Nublu Jazz Festival São Paulo 2017

Texto e fotos por Marcelo Costa

Durante quatro dias (mágicos) do mês de abril, o Sesc Pompeia recebeu em sua Comedoria (antiga – politicamente incorreta – Choperia) a sétima edição brasileira do Nublu Jazz Festival, surgido em Nova York em 2002. Neste ano, o evento promovia uma interessante fusão de estranhezas nacionais com o crème de la crème do jazz, funk e spoken word gringo. Quem conseguiu vencer a sempre concorrida corrida por ingressos do Sesc viu, com certeza, alguns fortes concorrentes a shows do ano nessa pobre terra golpeada chamada Brasil.

DIA 1 – QUINTA

A feliz tarefa de introduzir o público no Nublu Jazz Festival Brasil 2017 coube ao (power) trio Sambas do Absurdo, que pouca gente ainda conhece com esse nome, ainda que seja fruto da reunião de três músicos badalados da cena indie samba torto paulistana: a cantora Juçara Marçal mais Gui Amabis e Rodrigo Campos. De todos os projetos que envolvem essa “turma”, o Sambas do Absurdo é o menos absurdo musicalmente, e ainda que a temática seja inspirada em “O Mito de Sísifo”, de Camus, a palavra lirismo, Vinicius e delicadeza permearam a boa apresentação do trio (disco tá chegando logo mais).

Na sequencia, o Cymande, formado no Reino Unido no começo dos 70 por músicos da Guiana, Jamaica e São Vicente, fizeram um dos shows mais good vibe dos últimos tempos nas terras cinzas de São Paulo. Repetindo o bordão “estamos aqui para trazer a ‘mensagem’. Preste atenção!”, o divertido guitarrista Patrick Patterson simboliza o apreço funk do grupo, que fez a plateia sacolejar ao som de canções como “The Message” e “Bra” (“Olha as paixões morrendo, mas tudo bem, ainda podemos seguir em frente”, diz o refrão), do álbum de estreia de 1972, assim como canções mais novas como “Crazy Game”, de 2005, (sobre “as coisas estranhas que estão acontecendo no mundo”, explicou Patrick), num show que colocou sorrisos na alma dos presentes.

DIA 2 – SEXTA

Projeto do baterista Sergio Machado (Criolo, Metá Metá, Tulipa Ruiz), o Plim subiu ao palco do Nublu com a deliciosa tarefa de entortar o cérebro da velha guarda jazzística presente para ver os lendários The Cookers mais tarde. Experimentalíssimo, Sergio Machado com seu Plim (que lançou o álbum “Floresta” em 2016 – download gratuito no site oficial) recebeu primeiro Kiko Dinucci para um esporro guitarreiro, e depois Tulipa Ruiz e Thiago França, que honraram o clima experimental da noite. Acompanhado ainda de um trio de metais, mais guitarra e programação, Sergio Machado terminou o show sozinho no palco improvisando na bateria sobre trilhas sonoras num show (difícil) que cumpriu a expectativa de provocar o público.

Quando tinha 9 anos, Eddie Henderson (o último da foto acima) aprendeu a tocar trompete com Louis Armstrong. Logo depois, aos 16, ele acompanhou Miles Davis num ensaio em que também estava John Coltrane e decidiu que queria ser músico de jazz. Aos 77 anos, Eddie é um dos nomes experientes do The Cookers (que ainda conta com o poderoso baterista Billy Hart, de 77 anos, e o habilidoso Cecil McBee, que continua comandando o baixolão aos 82 anos). Todo esse conhecimento de hard bop foi aplicado pelo septeto The Cookers na plateia do Sesc Pompeia, que, hipnotizada, flutuou ao som de “Croquet Ballet”, “The Core” e “Slippin’ and Slidin’” seguindo o pique dos “velhinhos”, que não queriam abandonar o palco de maneira alguma – o show acabou às 0h40!

DIA 03 – SÁBADO

Na entrada do Sesc Pompeia, o comentário geral era: o que esperar do show de Saul Williams? Se alguém arriscasse falar “um dos shows do ano” seria recebido com incredulidade, com toda certeza, mas não é que o cara deixou a plateia (mais “jovem” – os grisalhos ficaram sentados no fundo esperando a grande atração da noite, e perderam um puta show) absolutamente extasiada com uma apresentação absolutamente irrepreensível? Quem estava lá é prova: esbanjando um português mais afiado que os tradicionais “obrigado”, Saul (acompanhado de DJ e telão) decidiu o set na hora (“Burundi”, “Roach Eggs”, “List of Demands”, entre outras), improvisou no meio da galera, cantou “Polícia”, dos Titãs, exibiu um #ForaTemer no telão e fez um daqueles shows políticos que continuam ecoando na cabeça dias depois. Absolutamente brilhante.

Embaixador do jazz atual chocando a reverência ao jazz clássico dos anos 70 com scratch, vocalizações, momentos r&b e quase house (Miles sorri), Kamasi Washington e sua banda espetacular (dois bateristas descendo o cacete no kit, um baixista afiado, um mestre na percussão – que sofreu com o calor da choperia e precisou abandonar o show no meio –, uma grande cantora, mais teclado, scratch e metais, sendo que um deles nas mãos de seu próprio pai) fez um show elegante e dançante promovendo um daqueles raros momentos de comunhão entre banda e plateia: todos sorriam felizes. A vocalista Patrice Quinn brilhou num dos grandes momentos da noite (e do ano), o doloroso miolo de “Malcolm’s Theme”, música de Terence Blanchard com letra dela e de Kamasi sobre Malcolm X: “Afro-American was Malcolm, a master of words”. Até aqui (abril), show do ano no Brasil (conselho, Pete Townshend: ressuscita o Keith Moon, senão sem chance).

Kamasi Washington ainda voltou ao Sesc Pompeia no domingo para encantar a plateia em um segundo show fechando o Nublu Jazz Festival 2017. Quem teve a sorte de acompanhar os três dias do evento no Sesc Pompeia viu algum dos melhores shows do primeiro semestre em São Paulo – os quatro shows gringos encabeçam o meu Top 5 pessoal mesmo após Lollapalooza, que teve uma porção de bons shows, mas nada que boa parte do público vá lembrar em 2038 – ao contrário dessa apresentação do Kamasi, que deverá permanecer na memória por anos e anos. Com uma curadoria cuidadosa, o Nublu chegou ao sétimo ano de sua história mostrando que está no auge trazendo ao Brasil nomes de ponta do jazz e funk mundial. Que siga assim!

– Marcelo Costa (@screamyell) é editor do Scream & Yell e assina a Calmantes com Champagne. Os vídeos acima são obra de Rodolfo Yuzo e Rafael Andres. Saca o canal deles no Youtube.

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