Três discos instrumentais: Céu de Vênus, Dercy e Zé Bigode

Resenhas por Renan Guerra

“Introspecto”, Céu de Vênus (Sinewave)
“Introspecto” parece até um nome clichê para um disco de post-rock, mas é eficaz ao resumir o trabalho da Céu de Vênus, banda curitibana formada por quatro estudantes de música e que estreia nacionalmente aqui. Seguindo a cartilha do post-rock de forma correta, a Céu de Vênus consegue criar um universo coeso e bem detalhado em suas cinco faixas de estreia, porém ainda soa como mais do mesmo em uma seara na qual pululam bandas a cada dia pelo Brasil. Além disso, em seu release de lançamento, eles descrevem-se de forma pouco atrativa: uma banda que “busca despertar e aflorar sentimentos e reflexões aos ouvidos mais aguçados” ou ainda “que visa proporcionar sensações ímpares aos seus ouvintes”. Se ignorarmos os clichês, é notável a qualidade técnica e o cuidado da banda em cada detalhe de “Introspecto”, o que dá margem para expectativas futuras, pois se esse primeiro EP não é muito memorável, mostra que com a maturação certa, a banda pode alcançar outros espaços. Talvez seja preciso que eles se desamarrem um pouco do beabá do post-rock e criem seus próprios caminhos. Acompanhemos.

Nota: 5 (download)

“Dercy”, DERCY (Ressaca Records/Sinewave)
Quando se fala em rock instrumental sempre há uma aura de seriedade muito forte, um existencialismo e uma contemplação que se quer filosófica, porém o DERCY é o avesso disso, é a zoeira e a fritação pelo sentido mais puro que se espera do rock instrumental: barulheira das boas. Formado como um encontro de amigos, entre feijoadas e baseados, o DERCY lançou seu primeiro EP este ano e, pelo que parece, este será um filho único do projeto, até porque seus integrantes são parte de outras inúmeras bandas. Vamos à lista: Carlo Eduardo Freitas, no baixo, é também da Bloodbuzz, Combover e Orange Disaster; Pedro Gesualdi, guitarra, é da Danger City, Japanese Bondage e Hipopótamo; Theo Portalet, guitarra, é do Hangover e Dolphins on Drugs; e Caio Casmeiro da Rocha, bateria, é do Sheila Cretina, Cãimbra e Tokyo Savannah. Construído como um supergrupo do underground de São Paulo, o DERCY pode soar como uma piada boba de maconheiro, com suas faixas de títulos como “Erva Wilma” e “Matinho da Vila”, mas o fato é que num curto espaço de tempo, as faixas passeiam pelo stoner rock, o surf rock e o punk de forma instigante. Produzido por Billy Comodoro e gravado no Estúdio Aurora, em SP, “Dercy” é uma piada que pode ter efeito fugaz, mas que diverte quem se aventurar pelo universo da banda. Vale atenção especial a faixa “Dercy Beaucoup”, seis minutos de fritação que fariam a musa da banda, Dercy Gonçalves, certamente soltar uns bons palavrões.

Nota: 7 (download)

“Fluxo”, Zé Bigode (Mondé)
A big band carioca Zé Bigode lança seu disco de estreia num dos melhores momentos da música instrumental brasileira, onde há uma grande produção na área e um público atento a esse cenário. “Fluxo” pode se beneficiar no meio disso, já que seu caldeirão sonoro aponta para vários lados do mundo. Partindo dos temas e harmonias de Zé Bigode, o homem que dá nome a banda, reúnem-se aqui 15 músicos de diferentes lugares do Rio de Janeiro para a criação do álbum, gravado quase todo ao vivo (considerando-se claro os momentos de limitação ao se colocar 15 caras dentro de um estúdio). De alma carioca, o disco traz os aromas cubanos para a roda, mesclando-se com jazz, baião, hip-hop e ritmos africanos, criando sonoridades que fogem da erudição e flertam descaradamente com a rua, com as festas, com os bailes de gafieira. É impossível não relacionar as canções aqui apresentadas com os afrobeats do Bixiga 70, pois ambos buscam essas composições quentes, que contemplam as nossas raízes africanas e mostram seu caráter mais latino. Com vocais pontuais de Ingra da Rosa, “Fluxo” consegue ser um álbum redondinho, bem definido, que consegue dar conta dessa multiplicidade de artistas que aqui se encontram. Vale ouvir com atenção as faixas “Domingo no Centro”, que começa com um caráter mais cosmopolita até se tornar um baião porreta; “Marijuana Mon’amour”, que traz certo ar de psicodelia; e “7 Caminhos”, que tem aura de ponto de macumba e envereda por uma trilha rítmica envolvente.

Nota: 7 (download)

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites A Escotilha e Scream & Yell.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *