Entrevista: CPM22 (2017)

por Marcos Paulino

Em sua edição de 2015, o Rock in Rio reuniu, em 24 de setembro, atrações como System of a Down, Lamb of God e Queens of the Stone Age. Porém, antes dos astros internacionais, quem subiu ao palco principal foi uma banda que havia sido formada 20 anos antes, em Barueri, e que passeia entre o punk rock e o hardcore. Naquela noite, essa banda realizava um grande sonho. “Ficamos honrados de tocar ali”, conta Badauí, vocalista do CPM22 e único integrante que está no quinteto desde o início, sem qualquer hiato.

O show no Rio deu origem ao terceiro disco ao vivo dos paulistas, que já haviam gravado outros seis álbuns de estúdio. A participação no Rock in Rio, inclusive, atrasou o sétimo álbum de inéditas, “Suor e Sacrifício”, que acaba de ser lançado pela Universal, marcando o retorno do CPM22 a uma gravadora – eles começaram independentes e já haviam sido do cast da Arsenal Music, de Rick Bonadio, até 2009, quando romperam com o selo (que seria comprado pela Universal em 2012) e lançaram o álbum “Depois de um Longo Inverno” (2010) novamente independentes.

Em “Suor e Sacrifício”, Badauí, Luciano Garcia (guitarra), Fernando Sanches (baixo), Phil Fargnoli (guitarra) e Japinha (bateria) apresentam um disco muito bom, que deve permitir que o quinteto continue transitando para além das fronteiras do rock pesado. Nesta entrevista, Badauí faz um balanço dessa trajetória e festeja o momento atual do CPM22: “Conseguimos passar por esse maremoto de mudança de comportamento de quem ouve rock e da mídia em geral. Agora, que estamos na maior gravadora do mundo, a tendência é que as coisas melhorem”.

O CPM22 está completando 22 anos de carreira, marca bastante expressiva pra uma banda de hardcore. A que você atribui essa longevidade?
Quando surgimos, pegamos uma fase em que as bandas de rock eram muito divulgadas na TV e nas rádios, acho que a cabeça era mais aberta. Participamos de muitos programas grandes na televisão, a MTV era muito forte. Conseguimos formar um público muito grande e fiel, muito próximo da banda. Demos sequência, apesar das mudanças do país, da cena, sendo fiel às origens, à nossa identidade, sem nunca mudar o estilo. Por isso ainda temos esse público e boa parte dele vem se renovando.

A banda já oscilou entre fases independentes e outras sob contrato com uma gravadora. Ser independente não compensa?
Quando você já tem um público grande ao seu lado, voltar a ser independente é mais fácil. Mas faz com que a gente tenha que se desdobrar, montar uma equipe pra suprir todo aquele trabalho que a gravadora faz, principalmente a divulgação. Isso tem um custo e você tem que fazer coisas que saem do lado artístico. Conseguimos passar por esse maremoto de mudança de comportamento de quem ouve rock e da mídia em geral, que não dá mais tanto espaço. Agora, que estamos na maior gravadora do mundo, a tendência é que as coisas melhorem.

Vocês já tiveram música em trilha de novela (“Atordoado”, em “Da Cor do Pecado”, da TV Globo), tocaram em vários países e ainda têm espaço em programas menos óbvios pro som do CPM22, como o “Encontro com Fátima Bernardes”. A gravadora é fundamental pra abrir essas portas?
Acho que sim. Se a gravadora respeita a integridade da banda, é importantíssimo contar com ela. O poder de barganha é muito maior, elas têm um cast de artistas inclusive internacionais que atrai o interesse da televisão. Então fica mais fácil de colocar o CPM na TV e nas rádios. Como independente, é mais complicada a negociação, mas mesmo assim fizemos um bom trabalho. Nosso estafe fez um esforço grande pra continuarmos aparecendo como sempre foi.

Pro Lucas Silveira, da Fresno, que como vocês experimentou os dois lados, a gravadora traz muitas vantagens, mas ser independente dá muito mais liberdade pra criar. Mesmo numa grande gravadora, vocês se sentem livres?
Hoje em dia, sim. No novo disco, a gente teve total liberdade, assim como nos outros. Era mais complicado trabalhar na época do Rick (Bonadio, que foi diretor artístico da Arsenal), porque ele tem uma personalidade muito forte. O disco novo a gente fez com o Paul Ralphes, que é da Universal, conhece bem a banda e respeitou muito o que quisemos fazer. Ele trouxe boas ideias na construção do disco, mas nada que interferisse no sentimento das composições. Fomos livres pra trabalhar e produzimos o disco como quisemos, mas sempre abertos pra ouvir novas ideias.

É difícil no Brasil uma banda de rock mais pesado conseguir espaço fora desse segmento específico, e o CPM é uma das exceções. A que você atribui isso?
Acho que porque nossas músicas têm muita melodia. São músicas rápidas, com atitude, postura e conteúdo, mas melódicas, além de cotidianas. Falamos sobre coisas pelas quais qualquer um passa. Mas é difícil explicar, porque há bandas com sonoridade pra isso, mas não conseguem. A gente vem de uma época em que bandas com um som mais pesado, como Charlie Brown Jr. e Raimundos, tinham postura, mas eram mainstream. Aproveitamos ao longo dos anos o que construímos lá no começo, quando tínhamos muito espaço na TV e no rádio.

“Suor e Sacrifício” vem depois de uma das experiências mais marcantes do CPM, que foi tocar no Rock in Rio 2015, abrindo pra grandes bandas. O show inclusive deu origem a um álbum ao vivo. Gravar o novo disco depois de viver algo tão importante trouxe alguma pressão?
Fomos pressionados por nós mesmos, porque fazia um tempo que não lançávamos um disco de inéditas. Tocar no Palco Mundo, no mesmo dia de bandas de peso, traz um know-how muito grande. É um palco muito seletivo e ficamos honrados de tocar ali. Esse disco ao vivo inclusive deu uma atrasada no “Suor e Sacrifício”, que estávamos compondo. Já estávamos bem confiantes pra fazer o disco por conta do clima que está a banda, da formação atual, por estarmos na Universal. Tocar no Rock in Rio deu ainda mais segurança. O disco reflete a fase que estamos vivendo, mais velhos, com uma nova forma de pensar.

Nesta fase mais madura, quais foram as influências da banda pra fazer “Suor e Sacrifício”?
Continuamos bebendo das mesmas fontes. Conseguimos nos expressar bem, fomos fieis ao que ouvimos, o punk rock californiano, toda aquela cena dos anos 90 e 2000. Conseguimos soar mais como uma banda gringa. Mas somos uma banda brasileira, e não tem como não colocar isso nas composições. Só o fato de cantar em português já remete ao Brasil.

Na faixa que tem a participação do Trever Keith, do Face To Face, “Never Going To Be the Same”, vocês cantam em inglês. Não pintou uma vontade de fazer um disco só em inglês?
Já pensei nisso. Falo inglês, mas não domino a língua, e pra compor o buraco é mais embaixo. Mas poderia ser um EP com cinco músicas em inglês, versões de faixas que já gravamos. Isso passa pela nossa cabeça, sim.

Como foi a participação do Trever?
Foi uma honra. O Face To Face é uma das bandas que mais influenciaram a gente, pela sonoridade e pela postura. Demais ele ter participado e ainda mais ter escrito a letra. Isso mostra que hoje ele sabe o que é o CPM e nos respeita. Tenho uma tatuagem da banda dos caras e ele nos trata de igual pra igual. Isso nos enche de orgulho, é uma grande conquista não só pro CPM, porque abre caminho pra outras bandas brasileiras.

Vai ter uma turnê específica do novo disco?
Nosso show vai mudando aos poucos. Por exemplo, já incluímos cinco músicas do disco novo que foram lançadas antes. O show é uma confraternização, tem que tocar músicas de todos os discos.

Nesses 22 anos, são sete discos de estúdio, três ao vivo, cinco DVDs, shows em vários países, programas de rádio e TV. Quando a banda começou, em Barueri, você imaginava que passaria por tudo isso?
Quando você é jovem, sonha. Desde o começo, trabalhamos pra vencer. Mas tocar esse tipo de música no Brasil é muito difícil. Tenho 41 anos, vivo de uma banda de punk rock, fazemos shows super cheios aonde vamos, então sou realizado. Agradeço todo dia pela oportunidade que a gente teve de viver de algo alternativo, por poder me expressar da maneira que eu quero. Batalhamos demais e continuamos trabalhando muito pra que esse legado continue forte. Não é um mar de rosas, passamos por muitas coisas, mas com certeza me sinto realizado.

Marcos Paulino é editor do caderno Plug (www.mundoplug.com), da Gazeta de Limeira.

Leia também:
– CPM22 (2013): “Somos uma banda de punk rock. A identidade e a postura continuam no sangue” (aqui)

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