Três discos: Raphael Evangelista, Phillip Long e Igor Amatuzzi

por Leonardo Vinhas

“Orange&Noir”, Raphael Evangelista (Independente)
A metade brasileira do duo Finlandia (a outra é o argentino Mauricio Candussi), Raphael Evangelista é possivelmente o único violoncelista brasileiro a ter um trabalho consistente em um formato mais pop. “Orange&Noir”, seu primeiro álbum solo, foi gestado entre França, Londres e Brasil (o Finlandia é uma das bandas nacionais que mais viaja para o exterior), e as referências europeias são claras neste disco em que o violoncelo e a eletrônica de inspiração vintage são os fios condutores. “Atempo”, o primeiro single, é disparado o melhor resultado da combinação desses elementos, permitindo que o épico e o introspectivo se combinem de forma precisa. No restante do álbum sobressaem os momentos mais tranquilos, especialmente os que exploram o talento dos vocalistas convidados – caso de Hélio Flanders (Vanguart) em “Sobre Coisas de Si” e Moara Ribeiro na faixa título. Em “I Need Some” escutam-se ecos de Thievery Corporation, e “Thai” e “Trompettes Marines” são outros bons momentos instrumentais. “Chillafrica”, por outro lado, desaponta, remetendo àquelas trilhas sonoras que o Globo Repórter usa para mostrar matérias “de natureza”. “Aboio” também é outra ressalva, com muitos elementos disputando atenção. Mas são dois senões entre sete acertos, e o saldo final fica de uma estreia acima da média, que ainda tem o mérito de trazer uma sonoridade praticamente inaudita no Brasil

Nota: 7 (ouça no Soundcloud)

“Frágeis como Flores”, Phillip Long (Independente)
O 11º álbum do paulista Phillip Long é seu primeiro inteiramente em português. Programado para ser lançado em 2016, “Frágeis como Flores” sai só agora, e o prazo estendido parece ter colaborado para que alguns dos melhores arranjos que Long e seu parceiro Eduardo Kusdra conceberam tomassem forma. O uso do idioma nativo também ajuda muito no apelo pop das canções, trazendo o universo de perda e desilusão, com um tantinho de esperança, que costuma aparecer em seus discos. A primeira metade do disco impressiona, com uma sonoridade inspirada diretamente no melhor do pop inglês dos anos 80 e 90 (Smiths, James, as bandas menos ruidosas do britpop). Nessa seara, as três primeiras canções – “Talvez”, “Hoje Tive um Pesadelo” e “Meu Corpo contra o Seu” – se encontram entre as melhores de sua carreira. Pena que na segunda metade o álbum perca fôlego, e traga algumas bolas que passaram longe da rede, como a repetitiva “A Noite Não É de Ninguém” e a piegas faixa-título. De qualquer forma, “Frágeis Como Flores” é um disco que deixa antever o quão inspirado Long pode ser quando deixa a zona de conforto folk e vai atrás de um pop realmente acessível. E a gente sabe que o rapaz não para de produzir, então dá para esperar algo ainda mais interessante para seu 12º disco.

Nota: 6,5

“Cinco Noites e Outros Dias”, Igor Amatuzzi (Independente)
Dependendo de suas referências, Igor Amatuzzi pode ser considerado um dos segredos mais bem guardados da música brasileira ou apenas mais um artista curitibano obscuro. Mas já aviso que fica difícil escolher a segunda opção depois de ouvir com atenção seus trabalhos. “Cinco Noites” foi um EP de cinco faixas lançado em 2015, que agora é compilado junto aos três singles lançados em 2016 e vira esse pacotinho especial para download gratuito em seu site. A sonoridade passa pelas influências de Morphine e Tindersticks, mas também traz ecos das bandas das quais Igor participou, como Iris e OAEOZ. Os sopros continuam sendo uma das marcas mais fortes do seu trabalho, arranjados e executados em um caminho que fica entre o jazz, o AOR e até a tradição instrumental brasileira – definição que vale ainda para muitos de seus ritmos e batidas. O pós-punk e o rock inglês que influenciam “Permanência” fazem dela a única exceção nessa compilação, que traz nos três singles seu ponto forte. O material todo foi gravado com participação de veteranos do underground curitibano (Ivan Santos, da IMOF e ex-OAEOZ; Claudio Pimentel, Marcelo “Lique” França) e também de seus ex-companheiros do Humanish (Tiaguera Nunes, Fabiano Ferronato e Allan Yokohama, os dois últimos também ex-Terminal Guadalupe). Ainda que não seja tão bom quanto “Bizri”, ainda seu melhor trabalho, é um disco que honra a qualidade estabelecida em sua obscura mas digníssima carreira.

Nota: 7 (download gratuito)

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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