Boteco: 10 cervejas made in USA

Abrindo uma série de cervejas norte-americanas com a badalada Firestone Walker, cervejaria aberta em 1996 em Paso Robles, na Califórnia, que foi adquirida pela belga Duvel Moortgat em 2015. Lançada pela primeira vez em 2013 e aqui em sua versão 2016 (garrafa 0003 de 4000), a Firestone Walker Stickee Monkee é uma American Strong Ale que utiliza candy sugar belga (em homenagem às famosas Quad) e descansa em velhos barris antes usados para maturar Bourbon. O resultado é uma cerveja de âmbar acastanhada escura com creme bege de média formação e permanência. No nariz, muita sugestão de coco, doçura de caramelo queimado, frutas escuras (uva passa, figo, calda de ameixa) e leve percepção de madeira e Bourbon. Na boca, textura sedosa e picante (de 11.6% de álcool). O primeiro toque oferece doçura deliciosa que logo é caramelada com Bourbon e frutas escuras, de maneira incrível. O amargor é baixo (35 IBUs) e alcoólico. Dai pra frente, frutas escuras, doçura caramelada, madeira, coco e Bourbon. O final é doce e quente. No retrogosto, caramelo, calda de ameixa e felicidade. Uou.

De Miami, na Florida, uma colaborativa novíssima da J. Wakefield Brewing com a RAR Brewing, de Cambridge, Maryland. Lançada em dezembro de 2016, a The Big Show é uma Northeast India Pale Ale, uma cerveja notadamente turva, encorpada e cítrica como se você estivesse bebendo um suco de laranja. No caso da The Big Show, o suco é de goiaba com leite (afinal há adição de lactose na receita), e o resultado é uma cerveja de coloração amarela turva com creme branco espesso de boa formação e média retenção. No nariz, notas cítricas deliciosas remetendo a abacaxi, laranja, manga e goiaba com leve sugestão de pinho na retaguarda. Na boca, textura cremosa, levemente sedosa e picante (de amargor). No primeiro toque, suco de abacaxi com manga e laranja entorpecido por amargor (70 IBUs honrados que ganham apoio dos 7.5% de álcool) no segundo seguinte. Dai em diante, uma American IPA incrível, juicy, que finaliza cítrica, tal qual um suco (acompanhada de um rastrinho de amargor). No retrogosto, goiaba, manga e laranja mais um amargor leve e discreto. Sensacional.

A terceira norte-americana da série com a Founders Kentucky Breakfast Stout, popularmente conhecida no universo cervejeiro como KBS, uma Russian Imperial Stout de 12,4% de teor alcoólico que recebe adição de baunilha e café e passa por maturação em barris de carvalho antes usados para maturar Bourbon. Rótulo mais badalado da Founders, o lançamento da KBS atraia multidões à fábrica da cervejaria que, em 2016, decidiu mudar a estratégia para evitar o caos, e liberou 3 mil tíquetes no site da Founders, que foram disputados por mais de 300 mil pessoas. Ela merece tanto hype assim? Sim, mas vamos começar despejando a cerveja na taça: de coloração castanha bastante escura, quase preta, com creme bege de boa formação e permanência. No nariz, notas incríveis de chocolate, baunilha e Bourbon disputam a atenção do bebedor, com o café aparecendo em segundo plano. Na boca, picância de álcool no início e cremosidade subsequente. O primeiro toque oferece doçura achocolatada suave embalada em Bourbon (quantos corações cabem nessa descrição? Vários!). O amargor é alcoólico e dai pra frente surge um conjunto apaixonantemente dividido entre baunilha, chocolate, café e Bourbon. No final, longo, doçura e Bourbon, que se estendem ao retrogosto com um tiquinho mais de intensidade. Excelente!

A quarta da sequencia vem de Escondido, na Califórnia, casa da badalada Stone Brewing, aqui representada pela Stone Go To IPA, uma Session IPA com lúpulos Citra e Mosaic adicionados apenas no final da fervura proporcionando mais aroma e menos amargor (ainda que 65 IBUs). De coloração amarela levemente turva com creme branco de boa formação e média alta retenção, com direito a rendas ao redor da taça, a Stone Go To IPA exibe um aroma delicioso que flutua entre o cítrico (maracujá, tangerina, manga, grapefruit) e o herbal (pinho) com um leve toque resinoso além de delicado floral. Na boca, a textura é picante. O primeiro toque repete o que brilhante aroma adianta com uma salada de frutas cítricas temperada com notas herbais. O amargor (de 65 IBUs) é limpo e crocante abrindo as portas para um conjunto que sugere refrescancia atolada em sabor. O final é levemente cítrico (com algo de limão siciliano). No retrogosto, herbal e cítrico e felicidade. Boa demais!

Descendo a ladeira, ops, seguindo com a Sam Adams Light, da Boston Beer Company. Trata-se de uma Premium American Lager que custou a cervejaria dois anos de pesquisas e produção para chegar a receita ideal de uma cerveja refrescante e com menos calorias (128 no total). Na receita, malte Two-Row e lúpulo Spalt Spalter Noble. O resultado é uma cerveja de coloração âmbar levemente avermelhada que remete a Vienna Lager na cor. O creme é branco e de boa formação e baixa retenção. No aroma, palidez, ferrugem e quase escondido, caramelo, mas bem sutil. Na boca, levemente frisante. O primeiro toque oferece doçura sutil de caramelo, quase imperceptível, tal qual o amargor, pálido e sem graça. Dai pra frente, uma cerveja sem graça, nem melada, nem amarga, nem nada. O final é esquecível, assim como o retrogosto. Um grande equivoco.

Tentando colocar as coisas nos trilhos com uma Against The Grain, de Louisville, Kentucky, que marca presença aqui com a The Brown Note, lata de arte divertida que embala uma Brown Ale cuja receita une maltes e lúpulos britânicos tradicionais com uma pitada de lúpulo Cascade made in USA. De coloração âmbar escura (marrom translucida) com creme bege de ótima formação e longa retenção, a Against The Grain The Brown Note exibe um aroma que destaca os maltes torrados em sugestões que remetem a café, chocolate amargo, nozes e um tiquinho de caramelo queimado. Na boca, a textura é suave e macia. O primeiro toque replica tudo o que aroma adianta (café chocolate amargo e caramelo queimado), mas com um pouco mais de intensidade. O amargor é torrado e eficiente e abre caminho para um conjunto saboroso, que finaliza mais como café do que como chocolate. No retrogosto, mais café e chocolate. Boa.

Agora sim, de volta aos trilhos com a badalada Crooked Stave Artisan Beer Project, de Denver, no Colorado, aqui representada pela versão outonal de sua elogiada St. Bretta Citrus Wildbier Autumn, uma American Wild Ale que recebe adição de laranja e passa por barris de carvalho que receberam espumante em seu primeiro uso e remete as Saisons belgas tortas da Fantome. De coloração amarela turva com creme branco de excelente formação e longa retenção, a St. Bretta Citrus Wildbier Autumn exibe um aroma com notas cítricas (abacaxi, laranja e limão), especiarias (coentro) e acidez brigando pela atenção do bebedor. Ainda há percepção de feno e couro. Na boca, a textura é menos ácida e frisante do que a expectativa adiantava. O primeiro toque também surpreendeu com cítrico suave que é atropelado segundos depois por uma pancada de acidez, que até aumenta a percepção de amargor (e são só 25 IBUs). Dai pra frente, uma cerveja mais comportada, deliciosamente cítrica, levemente azeda e salgadinha. O final é longo, doce e azedinho. No retrogosto, adstringência, acidez leve e cítrico. Quero uma de cada estação!

Primeira da Oskar Blues Brewery, de Longmont, também no Colorado (assim como a Crooked Stave), a Death By Coconut é uma incrível Irish Porter sazonal (lançada uma vez ao ano) que a casa apelida de choconut, uma mistura danada de chocolate com coco. Na taça, uma cerveja de coloração marrom bastante escura (quase preta) exibe um creme bege de boa formação e média alta retenção. No nariz, notas que remetem a cacau e a coco na mesma intensidade, sem espaço para mais nada. Na boca, textura suave e levemente metálica. O primeiro toque oferece doçura de chocolate envolvida logo na sequencia por coco, e os dois seguem juntos de mãos dadas conquistados corações. Não há amargor, são apenas 25 IBUs que desaparecem diante da potência de chocolate e coco que domina o paladar e aquece a alma (uou). Hehe. O final traz… cacau e coco, assim como o excelente retrogosto. Uma delicia!

Segunda da Founders, de Grand Rapids, no Michigan, nessa série, a Frootwood é uma Fruit Beer Barrel Aged que recebe adição de cerejas e é envelhecida em barricas de carvalho que antes continham Bourbon e Maple Syrup. O resultado é uma cerveja de coloração vermelha com creme branco de baixa formação e média retenção. No nariz, uma confusão de aromas: há bastante mel e caramelo derivados do Maple, madeira presente em segundo plano e, na base, frutas vermelhas buscando atenção. O Bourbon é bem sutil. Na boca, a textura é sedosa, quase licorosa, o que adiante potência alcoólica (8%) e mais presença de Bourbon do que se percebe no aroma. O primeiro toque traz rápida doçura turbinada com frutas vermelhas e envolvida em álcool e Bourbon, sutis, mas facilmente perceptíveis. Há, ainda, percepção de madeira num conjunto bem interessante e variado, que mostra várias facetas durante o percurso. O final é meladinho e amadeirado. No retrogosto, melaço e frutas vermelhas. Boa!

Fechando a série de 10 cervejas norte-americanas com uma belíssima Saison da Goose Island, de Chicago, Halia, que passa pelo processo de envelhecimento em velhos barris de vinho com adição de pêssegos inteiros. Halia significa “lembrança de um ente querido” em havaiano, e foi fabricada em memória de um amigo querido de um dos cervejeiros que amava pêssegos. De coloração dourada com creme branco de média formação e rápida dispersão, a Goose Island Halia exibe um aroma absolutamente espetacular que honra o estilo Saison com as tradicionais sugestões de mofo, chulé e couro acrescidas de vinho branco, azedume, acidez e… pêssego. Na boca, o primeiro toque oferece acético e doce sublimes seguidos de azedume intenso e mofado. A textura é efervescente e o amargor não existe, mas existe acidez e azedume que espancam apaixonadamente o bebedor. Dai pra frente, um conjunto arrebatador que finaliza… azedo e acético. No retrogosto, pêssego, uva verde, acidez e azedume. Amém!

Balanço
Uou! A Firestone Walker Stickee Monkee é sensacional. Aliás, as Firestones estão morando no meu coração ultimamente. Essa é a primeira que consigo trazer aqui pro site, mas tive sonhos com a Parabola por meses depois de experimenta-la duas vezes seguidas na mesma semana. Encare sorrindo. A The Big Show é uma Northeast India Pale Ale que recebe lactose e é uma delícia. Lembra aquelas vitaminas e se isso diminui o drinkabilty não atrapalha o prazer. Baita. Já a popular Founders Kentucky Breakfast Stout, conhecida como KBS, em sua versão 2016, é mais uma Russian Imperial Stout absolutamente incrível. Bote fé no hype. Já a Stone Go To IPA sofre com a parrudez do trio inicial, porque é uma excelente Session IPA, uma das três melhores que bebi na vida, refrescante, cítrica, herbal, na medida. Baixando o nível até o chão, a Sam Adams Light conseguiu surpreender na decepção com uma cerveja absolutamente sem graça. Evite. Já a Against The Grain The Brown Note é daquelas que dá vontade de comprar pelo rotulo, mas o melhor é que a cerveja é uma Brown Ale muito boa, saborosa mesmo. A Crooked Stave St. Bretta Citrus Wildbier Autumn é simplesmente deliciosa, uma American Wild Ale caprichadíssima, que consegue ser arisca sem abdicar do sabor cítrico. Adorei. Uma das grandes cervejas que experimentei em 2017, a Oskar Blues Dearth By Coconut é deliciosa, com chocolate e coco pra dar e vender. Incrível. Já a Founders Frootwood é uma experiência bem interessante e provocante, com frutas vermelhas, álcool, Maple e madeira se alternando na percepção do bebedor. Excelente. Para encerrar com chave de ouro, uma incrível Halia, da Goose Island, uma Saison que passa por barril de vinho com adição de pêssego e que é incrível. Incrivel!

Firestone Walker Stickee Monkee
– Produto: American Strong Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 11.6%
– Nota: 4,41/5

The Big Show
– Produto: Northeast India Pale Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 7.5%
– Nota: 3,99/5

Founders Kentucky Breakfast Stout 2016
– Produto: Russian Imperial Stout
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 12.4%
– Nota: 4,50/5

Stone Go To IPA
– Produto: Session IPA
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 4.8%
– Nota: 3,57/5

Sam Adams Light
– Produto: Premium American Lager
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 4%
– Nota: 1,67/5

Against The Grain The Brown Note
– Produto: Brown Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 5%
– Nota: 3,33/5

Crooked Stave St. Bretta Citrus Wildbier Autumn
– Produto: American Wild Ale
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 5.8%
– Nota: 3,78/5

Oskar Blues Death By Coconut
– Produto: Porter
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 6.5%
– Nota: 3,78/5

Founders Frootwood
– Produto: Fruit Beer
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 8%
– Nota: 3,67/5

Goose Island Halia
– Produto: Saison
– Nacionalidade: EUA
– Graduação alcoólica: 7.9%
– Nota: 4,16/5

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– Top 1001 Cervejas, por Marcelo Costa (aqui)
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