Entrevista: Maria Bacana

por Marcelo Costa

A segunda metade do anos 90 foi meio caótica para o rock nacional, eclipsada pelo sucesso da geração do começo da década (Raimundos, Skank, Planet Hemp, Chico Science & Nação Zumbi, Pato Fu), pelos acústicos MTv da geração anterior (Titãs, Legião, Paralamas, Capital Inicial), pela hegemonia da música sertaneja nas rádios e pela quebradeira econômica, que diminuiu investimentos no rock (e popularizou as fitas demo, tema de um livro de Gabriel Thomaz, ex-Little Quail, atual Autoramas).

Nesse cenário de terra arrasada, o rock continuou sua batalha em vários cantos do Brasil, e um selo indie carioca tentou aglutinar essa cena: comandado por Dado Villa-Lobos (Legião Urbana) e André Muller (Plebe Rude), a Rock It! lançou discos da Pelvs, Low Dream, Comunidade Nin-Jitsu e Sex Beatles, entre outros, além de uma bela coletânea chamada “Brasil Compacto”, que destacava nomes como Eddie, Colarinhos Caóticos, Motorcycle Mama, Tiroteio e… Maria Bacana, que saltaria deste pau de sebo para um disco solo, produzido por Dado e Tom Capone.

“Sete madrugadas e o disco estava pronto”, conta André Mendes, vocalista da Maria Bacana, cujo álbum de estreia lançando pela Rock It! é uma das pérolas escondidas da segunda metade dos anos 90 no rock Brasil. Lançado em 1997, o grande álbum “Maria Bacana”, porém, não obteve espaço no cenário musical cada vez mais complicado do rock Brasil do final dos anos 90, e o trio (completam a formação Lelê no baixo e Macello na bateria) acabou encerrando as atividades – deixando inclusive uma demo pronta de um segundo disco, inédito.

Maria Bacana”, o álbum, completa 20 anos em 2017, e o trio decidiu se reunir para um show comemorativo, que acabou se transformando em algo maior: “Vamos lançar um disco de inéditas 20 anos depois do primeiro”, afirma André Mendes na conversa abaixo, em que ele conta do reencontro com os parceiros, relembra a história da Maria Bacana nos anos 90 (e assume: “Fomos ingratos com quem mais nos ajudou: Dado Villa-Lobos”) e fala do crowdfunding para o segundo disco do trio. Vem coisa boa por ai. Confira o papo!

https://www.catarse.me/mariabacana2017

Como surgiu esse desejo de voltar com a Maria Bacana? Há quanto tempo vocês não tocavam juntos?
O desejo de tocar juntos novamente surgiu há dois anos, na véspera do feriado de páscoa. Eu estava numa ligação com Lelê (baixista da banda) e, conversa vai conversa vem, joguei um “vamos fazer um som?”. Ele se mostrou muito animado. Então liguei pra Macello (baterista), que rapidamente gostou da proposta de um som no estúdio, sem expectativas, só pelo prazer de tocar juntos novamente aquelas musicas que fazem muito parte da nossa vida. Fiz essa ponte e no outro dia estávamos no estúdio nos divertindo. Então fizemos um plano: tocar ao vivo no ano que nosso disco faria 20 anos de lançado, só que os planos cresceram: vamos lançar um disco de inéditas 20 anos depois do primeiro. Nós não tocávamos juntos há mais de 10 anos. Tentamos uma volta da banda em 2005/2006, mas não rolou. Dessa vez o cenário está bem mais claro pra gente: essa banda faz parte das nossas vidas e adoramos tocar juntos, então vamos fazer nossa música principalmente pra gente, pra nossa história pessoal, sem cobranças ou expectativas. E o que rolar além será lucro.

Como foram os primeiros shows após tanto tempo? Como está o relacionamento entre vocês?
Por enquanto só fizemos um show, inclusive um show surpresa anunciado no dia. E foi ótimo, a mesma energia ao vivo. É uma emoção perceber que a química musical entre nós três parece ser inabalável. Nosso relacionamento está melhor que nunca. Existe hoje diálogo e respeito com o limite de cada um. Posso dizer que nunca esteve melhor. É a maturidade, né?

O que rolou na época? Vocês se destacaram nos anos 90 e o Dado foi atrás? Muita gente apostava em vocês e o disco de estreia é sensacional.
Uma breve história da Maria Bacana: tínhamos anteriormente uma banda de heavy metal que cantava em inglês, a Master Brain, e um belo dia eu me revoltei: “Vamos cantar em português! Que coisa ridícula a gente ser brasileiro e cantar em inglês!”. Então passamos para português, mudamos o nome da banda e gravamos uma fita demo. Mandamos essa demo pra todos os selos esperando uma resposta, e a resposta veio à galope: em menos de uma semana, Dado Villa-Lobos ligou pra gente querendo contratar a banda para o seu selo Rock It!. Éramos completamente desconhecidos no Brasil até ali e ele nos contratou única e exclusivamente pela nossa música, que lembrou pra ele o Aborto Elétrico, pela sonoridade e também por causa das letras. Até um trecho em especial chamou atenção dele: em “Caroline” a letra diz: “Você me faz pensar no porquê das coisas”. E uma letra do AE diz: “Você me faz pensar demais”. Bateu um click nele: “Ninguém conhece essa música, não tem como ser um plágio ou uma cópia!”. O Capital Inicial ainda não tinha gravado sua versão e era num momento pré internet. Então bateu a conexão dele com a gente. E também tem um lance importante nesse cenário: vínhamos na contra mão do rock que estava fazendo sucesso naquele momento, pois não falávamos de diversão, maconha e sexo. A primeira vez que tocamos no Rio de Janeiro foi um divisor de águas pra gente. Tocamos no festival Humaitá Pra Peixe e foi inacreditável: MTV cobrindo, gente que ouvíamos (músicos dos Raimundos, do Planet Hemp, Gabriel Thomaz) dizendo que adoraram o show da gente, o empresário da Legião Urbana se oferecendo pra ser nosso empresário, assédio das meninas. Foi algo do tipo: “Uau! eles reconhecem nosso valor! vai rolar! vai rolar!”. Dai gravamos nosso disco nas madrugadas do estúdio AR com produção de Dado e Tom Capone. Sete madrugadas e o disco estava pronto, mas ele levou alguns meses pra sair. Quando saiu, estava claro para nós que a banda estava muito bem retratada naquele disco, com muita verdade. Ponto pros produtores que usaram o estúdio pra registrar o som que a banda tinha, sem inventar muita coisa. Um backing vocal aqui, um violão à mais ali, mas o disco refletiu o que construímos ao longo de um ano de ensaios. Tocamos nos principais festivais da época: Abril Pro Rock, Close Up Planet e muitos outros menores. Tivemos dois clipes que rolavam com certa frequência na MTV. Tudo estava caminhando pra banda acontecer, mas na hora do vamos ver, em que é necessário investimento financeiro, em português claro, jabá, ninguém tinha pra investir. Ficamos chateados com o selo por essa impossibilidade de investimento e pensamos em ir pra outro selo ou gravadora que pudesse nos alçar à voos mais altos. Só que esse segundo selo não apareceu e a Rock It! , percebendo nosso descontentamento e rebelião, apontou a vontade de gravar nosso segundo disco. Nós nos fizemos de mortos e não respondemos à solicitação. Tinhamos ambições que, naquele ponto, entendemos que não conseguiríamos realizar na Rock It! e fomos ingratos com quem mais nos ajudou: Dado Villa-Lobos (história parecida com à saída dos Raimundos do selo Banguela, bem retratado no doc “Sem Dentes”… só que pra eles deu certo!). Aí então a vaca foi pro brejo. Sem selo, sem continuidade, com uma fita demo pro segundo disco gravada que apostávamos muito e que não conseguimos qualquer atenção dos selos e gravadoras que enviamos, o empresário deu tchau e em pouco tempo Lelê deixou a banda. Se fôssemos pouco insistentes, eu e Macello teríamos deixado pra lá e terminado a banda, mas insistimos, tivemos vários baixistas que nunca se encaixavam completamente na Maria Bacana, a química estava quebrada. Foi quando o produtor Rafael Ramos, que uma vez assistiu vibrando um show da gente no gargarejo do Ballroom (RJ), demonstrou interesse em nos levar pra Deck Disc. Pensamos ser a salvação pra nossa carreira. Assinamos e mandamos algumas demos que teve sempre como resposta: “Cadê a Maria Bacana? Cadê aquela banda do disco da Rock It!?”. E aquela banda simplesmente não existia mais. Esse foi o fim da história da Maria Bacana. Bem, hoje sabemos que é o fim da primeira parte da nossa história!

Quais os planos para essa volta? Tá rolando crowdfunding para o segundo disco, certo?
Hoje estamos intensamente felizes com essa nova possibilidade de fazer música juntos. A nossa única expectativa agora é fazer um grande disco, melhor que o primeiro. Quase uma história de redenção, né? Estamos fazendo um crowdfunding para feitura do disco físico, do site e show de lançamento, porque a gravação já está garantida. O amigo e produtor Apu Tude (ex-Úteros em Fúria, banda seminal do rock baiano dos anos 90) nos abriu as portas do estúdio WR pra gravação, temos muito que agradecer esse gesto e essa atenção! Vamos lançar uma coleção de canções que compus especialmente pra banda, musicas 100% inéditas. Inclusive pra gente! Não queríamos requentar alguma música que estivesse na gaveta. Vai ser um disco de uma banda de rock no Brasil louco que vivemos hoje em dia, com um texto que retrata nosso momento, pessoal e coletivo.

Como combinar a carreira solo com a banda? O que os meninos estavam fazendo nesse tempo?
Depois de 6 anos lançando um disco por ano, minha carreira solo está no “pause”. Quando parto para compor para um projeto, meio que foco completamente no que esse projeto pede pra mim como compositor. Enquanto minha carreira solo é “venha ouvir esses musicas que gravo na sala da minha casa”, a música que componho pra Maria Bacana é “amor e agressividade balanceados” com tons altos e refrãos. Musica pra cantar junto. Macello e Lelê se afastaram da música nesse tempo que a Maria Bacana deixou de existir. Macello se dedicou à vida acadêmica e Lelê trabalhou em diversas empresas, inclusive ele está fazendo curso de direito hoje em dia. Mas eu salvei eles dessa vida chata de adulto e trouxe os dois de volta ao rock! rsrsrs

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *