Três livros: Max Barry, Terry Hayes e Joël Dicker

por Adriano Mello Costa

“Léxico”, de Max Barry (Editora Intrínseca)
Uma organização misteriosa e secreta treina jovens com potencial para agirem na persuasão de pessoas, ocultamento de fatos e divulgação de verdades não tão verídicas assim, tudo em nome de um suposto equilíbrio mundial. Esses agentes, quando vão ao trabalho de campo, deixam seus nomes verdadeiros para trás e assumem os de famosos poetas como novos, já que as palavras são sua arma letal, principalmente as combinações que promulgam para invadir a mente dos alvos e alterarem o seu comportamento. Esse é o mote de “Léxico”, livro do australiano Max Barry que há alguns anos nos brindou com o ótimo “Homem-Máquina”. Essa nova aventura do autor foi lançada aqui no país pela editora Intrínseca em 2015 (é original de 2013) com 368 páginas e tradução de Domingos Demasi. Em “Léxico” temos ação e bom humor em quantidades generosas, mas mesmo sendo um livro agradável incomoda por utilizar algumas das premissas já utilizadas em “Homem-Máquina”. O protagonista, por exemplo, é uma mistura do Charles Neumann do referido livro e Arthur Dent de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”, de Douglas Adams. Esse protagonista é Will Parke, um pacato cidadão que, de repente, se vê no meio de uma tremenda confusão sem saber os motivos para tanto. Do outro lado da história está Emily Ruff, uma jovem que vive na rua fazendo trambiques até ser recrutada pela organização que vê potencial nela (apesar de um “lado sombrio”). E no meio de tudo está T. S. Elliot, um renomado e experiente agente que busca solucionar as broncas. Juntando esses três lados e alternando entre presente, passado e futuro, Max Barry promove uma divertida e descompromissada jornada em busca da salvação mundial, enquanto joga no meio do caminho algumas situações levemente críticas e ácidas em relação a esse mesmo mundo.

Nota: 6 (leia um trecho do livro)

“Eu Sou o Peregrino”, de Terry Hayes (Editora Intrínseca)
Terry Hayes é britânico, mas saiu jovem para a Austrália. Foi repórter nos EUA e, além de jornalista, é um experiente roteirista de Hollywood (com filmes como “Mad Max 2” e “Do Inferno” no currículo). Em 2012, Terry lançou o primeiro romance chamado “Eu Sou o Peregrino” (“I Am Pilgrim”, no original) que abocanhou o badalado prêmio National Book Awards do Reino Unido em 2014 como melhor thriller policial. O livro teve publicação nacional em 2016 pela editora Intrínseca, com 686 páginas e tradução de Alexandre Raposo. Como era de se esperar pelo currículo do autor, essa estreia é cinematográfica, intensa, com pulsação acelerada e repleta de ação. Tudo é montado de maneira que seja possível a transposição para a grande tela. E isso não é ruim, pelo contrário. Se por um lado temos algumas soluções “mágicas” como em blockbusters tradicionais, onde o protagonista sempre conta com algum golpe de sorte, por outro lado os capítulos mantêm uma constância que faz com que o calhamaço flua, sem estancar ou deixar a leitura com passagens sofridas. A quantidade elevada de páginas serve para que o autor possa erigir cuidadosamente os perfis dos envolvidos em uma caçada que se espalha pelo mundo. Claro, que o que está em jogo é algo extremo como a salvação do planeta (ou pelo menos dos EUA). O Peregrino que empresta o nome ao título é o codinome de um agente de nível elevado da inteligência americana que durante anos se mascarou tanto que a identidade original é apenas memória distante. Até que um detetive de homicídios de Nova York lhe desmascara e ele serve de auxílio para um misterioso e elaborado assassinato na cidade. Esse crime desencadeia, junto com outros processos, a corrida para pegar um hábil saudita que está prestes a jogar uma praga biológica no país. Em meio a pensamentos e teorias, “Eu Sou o Peregrino” é um thriller funcional que, como qualquer bom filme de ação, cumpre o seu propósito de divertir.

Nota: 7 (Hotsite do livro)

“A Verdade Sobre o Caso Harry Quebert”, de Joël Dicker (Editora Intrínseca)
“La Verité sur I’Affaire Harry Quebert” (no original) vendeu mais um milhão de cópias mundo afora, sendo que é interessante perceber após as 576 páginas como algumas coisas se cruzam entre realidade e ficção. O segundo livro do escritor suíço Joël Dicker recebeu elogios e louvores de publicações respeitosas e o transformou em um prodígio que, na época do lançamento na França em 2012, tinha 26 anos. O personagem do livro em questão também é um escritor que vira celebridade aos 28 anos quando a estreia no mundo da literatura estoura e transforma a vida. Lançado pela editora Intrínseca em solo nacional em 2014 com tradução de André Telles, a obra tem ponto de partida quando Marcus Goldman, o protagonista, vê os prazos para entrega do segundo trabalho se esgotarem e ele não escreveu uma linha sequer. Esse bloqueio criativo o faz recorrer ao antigo professor, amigo e mentor dos tempos de faculdade, Harry Quebert, um escritor conceituado, na casa onde reside na pequena Aurora, em New Hampshire, Estados Unidos. Enquanto tenta liberar a mente, Goldman vê tudo virar do avesso quando o corpo de uma garota desaparecida em 1975 aparece enterrado no quintal do amigo. Em busca de provar a inocência dele, Marcus parte em uma investigação própria que o colocará em uma espiral de acontecimentos que revelará não somente lados obscuros das pessoas como destravará aflições e memórias. Com um estilo simples e sem muitos floreios, o autor junta diversos gêneros como romance, suspense, policial e drama psicológico, sem escorregar. Elabora camadas e mais camadas que em determinado momento apresenta um livro, dentro de um livro que é parte de outro livro. Se Jöel Dicker será um grande escritor, isso só o tempo dirá, mas tirando os hiperbólicos exageros direcionados a obra, temos sim um livro notável.

P.S: O personagem Marcus Goldman tem uma aventura posterior em “O Livro dos Baltimore”, lançado em 2017 aqui no Brasil.

Nota: 8 (Hotsite do livro)

– Adriano Mello Costa (siga @coisapop no Twitter) assina o blog de cultura Coisa Pop

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