Balanção: Festival Mucho! 2017 em SP

Texto por Leonardo Vinhas
Fotos por Helena Brigido

Apesar de ser uma megalópole que atrai todas as nacionalidades, São Paulo não é uma cidade muito habituada a receber eventos musicais focados na integração latino-americana. Claro, há shows de artistas “latinos”, e alguns deles até gozam de público cativo na cidade. Eventos, porém, são raros. O festival Mucho!, que teve sua primeira edição no dia 7 de maio, foi uma dessas exceções, e já nasceu com o objetivo de contribuir para mudar esse panorama de “semi-isolamento”. E como todas as primeiras edições de festival, teve erros e acertos no caminho para atingir seu objetivo.

O lineup incluía pelo menos um artista já bem conhecido entre os fãs locais, a agremiação argentina Kevin Johansen + The Nada. Os uruguaios No Te Va Gustar também tinham seus fãs entre a comunidade uruguaia local (e até alguns brasileiros) enquanto a guatemalteca Gaby Moreno teve o benefício de ter uma música em novela global (“Blues del Mar”, em “Flor do Caribe”) e uma passagem muito elogiada na banda de Hugh Laurie. Já os colombianos do Romperayo eram uma novidade. Havia, por fim, o Francisco, el Hombre – de “Brasil, México e Macondo”, como diz o produtor e jornalista Fernando Rosa, em referência à obra de Gabriel García Marquez, de quem a banda tomou emprestado o nome de um personagem para batizar a si própria.

O Audio, uma casa cuja programação alterna shows dos mais variados com eventos regulares de música eletrônica, foi a sede escolhida. A favor da casa, sua localização (próxima a estação de metrô, trem e ônibus, além de ser em uma zona próxima ao Centro), o agradável misto de jardim e pátio na área externa, e uma ampla pista na qual a vista do palco é favorecida de qualquer lugar onde o espectador se coloque. Mas como nem tudo são flores, é um local que pratica preços abusivos de bar (está bom uma Budweiser a R$ 15? Ou uma limitada carta de drinks mirrados a preço mínimo de R$ 30?) e tem dimensões que dificultam (mas não impossibilitam) uma sonorização adequada se a casa não estiver muito cheia.

E quando o primeiro show começou, às 17h15 (estava marcado para 16h30), era esse o cenário que se via. O domingo estava pleno de opções musicais para os paulistanos: ali na frente, no Parque da Água Branca, Chico César e de Liniker & Os Caramelows tocavam de graça na 2ª Feira da Reforma Agrária; igualmente gratuita era a apresentação de Ryuichi Sakamoto no Parque do Ibirapuera. Tinha ainda a oitava edição do festival Órbita na Casa das Caldeiras, e não fosse o suficiente, a final do campeonato paulista entre Corinthians e Ponte Preta.

Assim, foi compreensível que o Romperayo começasse tocando para pouco mais de 50 pessoas. Só que num salão desenhado para 3000, as consequências para o som são complicadas, e muitos dos enlouquecidos detalhes do trio colombiano se perdiam em graves excessivos e muita reverberação. Vindo, porém, de outras três boas datas em território nacional (duas delas consagratórias: no festival El Mapa de Todos, em Porto Alegre; e na 351, em Curitiba), a banda manteve a tranquilidade e deixou o show rolar. Anunciaram o fim de seu set duas vezes, mas a organização pediu que seguissem, e um número já ampliado de espectadores agradeceu, chegando a arriscar dancinhas aqui e ali. Ao fim, foi um show mediano para o padrão dos colombianos, mas o “mais ou menos” deles ainda é superior ao “melhor” de muita gente por aí.

Encerrados os shows do Parque da Água Branca, e tendo o Corinthians confirmado seu título, o Audio já recebia muito mais gente quando Gaby Moreno subiu ao palco, com direito a gritos de um pequeno (mas notável) grupo de fãs. Acompanhada de um trio de excelentes músicos brasileiros (com quem fez apenas um ensaio!), a carismática cantora guatemalteca começou acústica, passeando rapidamente pelo lado mais folk do seu repertório (“Ave que Emigra” e uma “Fronteras” acelerada e emotiva), e logo adotando a eletricidade para explicitar sua influência de country e western spaghetti, o que incluiu uma versão de “Quizás, Quizás, Quizás” sensivelmente mais “agreste” do que a gravada no álbum “Postales” (2012). Ficou claro desde o início que Gaby é uma cantora de muitos recursos, e sabe principalmente a hora de não usá-los, garantindo que seu vibrato impressionasse sempre que empregado.

O melhor viria com a metade final do show, dedicada ao lado soul da moça. “Nobody to Love” e “Se Apagó”, em especial, vieram encorpadas e encantadoras, em versões tão exatas que nem deu para sentir falta dos belos arranjos de estúdio. No meio disso tudo, “Blues del Mar”, mesmo sendo a “música da novela”, passou como um momento menor. O fato é que, com apenas nove canções, Gaby Moreno logrou um dos shows para se lembrar desse 2017.

A pista lotada confirmava que a Francisco, El Hombre era a atração principal do festival, e o medley inicial – que junta uma versão mais sincopada de “Soltasbruxa” com “Calor da Rua” e “Meu Maracatu Pesa uma Tonelada” (da Nação Zumbi) – estabeleceu o estado de festa que percorreu toda a apresentação. O som – que esteve impecável durante a apresentação de Gaby Moreno – voltaria a apresentar problemas: a guitarra de Andrei Martinez Kozyreff soava baixa, e faltava pressão de um modo geral, tirando parte do punch que o quinteto consegue criar. Mesmo assim, impuseram um pique quase punk às suas canções, mesmo as mais delicadas, como “Sincero” e “Como Una Flor”. Com a energia bruta e o clima de “pogo dançante”, engrossaram o caldo musical que a mesa de som tentava afinar, e honraram sua condição de “headliners de facto”. De novidade, as participações da paulista Paula Cavalciuk em “Triste, Louca ou Má” e do pernambucano Tagore em “Bolso Nada”. Foi uma apresentação menos emotiva que a do El Mapa de Todos, em Porto Alegre, porém mais pesada e festiva.

Assim como o Romperayo, os integrantes da Francisco falaram bastante sobre o festival ser importante para a integração latino-americano e para apresentar música nova a quem estiver disposto. Uma bandeira bonita e justa para ser levantada. Pena que depois deles vieram o No Te Va Gustar. Se há uma palavra precisa para definir a banda, essa é “linear” – e isso não é necessariamente algo bom. O NTVG é o maior nome pop de seu país, e essa popularidade foi construída em cima de clichês pop rock, reggaezinho tchaca-tchaca, romantismo de novela global e a estampa de galã do líder Emiliano Brancciari. Tal popularidade atraiu muitos de seus conterrâneos, que não economizavam nas demonstrações de comoção (bandeiras nacionais, garotas subindo nos ombros de seus companheiros, pais levando as crianças para a frente do palco). Mas popularidade não é sinônimo de qualidade ou consistência, e é curioso notar como uma banda com nove integrantes consegue fazer um som tão óbvio e aguado, soando como uma espécie de Dire Straits em fim de carreira misturado com o Roupa Nova.

A banda segurou ali sua parcela fiel do público – até demais, estourando em quase 20 minutos o tempo de sua apresentação, e aumentando o atraso do festival. Assim, houve uma dispersão considerável dos espectadores, muitos dos quais optaram por ir embora ao constatar que seria difícil conseguir comer por ali. Havia apenas três fornecedores de comida presentes: um carrinho de arepas colombianas, e dois food trucks – um de churros e outro de choripán. Esse último já havia esgotado seu estoque antes que o show da Francisco chegasse ao fim, e as arepas, única opção de comida salgada, estavam demorando mais de 20 minutos para serem servidas, devido à grande demanda.

Com o frio, a queda de adrenalina provocada pela trupe uruguaia e o entardecer da hora (lembre-se: era um domingo), restavam apenas cerca de um terço do público para o show de Kevin Johansen + The Nada. Entraram com “Es Como el Día”, faixa de trabalho de seu álbum “Mis Americas”, mas problemas no retorno e no microfone levaram o frontman a se queixar bruscamente ao fim da canção (“Vamos ter que tocar de novo, ela não pode soar ruim assim”), e sua bronca com a equipe de som continuaria por mais três canções, chegando a incluir uma rima improvisada para puxar a orelha de um dos técnicos. O constrangimento e as queixas do headliner espantaram mais um pouco do público, mas quem venceu o começo antipático viu um ótimo show, com versões bem superiores aos registros de estúdio. No palco, a The Nada traz uma intensidade inaudita em estúdio, graças principalmente ao baterista Zurdo Roizner, que sabe pesar a mão quando necessário, sem deixar que seus 77 anos (!) o impeçam.

Deixada (parte) da bronca de lado, Johansen mostrou-se mais simpático, chamando fãs para dançarem “Cumbia Intelectual” no palco, brincando com o público em portunhol e apresentando cada canção com uma breve e divertida explicação. Ainda assim, nas últimas canções já não restavam nem 200 pessoas na casa. Problemas de som e No Te Va Gustar à parte, o saldo final do Mucho! são três shows muito bons e um excelente (Gaby Moreno). Foi uma amostra bastante relevante do pop de inspiração latino-americana, com pelo menos três artistas (Francisco, El Hombre, Kevin Johansen e Romperayo) que criam pontes musicais entre as culturas do continente.

O que é necessário ajustar com maior urgência é a vocação do evento, se é apenas apresentar artistas latino-americanos, ou se é de fato ser um festival que promova a integração. A “feira gastronômica” de culinárias típicas, que foi anunciada na divulgação do evento, restringiu-se às opções já listadas aqui. Com a duração de metade de um dia, como foi essa primeira edição, é importante ter mais variedade, a preços acessíveis e com entrega mais rápida, preferencialmente com as bebidas (alcoólicas ou não) comercializadas por valores justos – ninguém espera pagar preço de supermercado, mas pagar R$ 10 por uma lata de refrigerante é descabido para um festival que se propõe familiar. Também vale repensar os cuidados com a sonorização e com os horários.

“Festival só passa a existir de verdade depois da quinta edição; até lá, é tentativa e erro”, costuma dizer Fernando Rosa, organizador do El Mapa de Todos. O Mucho! tem potencial para se firmar como um evento de porte no cenário latino-americano. Sua primeira edição confirmou que há, sim, público interessado em algo do tipo. Oxalá venham as próximas quatro, para que ele se firme no cenário e abra caminho para novas iniciativas do tipo.

– Leonardo Vinhas (@leovinhas) assina a seção Conexão Latina (aqui) no Scream & Yell.

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