Para entender… Rush

Texto por Leonardo Vinhas

Havia um tempo em que as polarizações que surgiam numa conversa não adivinham de posicionamentos datados e superficiais sobre posições políticas, mas sim de discussões sobre bandas as quais seria possível apenas amar ou odiar. Era um tempo mais divertido em que o atual, pelo menos nesse aspecto das opiniões extremadas, e nesse tempo nenhuma banda era mais evidente nas divisões causadas que o Rush.

O trio canadense, na ativa desde 1974, era visto pelos fãs como uma banda única, capaz de combinar filosofia, ciência, doutrinas orientais e ficção científica nas letras – embora falassem de outras coisas, principalmente de emoções e comportamentos cotidianos. Esses mesmos fãs também destacavam a habilidade singular de Alex Lifeson (guitarra), Geddy Lee (baixo e voz) e Neil Peart (bateria) em seus instrumentos, destacando sempre o homem das baquetas acima dos demais. Por outro lado, os detratores achavam tudo isso empolação e virtuosismo desnecessário, características pioradas, segundo eles, pelo visual “ridículo” da banda, que passou de exageros fantasiosos a cortes de cabelo e blazers pavorosos, até chegar ao básico jeans e camiseta.

Como toda polarização, o caso do Rush não estava nem tanto ao Céu nem tanto a Terra. É verdade que o trio é bastante virtuoso em seus instrumentos, e que as letras – em sua enorme maioria de Neil Peart– são cheias de referências e construções que podiam passar tanto por “poéticas” como “piegas”, dependendo da canção e dos conceitos do ouvinte. Também é verdade que o visual, esse elemento cuja importância tantos fãs insistem em negar quando se trata de música pop (e lembramos que o rock é música pop), era difícil de engolir – tanto que, no documentário “Beyond the Lighted Stage” (2010), há um segmento inteiro de entrevistas dedicados a esse tema, no qual Geddy Lee reconhece que eles demoraram décadas até entender que poderiam simplesmente usar as roupas que eles usavam no dia a dia.

Só que no meio disso tudo há a música, e o Rush passou do hard rock influenciado por The Who e Blue Cheer dos primeiros álbuns, (“Rush”, de 1974, e “Fly By Night”, de 1975) para canções complexas e intrincadas que renderam à banda a pecha (restritiva) de “rock progressivo”. Veio então um período de transição, mais pop, no começo dos anos 1980, que trouxe o álbum de maior sucesso comercial (“Moving Pictures”, de 1981) e alguns singles que se tornaram hits radiofônicos, seguido por um período em que o som era assumidamente influenciado por bandas de tecnopop, mas dentro da estrutura de power trio de rock.

A partir dos ambos 90 – mais marcadamente, a partir do álbum “Counterparts” (1993) – o Rush voltou a adotar um som mais pesado, sendo que os sintetizadores já haviam reduzido drasticamente seu protagonismo a partir de “Presto” (1989). Os lançamentos também se tornaram mais espaçados, e há dois anos a banda anunciou que não faria mais grandes turnês, devido à tendinite crônica de Peart e a artrite psoriática de Lifeson.

Difícil pinçar cinco canções entre as compostas em mais de 40 anos de carreira para ilustrar as diversas facetas da banda (se você quiser se aprofundar, caro leitor, a coletânea “Chronicles”, dupla no CD, tripla no vinil e disponível com suas 28 faixas no Spotify, Deezer e quetais, ainda que lançada em 1990 – ou seja, com apenas 75% da história da banda – é uma boa pedida). Aqueles fãs mais radicais (ainda existem) vão debochar dizendo que a tarefa é impossível, e os detratores empedernidos (ainda existem) dirão que cinco músicas do Rush é tortura. Mas acho que estamos todos cansados de polarizações, e que vale reforçar que este não é um texto para quem acredita que a própria opinião é superior a qualquer argumentação. É apenas um jeito modesto de reapresentar uma banda que é grande em suas falhas e conquistas.

“2112 – Overture”
A abertura do álbum “2112” é um marco – e o maior hit – da fase progressiva da banda. A suíte completa dura 20 minutos, e trata de uma distopia galáctica inspirada pelo trabalho de Ayn Rand. Por segurança, fique só com a abertura.

“Limelight”
Se é preciso listar apenas um dos grandes hits comerciais da banda, que seja essa sincera e peculiar leitura do estrelato e da fama, segundo maior hit de “Moving Pictures” (o primeiro sendo “Tom Sawyer”, claro). O senso pop de Lee e Lifeson brilha tanto quanto a letra de Peart..

“Subdivisions”
Emblemática da fase “sintetizada”, também merece destaque por trazer uma letra sobre inadequação social motivada por bullying e preconceitos, o que só aumentou a associação (bem-vinda) do Rush com os nerds de outrora.

“The Pass”
Ainda “Presto” (1989) tenha apontado pela banda como o único álbum que eles regravariam, se pudessem fazê-lo, ele traz essa que é considerada pelo trio como uma de suas melhores canções, e certamente uma das preferidas. O apelo emocional intenso da letra encontra tradução no arranjo épico, mas sem perder o elemento pop de vista.

“One Little Victory”
Faixa de abertura de “Vapor Trails” (2002), é um bom exemplo do Rush mais pesado que vigoraria dos anos 1990 até hoje. O álbum em questão foi o primeiro da banda desde 1975 a ser gravado sem qualquer presença de teclados, e foi relançado em 2013 em uma ótima versão remixada que apagava o efeito “loudness war” do lançamento original.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

Para entender:
– Para Entender: Electric Six -> “Uma banda de heavy disco satanista” (aqui)
– Para Entender: Bufallo Tom -> O legado do Buffalo Tom ainda mexe com muita gente (aqui)
– Para Entender: Butthole Surfers -> uma história, ultrajante, errática e incorreta (aqui)
– Para Entender: New Model Army -> Extensa discografia que merece ser vasculhada (aqui)
– Para Entender: Los Fabulosos Cadillacs -> Uma das maiores bandas da América Latina (aqui)
– Para Entender: The My Morning Jacket -> Excelentes álbuns e shows delirantes (aqui)
– Para Entender: The Replacements -> Em seu auge, a banda lançou discos perfeitos (aqui)
– Para Entender: Mano Negra -> Uma das bandas mais influentes da França (aqui)
– Para Entender: Black Crowes -> Uma música bela, intensa e pouco acomodada (aqui)

Leia também:
– Na máquina do tempo com o Rush, por Thiago Pereira e Terence Machado (aqui)
– Rush no Madison Square Garden (2011): um show de profissionalismo (aqui)
– “Feedback”, do Rush, é um discão de rock em meros 27 minutos (aqui)

3 thoughts on “Para entender… Rush

    1. Jomar, é verdade que o trio original – Lee, Lifeson e John Rutsey – se uniu pela primeira vez em 1968, mas a formação foi inconstante, e a atividade dos integrantes era errática (https://en.wikipedia.org/wiki/History_of_Rush). Assim, consideramos usar 1974 como data inicial, tal como a própria banda usa oficialmente. Afinal, as comemorações “R40”, celebrando os 40 anos da banda, não aconteceram em 2008, mas em 2014.

  1. Bom…claro que listas são sempre controversas…Pra mim, Closer to the heart, the trees, xanadu, bastille day, circumstances, la villa strangiatto, por exemplo, dizem mais sobre a banda que as citadas na matéria.

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