Três discos: Pessoal da Nasa, G T’Aime e Posada

por Renan Guerra

“Testamento”, Pessoal da Nasa (Toca Discos)
“Testamento” é a estreia da banda carioca Pessoal da Nasa, que leva esse humor do nome para suas canções, composições pop que giram em torno dos 3 minutos e que carregam riffs realmente bons, criando um rock de qualidade e bom para dançar, do tipo que ouviríamos nas rádios se ainda vivêssemos nos anos 90. O Pessoal da Nasa se comunica com o rock dos Vespas Mandarinas (em seus melhores momentos) e do Selvagens à Procura da Lei, criando músicas que conseguem captar aquela diversão incrustada no peso do rock. “Testamento” não é um disco inovador ou diferente, mas é até envolvente; são menos de 40 minutos de canções afiadas e uma produção caprichada – o disco foi produzido por Tomás Magno no estúdio Toca do Bandido. O ponto é que depois de inúmeras audições, o disco parece não crescer nem ter grande fôlego para uma longa vida, isto é, soa divertido no início, mas completamente esquecível a longo prazo, o que é uma pena.

Nota: 5

“G T’Aime”, G T’Aime (Joia Moderna)
G T’Aime é a dupla formada por Geanine Marques (modelo, musa de Alexandre Herchcovitch e ex-integrante da banda Stop Play Moon) e seu namorado Rodrigo Belotto. G Taime é o modo de Geanine assinar seus e-mails, já que é chamada pelos íntimos de Gê. Cantando canções folk em inglês, a dupla compôs quase todas as faixas no modelo voz e violão, porém a produção de Mauricio Takara, do Hutmold, trouxe outras camadas ao trabalho que foi gravado em 2016 e lançado no início de 2017. “G T’Aime” é um disco que caminha na contramão da atual música brasileira: ele é mais soturno, empoeirado, cinza. É como se enquanto todos estivessem descendo para o litoral, a dupla preferisse ficar batendo perna no centro de São Paulo. A voz de Geanine carrega uma sedução, algo que nos remete a Jane Birkin ou mesmo Nico, em sua soturnez, portanto é fácil se deixar levar por suas lamentações românticas e seus versos hipnóticos. Há bons momentos como nas ótimas “Said It All” e “Cherry” ou ainda na bilíngue “Oh No”, delicadas canções que credenciam essa estreia. Por isso, por favor, dê atenção ao G T’Aime, pois este bom registro do duo corre o risco de ser mais um disco interessante perdido num mar de não-ouvintes. Não deixe isso acontecer.

Nota: 7 (ouça no Soundcloud)

“Isabel”, Posada (Coqueiro Verde)
Ao primeiro play é impossível ficar imune a voz de Carlos Posada: forte, intensa, quase lúgubre. Pernambucano radicado no Rio de Janeiro, “Isabel” é seu segundo disco, mas mesmo assim serve como cartão de visitas para um artista que ainda não teve seu merecido reconhecimento. Gravado por gente como Aíla, Duda Brack e Brunno Monteiro, suas canções recebem contornos únicos em sua voz e em meio aos violões naturalistas que habitam o disco. Chega a ser curioso como o álbum se comunica com vários cantos do Brasil: há uma força sertaneja que lembra Siba e a Fuloresta do Samba, as cordas lembram os momentos mais intensos de Almir Sater e há uma entrega que remete aos cantores nativistas do Rio Grande do Sul, como Luiz Marenco. Mesmo assim, Posada navega por outros ares, que trazem uma universalidade e complexidade a sua música, fazendo de “Isabel” um disco que cresce e que se desdobra em minúcias a cada nova audição. “Remoendo” traz a voz poderosa de Duda Brack; já “Efeitos Especiais” conta com a participação de Chico Chico (nome artístico do filho de Cássia Eller); “Aguais”, por sua vez, é uma faixa instrumental que mescla viola caipira, violão de nylon e violão barítono. “Isabel”, no final das contas, é um disco a ser ouvido com atenção, a ser desvendado, com potencial para estilhaçar o ouvinte por inteiro.

Nota: 8,5 (ouça no Soundcloud)

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites A Escotilha e Scream & Yell.

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