Entrevista: Do Amor (2017)

Entrevista por Leonardo Vinhas

Desde o começo de sua carreira, em 2007, a banda carioca Do Amor chamaria atenção pela estranheza, pelo choque entre um senso pop e a anarquia rítmica e melódica. Seu segundo álbum de estúdio, “Piracema” (2013), acentuaria ainda mais esse caráter, e faria do quarteto uma referência esquizoide obrigatória na música contemporânea brasileira.

Por isso, estranha iniciar a audição do terceiro e mais recente álbum, “Fodido Demais”, lançado em abril de 2017, e se deparar com a concisão da ágil “Peixe Voador”, a delicadeza psicodélica de “Eletricidade” e a melodia indie pop de “O Aviso Diz”. Teria o quarteto – formado por Gabriel “Bubu” Mayall (guitarra e voz), Gustavo Benjão (guitarra e voz), Marcelo Callado (bateria) e Ricardo Dias Gomes (baixo) – “criado juízo” e aprendido a domar sua aparente loucurinha?

Não exatamente. Primeiro porque a tal anarquia não era tão freestyle quanto podia supor o ouvinte, e sim parte do processo de investigação sonora empregado na composição da banda. Segundo porque “Fodido Demais” é, como disse Benjão ao Scream & Yell, melhor “sintetizado”: a pluralidade da banda está lá. Continuam capazes de combinar Syd Barrett com BRock, psicodelia norte-americana dos anos 80 com indie pop, partido alto. Só passaram a fazê-lo de forma mais coesa, sem os exageros que ora dificultavam a audição integral de “Piracema”.

Isso não quer dizer que não há as dissonâncias de praxe, para o bem e para o mal. No primeiro caso, basta ver como distorcem uma melodia dos Originais do Samba (compare os refrãos de “Minhas Vozes” com o clássico “Se Gritar Pega Ladrão”) para fazer um “partido ao meio”, sua própria leitura do partido alto, ou o samba-canção-folk-rock que é “Metaleiro Vento”. No segundo, tem “Frevo da Razão”, uma desanimada releitura do ritmo pernambucano, com uma participação vocal de Arnaldo Antunes que só aumenta o desconforto da audição, e a repetitiva (e sem graça) brincadeira fonética de “Make Songs”.

De qualquer forma, dois pontos baixos em um disco de dez canções (onze, se contarmos a faixa bônus “One Plus One”) já seria motivo de aplauso. Porém, “Fodido Demais” merece muito mais que aplauso educado. É um disco ousado, atraente e diferente do que se tem feito por aí. É um álbum que promete crescer conforme o tempo passa, mas antes disso é preciso olhar a gênese da criança, e por isso o Scream & Yell realizou a entrevista a seguir com Gustavo Benjão.

Todo mundo que fala sobre “Fodido Demais” – inclusive vocês – aponta o fato de ele estar menos “viagem”. Pra mim, soa como um disco mais pop, dentro da estranheza da banda. O que os levou a “descomplicar” o que se ouvia antes?
Não sei se descomplicar seria o termo… Talvez “sintetizar” caiba melhor. Nesse disco, resolvemos ser mais concisos e fazer um disco que, de certa forma, se opõe ao o que foi o “Piracema”, sem necessariamente jogar abaixo o que construímos como banda no processo do disco anterior. “Piracema” foi um disco fundamental pra gente artisticamente, mas achamos que “Fodido Demais” deveria ser um disco mais direto e conciso, menos contemplativo e mais “complementativo” (sic) no que diz respeito a como vemos o mundo e a vida. A vida de certa forma é um tiro curto, e a modernidade feroz às vezes pede que sejamos mais diretos e contundentes.

Imagino que vocês já tenham respondido isso bastante, mas “Fodido Demais” é no bom ou no mau sentido? (risos) A que(m) o “fodido” se refere?
Depende de onde você está, onde você nasceu… o que o mundo te diz? O “fodido” se refere a nós mesmos e esse mundo a nossa volta. Ele pode ser maravilhosamente fodido de bom em alguns momentos, como poder estar em cima do palco fazendo o que se gosta, mas se você para pra pensar a cultura tá fodida demais… Pensa que um monte de gente não tem acesso a cultura, lazer, educação, saúde e etc nesse mundo, existem milhares de refugiados, tá rolando uma explosão de violência, o crescimento da direita reacionária… você acha que é fodido de bom, ou na verdade estamos fodidos demais? Essa ambiguidade da expressão, quando dita de forma solta, é algo que consideramos muito representativa da condição humana. Mesmo na barbárie completa, teremos a capacidade de fazer arte em cima disso, e talvez isso seja o último resquício de humanidade que vamos ter.

Você e Callado fizeram álbuns solos (“Hardcore Negô” e “Meu Trabalho Han Sollo Vol. II“, respectivamente), bastante diferentes do que é a pegada do Do Amor. De alguma maneira, o feitio desses discos influenciou na realização de “Fodido Demais”?
Talvez tenhamos ganhado alguma experiência na realização dos nossos discos solos, que Ricardo também fez, se me permite a errata (“-11“). Acho que aprendemos de várias formas na nossa carreira, e essa [os álbuns solos] foi mais uma. Pra banda, talvez o processo do “Piracema” tenha sido mais importante do que nossos discos individuais, por exemplo. Mas alguma coisa sempre aprendemos. Talvez tenha sido trabalhar melhor o conceito do disco, já que em nossos trabalhos tivemos que conceituar sozinhos, o que é um puta desafio pra qualquer artista. Trabalhar sozinho é intensidade o tempo inteiro. Na banda, existe um equilíbrio da energia que é pensada e criada, e o exercício é justamente controlar a intensidade das suas ideias pra gerar harmonia.

Uma das coisas que mais surpreende no disco são os timbres. Assim, gostaria de perguntar sobre o processo de composição: para a maioria das bandas, o arranjo é a última coisa a ser definida. Mas a timbragem de vocês é tão peculiar que parece nascer junto com a canção. Confere ou nem?
Confere! Sempre acabamos pensando nos timbres quando vamos levantando as ideias. Pra fazerem sentido, nossas ideias musicais geralmente já vêm com penduricalhos conceituais que podemos ou não aproveitar. No geral, gosto de pensar que a primeira ideia é o ponto de partida. Não obrigatoriamente, mas instintivamente, é em cima dessa ideia que podemos trabalhar os timbres com calma. Se funciona musicalmente, você acaba desenvolvendo o timbre por causa da funcionalidade da ideia no arranjo geral.

“A Lince” é uma das minhas preferidas no disco, e tanto ela como “Make Songs” já estavam no EP “Aperitivo for Destruction”. Por que vocês decidiram inclui-las também no álbum?
Porque não havia porque não incluí-las. Quanto soltamos o EP, tínhamos uma negociação pra lançar o disco primeiramente em Portugal, mas essa ideia não foi pra frente. O EP serviu pra tocarmos por lá com material novo e etc. Colocar as músicas do EP no disco já era a ideia desde o início.

Todos os discos anteriores da banda estão disponíveis para download gratuito. Por que optaram por não fazer o mesmo com esse?
Se as pessoas ainda podem e querem consumir música, por que não vendê-la? A questão é o que vale a pena: podemos não colocar nas plataformas [online], pois talvez a arrecadação não seja representativa, ou vamos disponibilizar logo? Decidimos optar pelo download pago pra ver se vale a pena ou não. Mas a ideia é soltar em breve pra download gratuito em algum lugar e fazer disso uma ação promocional do trabalho, como sempre fizemos.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell. As duas fotos do texto são de Alisson Louback / Divulgação

Leia também:
– Entrevista (2011): Do Amor -> “Poderemos seguir um caminho mais experimental” (aqui)
– Em 2010: Do Amor faz piada, homenageia, diverte. Porém, parece ter perdido o timing. Será? (aqui)
– “Piracema” ainda não é a obra-prima que o Do Amor idealizou, mas reforça competência (aqui)

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