Três CDs portugueses: Bowie 70, Manuel Fúria e Duquesa

por Pedro Salgado, de Lisboa

“Bowie 70”, Vários (Sony Music Portugal)
O tributo “Bowie 70” resultou da vontade de David Fonseca em reunir vários músicos portugueses para celebrar os 70 anos de David Bowie, relendo alguns temas marcantes do artista inglês. Inicialmente, Fonseca (que toca todos os instrumentos e assina uma versão de “Lazarus” no álbum) pretendia que não fosse adulterada a essência das canções. Esse princípio é respeitado no disco e as versões alternam entre registros próximos dos originais e algumas releituras mais inovadoras, baseadas em diferentes conceitos interpretativos. Um dos méritos do trabalho é o enquadramento de cada canção com a personalidade dos convidados, gerando contrastes sonoros que definem o legado musical de Bowie. A abordagem romântica de Tiago Bettencourt a “Absolute Beginners”, a pegada fadista de “Space Oddity”, por Camané e a originalidade interpretativa de António Zambujo em “Life On Mars?” são os momentos mais brilhantes de um álbum que cumpre o seu objetivo, dignificando a obra de David Bowie.

Nota: 7,5

Veja também:
– Em vídeo, David Fonseca responde perguntas de sites brasileiros (Scream & Yell incluso) (aqui)
– Um seleção especial com 11 momentos em vídeo emocionantes de David Bowie (aqui)

“Viva Fúria”, Manuel Fúria & os Náufragos (Sony Music Portugal)
No disco anterior, “Manuel Fúria Contempla os Lírios do Campo”, de 2013, Manuel Fúria apostou em canções épicas, refletindo o cansaço urbano e a tentativa de encontrar o silêncio na terra natal. “Viva Fúria”, pelo contrário, apresenta uma sonoridade mais direta, alternando o rock e o pop dos anos 80 com temas intimistas, nos quais Manuel revisita as suas memórias pessoais e musicais. A evolução das letras e o aprimoramento da componente rítmica comprovam a vontade de Manuel Fúria se renovar musicalmente sem alterar a sua identidade. “Cala-te e Dança” (com influências dos Smiths) tal como a contagiante “20.000 Naves” representam os momentos de maior eficácia pop e o número final, “Canção Infinita”, propõe uma síntese emotiva do álbum. “Viva Fúria” é um disco com vários pontos de interesse e confirma o bom regresso de Manuel Fúria.

Nota: 8

Veja também:
– Entrevista (2013): “Pretendo ser mais popular”, diz Manuel Fúria ao Scream & Yell (aqui)

“Norte Litoral”, Duquesa (Lovers & Lollypops)
Duquesa é o alter-ego musical de Nuno Rodrigues (vocalista e guitarrista da banda The Glockenwise, de Barcelos, no distrito de Braga). “Norte Litoral”, o segundo álbum do projeto, afasta-se do imaginário adolescente e veraneante do disco homônimo de estreia, propondo uma abordagem desencantada ao amor e à vida. Outra característica do álbum é a sua variedade sonora, que contempla o pop dos anos 80 e alguns temas melancólicos bem interpretados vocal e instrumentalmente. A sensual “Better Men” e a colorida “Shape and Size” destacam-se pela intensidade emocional desenvolvida pelo músico e na faixa-título (cantada em português), Nuno evoca a sua região natal (no norte de Portugal) conciliando o universalismo temático com letras poéticas. Revelando maior inspiração, “Norte Litoral” é um disco comovente, no qual Nuno Rodrigues harmonizou os seus diferentes estados de espírito.

Nota: 8

Veja também:
– Conheça a Lovers & Lollypops, selo fundado em 2006 que conta com mais de 70 discos lançados (aqui)

– Pedro Salgado (siga @woorman) é jornalista, reside em Lisboa e colabora com o Scream & Yell contando novidades da música de Portugal. Veja outras entrevistas de Pedro Salgado aqui.

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