Três filmes: Wong Kar-Wai 1990, 2000, 2004

resenhas por Marcelo Costa

Título chinês: Ah Fei Zing Zyun (1990)
Título inglês: Days of Being Wild
Título no Brasil: Dias Selvagens
A estreia cinematográfica de Wong Kar-Wai, “Conflito Mortal” (1988), fez sucesso no circuito local de Hong Kong, mas era um filme de gangster que pouca relação teria com o cinema que ele desenvolveria a partir de “Dias Selvagens”, seu segundo registro, e primeiro filme autoral de uma trilogia involuntária de corações partidos que só seria completa com “2046”, 14 anos depois. Em entrevistas posteriores, Kar-Wai diria que “o amor é uma doença cujos efeitos destrutivos se mantêm a longo prazo”, e esta definição poderá ser acompanhada pelo espectador, que irá vislumbrar o drama de Su Lizhen (Maggie Cheung), uma garota tímida que é seduzida por Yuddi (Leslie Cheung) numa das cenas definidoras do cinema de Kar-Wai, logo a primeira do filme, em que o rapaz (inspirado no livro “Boquinhas Pintadas”, do argentino Manuel Puig5) provoca a moça dizendo que ela se lembrará sempre do minuto em que eles se conheceram (e, seduzida, ela se apaixonou por ele). O filme se passa em 1960 e Yuddi, filho adotado de uma mulher rica, só quer saber de encontrar sua mãe verdadeira, e essa obsessão irá vitimar todas as mulheres que passarem por seu caminho, Su Lizhen inclusa. Desorientada com o fim, Su Lizhen passará noites e noites em claro, algumas acompanhando a ronda do policial 6117 (Andy Lau) por uma Hong Kong fantasma e chuvosa – de confidente, 6117 passará ao posto de apaixonado, e o amor irrealizado o acompanhará dai em diante. E há ainda Lulu/Mimi, outro personagem destinado a experimentar a imperfeição do amor. Primeira parceria do fotógrafo Christopher Doyle com Kar-Wai, “Dias Selvagens” é estiloso em sua cor esverdeada, em seus ângulos incomuns e em seus detalhes poéticos, e belíssimo em sua narrativa sobre amores irrealizados. Nada disso, porém, salvou o filme do fracasso comercial (há uma lenda que diz que esta foi uma das produções mais caras da indústria de Hong Kong), o que fez com que o cineasta abandonasse a ideia da sequência sugerida na cena final, totalmente desconectada da história, mas conectada com o que viria a ser “Amor à Flor da Pele”: um jogador de cartas (Tony Leung Chiu-wai) se prepara cuidadosamente para sair de casa. Ele só reapareceria 10 anos depois… “Dias Selvagens” recebeu 10 indicações no Hong Kong Film Awards e ganhou cinco: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Ator (Leslie Cheung), Melhor Fotografia (Christopher Doyle) e Melhor Direção de Arte (William Chang). Mais: numa votação da premiação, 14 anos depois, apareceu numa surpreendente posição de 3º lugar num Top 100 de todos os tempos do cinema chines (Kar-Wai cravaria seis filmes na lista)!

Nota: 9

Título chinês: Fa Yeung Nin Wa (2000)
Título inglês: In the Mood for Love
Título no Brasil: Amor à Flor da Pele
Em 1997, Wong Kar-Wai estava divulgando “Happy Together” em Paris, e foi jantar com a atriz Maggie Cheung, com quem não trabalhava desde “Cinzas do Passado”. No jantar, Maggie comentou que queria voltar a trabalhar com o cineasta, nJo que ele propôs a ideia de três curtas cujo mote central seria comida e teria ela ao lado de seu ator favorito, Tony Leung, em cena. Nascia o projeto “Three Stories About Food”, cuja ideia era ter três histórias que descrevessem como a comida afeta as pessoas e teriam como mote os seguintes temas: 1) Um sequestrador e a pessoa sequestrada 2) Um homem e uma mulher, vizinhos, cujos cônjuges estão tendo um caso 3) o proprietário de uma lanchonete e seus clientes. Eles filmaram a última história primeiro com Maggie e Tony Leung nos papeis que, futuramente, seriam de Norah Jones e Jude Law (e o filme viria a se chamar “My Blueberry Nights”). No que começaram a filmar a segunda história, Kar-Wai percebeu que ela tinha potencial e começou a acrescentar coisas e a história começou a ficar mais longa, o que fez com que o cineasta optasse em focar nela e esquecer a ideia da trilogia de curtas. Nascia “Amor à Flor da Pele”. Dez anos separam a produção de “Dias Selvagens” de “Amor à Flor da Pele”, mas na ideia de (uma nova) trilogia (não oficial) só se passaram dois: enquanto a história do primeiro filme acontece em 1960, as do segundo se iniciam em 1962, quando a secretária Su Lizhen (Maggie Cheung) e o jornalista Chow Mo-wan (Tony Leung) alugam cômodos de apartamentos vizinhos num bairro de Hong Kong e se mudam no mesmo dia. Ambos são casados e se mudaram com seus conjugues, mas o espectador nunca os verá, porque um deles trabalha viajando muito e o outro está prestes a pôr fim a relação. Isolados em seus próprios mundos (e quartos), Su e Chow trocam olhares e palavras rápidas no corredor, mas se aproximam realmente quando ambos acreditam que seus pares estão os traindo… juntos. A aproximação, de início, se dá de forma banal: eles se encontram para que Su ajude Chow a escrever uma história de artes marciais. Porém, ambos estão vivendo na (chuvosa) Hong Kong dos anos 60, e tanto as convenções sociais da época quanto a repressão feminina não permitem que eles possam ser vistos juntos constantemente. Chow, então, decide alugar um quarto (de número 2046) distante de onde eles vivem para que eles continuem se encontrando, e escrevendo as histórias, e se apaixonando silenciosamente. O desastre romântico é iminente, mas Wong Kar-Wai trata seus personagens com extrema delicadeza e respeito (e o filme com apaixonada sensualidade). A toda hora, Chow e Su repetem “não seremos como eles”, e Kar-Wai é tão sutil na verbalização da traição (“Hoje eu não quero voltar pra casa”, ela diz) que muitos espectadores ficam na dúvida se o romance foi concretizado, mas duas cenas extras do DVD (totalizando 15 minutos inéditos) explicitam o ato: no primeiro, o espectador é convidado ao quarto 2046, e na outra acompanha os caminhos tortuosos do “casal” nos anos 70. Nas duas cenas, mais beleza… e mais dor. “Amor à Flor da Pele” teve uma produção complicada: foram 15 meses de filmagens e mais um tanto de produção e pós, que se estenderam tanto que Christopher Doyle, em sua sexta colaboração com o cineasta, teve de sair do filme sendo substituído por Mark Lee Ping Bin. O resultado, porém, é a obra prima de Wong Kar-Wai e um dos filmes líricos da história do cinema (em tema, fotografia e trilha) sobre perda e desejo. É frequentemente listado como um dos melhores filmes do século 21 (na última votação da prestigiosa Sight & Sound de 2012, aparece numa honrosa 24ª posição) e foi inspiração para que Sofia Coppola fizesse “Lost in Translation”. Foi indicado em 12 categorias do Hong Kong Film Awards (ganhou cinco: Ator, Atriz, Direção de Arte, Figurino e Edição) e ganhou dois prêmios em Cannes (Melhor Ator e Grande Prêmio Técnico). Merecia mais, muito mais.

Nota: 10

Título chinês: 2046 (2004)
Título inglês: 2046
Título no Brasil: 2046 – Os Segredos do Amor
Logo no início de “2046”, Mo Wan Chow (Tony Leung Chiu Wai) quer que Su Lizhen (interpretada por Gong Li) fuja com ele, mas ela joga o destino dos dois nas cartas (“2046” se conectando a última cena de “Dias Selvagens”), e, como podemos imaginar, está lá mais um coração partido estendido no chão. Kar-Wai retorna ao reino dos infelizes numa fábula de quase ficção científica que confirma a crença do cineasta de que os desencontros românticos são a regra de um mundo em que as pessoas desejam o amor, mas nunca o encontram. Assim como seu filme anterior (algumas cenas, inclusive, são sobras de “Amor à Flor da Pele”), “2046” destaca uma fotografia esplendorosa e longos silêncios que são preenchidos por uma belíssima trilha sonora. O número 2046 é um emaranhado de coisas que se misturam e fazem a cama para os personagens sofredores desse drama eterno chamado amor: no quarto 2046, o jornalista e jogador de pôquer Mo (Tony Leung) escreve um romance (chamado “2046”) sobre um local no futuro (2046) que guarda memórias e desejos perdidos, e só é possível chegar lá através de um trem especial futurista. No entanto, se para resgatar essas memórias é preciso ir para 2046, é impossível voltar de lá. Mo guarda uma série de paixões desfeitas e tratará de deixar mais um rastro de corações partidos pelo caminho. Chega a doer o peito acompanhar Bai Ling (a bela Zhang Ziyi), que oferece resistência inicial a Mo (tal qual Su ofereceu a Yuddi em “Dias Selvagens”) para depois cair de joelhos com sonhos de amor desfeitos escorrendo entre os dedos. No tempo futuro do livro, marcas do passado retornam como os androides SLZ 1960 (Maggie Lung), CC 1966 (Chang Chen) e Lulu/Mimi (Carina Lau), e a frase que ecoará no peito do espectador será: “O amor é uma questão de timing: de nada vale encontrar a pessoa certa muito cedo ou muito tarde” (a cena em que Mo dorme no ombro de Bai no taxi, citando “Amor à Flor da Pele”, exemplifica isso a perfeição). Kar-Wai expõe pessoas que nunca chegam na hora certa e que, por isso, estão condenadas ao sofrimento romântico. Um filme trágico, mas assustadoramente real, que não versa sobre os segredos do amor, como pretensamente supõe revelar o subtítulo nacional, porque, afinal, o amor não tem nenhum segredo: quem ama, sofre. Anote. E assista!

“2046” foi indicado em 12 categorias do Hong Kong Awards e venceu 6: Melhor Ator (Tony Leung), Melhor Atriz (Zhang Ziyi), Melhor Fotografia, Melhor Figurino, Melhor Direção de Arte e Melhor Trilha Sonora Original (os dois também no Golden Horse Awards).!

Nota: 9

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

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