para o disco.

No final dos anos noventa bandas como vocês, Charlie Brown Jr. e Planet Hemp tinham em comum a mistura do rap com o rock. Por que não existem mais tantas bandas fazendo esse tipo de som?
Rossi – A galera de agora está vivendo o tempo deles. Eles não pegaram a dificuldade que a gente pegou lá atrás. Era tudo mais difícil, não tinha internet, tudo era mais demorado. A gente precisava ser ouvido, cantávamos naquela época nossos dramas daquele momento. Agora estamos ouvindo outro momento. Devido à internet surgiram vários grupos de rap, mas a gente sentiu que existia essa lacuna, de algo nessa linha do rock com o rap. Eu acompanhei toda essa nova geração chegando e foi legal para também pegar o que eles estão fazendo.

A nova cena do rap está flertando mais com a MPB do que com o rock?
Rossi – Acho que todo mundo agora virou amigo do Caetano (risos). Nada contra o Caetano, mas agora todo mundo é amigo dele, toda essa galera. Na nossa época todo esse pessoal achava que o que a gente fazia não era tão música assim. Agora que a gente conquistou um público e tem uma galera curtindo, esses contemporâneos nossos estão respeitando mais. Antes éramos marginalizados, a galera via a gente como antimúsica. Foi muito difícil a gente conquistar o que a gente tem hoje. Ainda não é o que a gente almeja. Vendo outros gêneros musicais, o rap ainda está comendo pelas beiradas. Não chegou ao mesmo patamar de vitrine que o funk, o samba e o sertanejo têm. Não estou desmerecendo ninguém, eles merecem estar onde estão, mas rola uma certa discrepância e muita gente agora está vendo que o nosso movimento está sendo legal.

Quem é o público do Pavilhão 9 atualmente?
Rossi – Estamos começando a perceber isso agora. As redes sociais são uma janela para captar esse feedback. Obviamente tem um público que já curtia a gente e é uma galera mais velha, mas tem um pessoal mais novo que começa a curtir o nosso som. A gente pensou em se comunicar com esse novo público. A gente não quis vir com ideias antigas.

Doze – Trouxemos as misturas para essa nova geração. Do rap com o rock, das nossas características dos anos 90 misturado com o som que é feito hoje. A gente se renovou também.

O cunho social das letras permanece. O tempo passou, mas os problemas do país são os mesmos?
Rossi – Já tentei cantar outras coisas no Pavilhão, mas não consigo. Não poderia ser diferente, o tema recorrente da banda é esse. Alertar a sociedade e não ficar cagando regra. O que a gente diz nesse disco é o anseio que todo cidadão sente de falar, mas não tem uma forma de dizer. A gente tem isso ao nosso favor e a liberdade de falar. A gente está do lado do povo, das pessoas oprimidas e não poderia ser diferente nesse momento que o Brasil está passando. Tem muita gente vivendo de fachada, tem artista que acha que está todo mundo feliz. Gente que antigamente tinha todo um contexto social e agora é tudo gozolândia. Não é por aí, tem que ter um contraponto. Eu nem falo mais sobre o Brasil, os problemas estão globalizados. Como eu posso ver tanta gente largada pelas ruas de São Paulo, coisa que tinha, mas não tanto como agora, e fingir que não está vendo?

Como vocês veem a situação política do Brasil hoje?
Rossi – Com mais temas para fazer música. Se bem que as letras desse disco vêm sendo trabalhadas há três anos, não foi algo que a gente viu agora no jornal e resolveu aproveitar. Foram temas estudados que acabou coincidindo com essa roubalheira e essa pouca vergonha que a gente está vivendo.

Doze – Sempre foi uma característica do Pavilhão abordar temas que incomodam. No momento o país está sendo mal dirigido. Sempre fomos apartidários e estamos do lado do povo.

Rossi – A gente não apoiou o PT na candidatura do Lula. Eu faço questão de dizer isso. Não porque o PT se corrompeu agora. O PT era o sonho do povo, mas também foram corrompidos. O Pavilhão não tem bandeira. Não somos nem do azul, nem do vermelho. A gente é artista. A gente está vivendo o pior momento político de todos os tempos. Teve impeachment, golpe e a maior roubalheira de todos os tempos. Faço questão de lembrar que lá atrás na candidatura do Lula, quando todo mundo estava ganhando cachê para cantar em showmício, chamaram a gente e não fomos porque acreditamos que arte não tem a ver com política. A gente não é político, a gente é artista.

– Gil Luiz Mendes (https://www.facebook.com/gil.luizmendes), jornalista, 32 anos, viveu boa parte da vida no Recife e hoje mistura a sua loucura com a de São Paulo. Tem passagens pelas rádios Jornal do Commercio, CBN , Central3 e tem textos publicados no IG e na Carta Capital. É skatista e músico quando dá tempo. A foto que abre o texto é de Roberto Salgado / Divulgação.

Leia também:
– Pavilhão 9 (entrevista 2000): “ Somos do gueto e nunca vamos deixar de falar do que acontece lá” (aqui)

2 thoughts on “Entrevista: Pavilhão 9

  1. Eles não são políticos, mas construiu sua carreira com letras de cunho político social e agora me vem essa… esse discurso esta me cheirando a bandinha que quer ficar em cima do muro pois está gostando do que esta acontecendo!!!!

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