Três discos: Nelly Furtado, Sheryl Crow e Aimee Mann

resenhas por Renan Guerra

“The Ride”, Nelly Furtado (Nelstar Entertainment)
Há cinco anos que Nelly Furtado não lançava um novo disco, mais precisamente desde que “The Spirit Indestructible” não obteve o sucesso comercial que sua gravadora esperava. “The Ride” chega, portanto, como um disco alternativo e que se opõe ao universo usual de Nelly, e sua imagem mais popular sempre foi a de “promiscuous girl”, aqui ela dá uma guinada para o indie, vide seu visual de cabelos curtos e roupas mais sóbrias, porém esse é um caminho que ela já estava trilhando desde que conheceu Annie Clark (St. Vincent) em 2012. As duas mantiveram contato e, em 2014, Annie apresentou Nelly ao produtor John Congleton, que produziu todos os discos de St. Vincent e tem uma lista imensa de colaborações. Em “The Ride” ele trabalhou ao lado de Furtado em todas as faixas, trazendo de forma intensa essa sonoridade mais alternativa, que flerta com o indie e o R&B. “The Ride” foi lançado pela Nelstar, gravadora independente da própria artista, sediada no Canadá, o que já tira das costas da cantora aquela pressão de uma grande gravadora pelos charts. No final das contas, em 45 minutos é possível ver uma Nelly Furtado mais solta, fazendo um som que não soa revolucionário ou inovador, mas parece bastante sincero – basta ouvir faixas como “Cold Hart Truth”, “Pipe Dreams” e “Tap Dancing”.

Nota: 7

“Be Myself”, Sheryl Crow (Warner Bros. Records)
Com 55 anos e depois de um câncer, “Be Myself” é um retorno de Sheryl Crow ao seu estilo dos anos 90, mais rock e de voz mais rasgada, porém com seu olhar sempre singular sobre nosso tempo. Trabalhando ao lado de Jeff Trott e Tchad Blake, produtores de seus dois primeiros discos (o multiplatinado “Tuesday Night Music Club”, de 1993, e “Sheryl Crow”, de 1996, do single “If It Makes You Happy”), Sheryl deixa um pouco de lado suas experiências country da última década e aposta em canções pop que falam sobre política, vida amorosa, redes sociais e filhos. Permeado de temas mais pesados e espinhosos, “Be Myself” é como uma terapia ao lado de Crow, na busca por sanar a depressão e outros males. Na faixa “Long Way Back”, por exemplo, ela canta “Some days I feel alright / Some days I can’t wait until it’s night”; já em “Love Will Save The day” o refrão diz “You know It hurts right now, but it will fade / Sometimes it’s hard to find some light”, ambas canções que falam sobre essa luta diária que a depressão causa, e isso se torna mais forte ao lembrarmos que Sheryl já declarou inúmeras vezes que luta desde a adolescência contra a doença. Transformando a dor em ânimo, “Be Myself” é um retorno a ser celebrado e um disco a ser colocado no repeat. Ouçam com atenção a faixa título e a ótima “Grow Up”.

Nota: 8

Leia também:
“100 Miles From Memphis”, Sheryl Crow, é recheado de R&B e soul

“Mental Illness”, Aimee Mann (SuperEgo Records)
Poucos artistas remanescentes dos anos 80 têm a mesma consistência e qualidade de produção que Aimee Mann, por isso mesmo dizer que seu nono disco, “Mental Illness”, é um grande trabalho não é nenhuma surpresa. Se “Charmer” (2012), seu lançamento anterior, era mais pop rock, com guitarras e sonoridades mais intensas, em contraponto, o novo disco é seu trabalho mais acústico, com direito a violinos e cellos (contribuição do produtor Paul Bryan) acompanhando faixas bastante melancólicas, que mais uma vez ressaltam a força de Mann como uma das melhores compositoras de sua geração. Em “Mental Illness” surgem canções que partem simplesmente da foto de um gatinho (“Goose Snow Cone”) até dolorosas faixas de amor (“You Never Loved Me”), porém no final das contas quase todas versam sobre personas com desordens mentais, perdidas em sua própria dor, tanto que Aimee explicou que algumas músicas foram inspiradas em conhecidos dela com transtorno bipolar. Aimee Mann se apresenta ainda mais triste nesse disco, contando histórias de personagens perdidos em seus erros (“Poor Judge”) ou em sua falta de amor próprio (“Good For Me”), o que nos leva em um passeio doloroso que toca diretamente em nossas feridas mais íntimas. “Mental Illness” é um dos grandes discos do ano, porém daquele tipo que poucos darão a devida atenção.

Nota: 9,5

Leia também:
– Aimee Mann ao vivo em Metuchen: “Ficou um gostinho de que podia ser melhor
“Fucking Smilers” é um dos discos mais pops da carreira recente de Aimee Mann
“The Forgotten Arm” é uma dolorosa história inteira de amor, a do casal John e Caroline

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites A Escotilha e Scream & Yell.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *