Entrevista: Combo Cordeiro

Entrevista por Gil Luiz Mendes

Um disco que demorou quatro dias para ser gravado e um ano para ser lançado une dois expoentes da música pop paraense atual: Felipe, o filho, e Manoel, o pai, se juntam no projeto Combo Cordeiro, que reúne música eletrônica, experimentalismos e a tradicional guitarra amazônica.

Já disponível nas plataformas de streaming, “Combo Cordeiro”, o disco exibe 10 faixas instrumentais em que os músicos abusam, no melhor sentido da palavra, do uso de sintetizadores e batidas eletrônicas pré-programadas, algo bem característico do techno melody feito no Pará. Mas para cada beat existe uma paletada, o que traz o sentido orgânico do disco ser uma das coisas que chamam mais a atenção nas primeiras audições.

“Combo Cordeiro” conta com a participação dos percussionistas Thomas Harres e Márcio Teixeira, do saxofonista Thiago França e dos guitarristas Kiko Dinucci e Fernando Catatau. Os três últimos na faixa “A Ravanche dos Mestiços”, onde não se ouve nada que não seja um sax e quatro guitarras endiabradas, enaltecendo um estilo genuinamente brasileiro de se tocar do instrumento.

Na entrevista abaixo, Felipe e Manoel contam dos experimentalismos que fez surgir o projeto, que a princípio não seria para apresentações ao vivo, falam sobre música instrumental e como eles acreditam que o público irá receber o Combo Cordeiro.

Como surgiu a ideia de fazer um disco apenas entre vocês e abrindo mão de uma banda convencional?
Felipe – Surgiu naturalmente, da gente começar a produzir assim e até se apresentar nesse formato. Fizemos algumas temporadas na Casa de Francisca em SP nesse formato e quando percebemos tínhamos um projeto pra realizar. Na Casa de Francisca interagimos com convidados distintos: Juçara Marçal, Maurício Pereira, Kiko Dinucci, Fafá de Belém, Benjamin Taubkin, Kassin, entre outros.

Manoel – Registramos no disco algo que começamos a desenvolver em 2010, quando comecei a tocar guitarra no disco “Kitsch Pop Cult”, do Felipe. Desde esse tempo estudamos e aprimoramos juntos técnicas, timbres, fizemos pesquisas e desenvolvemos uma maneira particular de tocar. Então, o Combo Cordeiro surgiu naturalmente, dessas vivências juntos, da estrada e aí resolvemos gravar. Não foi nada planejado, foi se desenhando, acontecendo.

A base de todo o disco é techno melody de Belém, mas foge do padrão por ser um álbum instrumental. Como foi o processo de composição do disco?
Felipe – É um híbrido de eletrônico com instrumental que tem a pretensão de fugir do padrão mesmo, já chamaram de “Future Brega”, gostei. Não é exatamente música eletrônica, isso fica claro em algumas faixas bem acústicas e ruidosas. Mas provavelmente será recebido como eletrônico, e isso é legal. A produção é crua e direta, sem muita ornamentação. Para cada provocação de beat eletrônico, uma resposta instrumental. Para cada inserção HI TECH, uma resposta HI TOUCH. Tudo é cru e direto. A maioria das músicas nasceu no estúdio, isso porque já tínhamos um conceito pré estabelecido e um nível de entrosamento que sabíamos que ia dar certo. Gravamos tudo em 4 dias.

Manoel – O “lance” é tocar composições nossas com uma linguagem que nos parece boa. Música instrumental, acompanhamentos com timbres eletrônicos. Ou simplesmente expressar todo o romantismos e Glamour da faixa “Palácios dos Bares”, de Belem do Pará, em um solo de duas guitarras com efeitos “amestrados”. rs

O disco está sendo lançado um ano depois da sua gravação. Houve muito trabalho na pós-produção, tendo em vista o grande número de efeitos existente, principalmente dos sintetizadores?
Felipe – Quase não houve pós-produção, o disco é sujo, ruidoso e radicalmente espontâneo, apesar de ter batidas programadas. Demorou sair por conta de agenda e comprometimento nosso com outros projetos. Mas tá vindo em boa hora.

Manoel – Não houve muito trabalho, pós produção. Resolvemos privilegiar a emoção de fazer ao vivo. Está sendo lançado só agora por conta de muitas atividades envolvidas.

Na última faixa, “A Revanche dos Mestiços”, que tem a participação do Fernando Catatau e do Kiko Dinucci, não há outro instrumento que não seja a guitarra. Foi uma forma que vocês encontraram para celebrar a guitarra genuinamente brasileira?
Felipe – Na verdade tem ainda a participação do Thiago França, aliás, participação fundamental. O Thiago com sua verve experimental e ruidosa somou muito nessa faixa, na verdade até resolveu a sonoridade, já que ficou com as frequências mais graves, equilibrando o ruído extremo dos guitarristas. Mas o lance de ter Catatau e Dinucci tem a ver com celebrar uma linhagem de guitarra brasileira contemporânea bem original. Pouco ou nada tem a ver com a tradição do instrumento ligada ao blues, jazz e rock. O Kiko Dinucci chama pra isso de “sotaque elétrico”, acho que é por aí mesmo.

Manoel – Emoção total. Cada qual compôs a sua parte no estúdio, um pouco antes da gravação. Foi “punk”, sensacional! Contamos ainda com o genial Thiago França no sax tenor/Barítono. É a música brasileira em sua plenitude e sem filtro. As guitarras brasileiras dialogando muito.

Estive no show de lançamento desse projeto durante a Virada Cultural, no Parque Chácara do Jockey, e apesar da empolgação do público, muita gente não conseguiu entender bem a proposta. Vocês acham que esse trabalho é um pouco mais difícil de compreender do que os discos feito por vocês?
Felipe – Natural que algumas pessoas não estivessem por dentro, até porque tudo ali era novo. Mas fiquei com uma ótima impressão da receptividade. Acho que é uma música mais específica, tem a ver com o ambiente de pista eletrônica, vai naturalmente encontrar esse destino. Mas não acho que seja mais difícil de compreender.

Manoel – Era nosso primeiro show oficial. Muita coisa nova pra gente, mais os teclados, sinc’s. Mas, resumindo: nosso trabalho é simples e uma proposta nova. Fiquei feliz com o retorno. Tive a sensação de que foi muito legal.

Grupos instrumentais como o Bixiga 70 e Nômade Orquestra mostra que tem público para música instrumental no país. Vocês acreditam que isso é uma tendência atualmente?
Felipe – Acho que a tendência é não enxergar a música instrumental como algo tão tradicional e engessado num formato. Ela cabe em vários ambientes e tende a ser mais experimental. Isso amplia seu alcance. Hoje, a música instrumental é pura cultura pop.

Manoel – A música instrumental é uma expressão artística que existe há muito tempo. Não é novo e nem tendência. É música instrumental.

Como vocês vão trabalhar esse projeto? Tem agenda de shows e turnê?
Felipe – No início não pensávamos em fazer show, pois se trata de um projeto, digamos, paralelo. Mas já vimos que vamos fazer mais shows com ele, é gostoso e divertido. Já temos alguns shows em vista sim, vamos divulgar em breve.

Manoel – Chamamos esse projeto de especial, paralelo. Pretendemos fazer alguns shows, mas o mais importante foi ter jogado esse disco no mundo.

O que tem nesse disco que não tem em nenhum outro que vocês já fizeram?
Felipe – Um mergulho na nossa verve mais experimental.

Manoel – Experimentei a sensação de ter feito algo novo. Somando o eletrônico com orgânico (indivíduo), em alta octanagem.

– Gil Luiz Mendes (https://www.facebook.com/gil.luizmendes), jornalista, 32 anos, viveu boa parte da vida no Recife e hoje mistura a sua loucura com a de São Paulo. Tem passagens pelas rádios Jornal do Commercio, CBN , Central3 e tem textos publicados no IG e na Carta Capital. É skatista e músico quando dá tempo. A foto que abre o texto é de José de Holanda / Divulgação

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