As verdadeiras Rainhas do Rock n’ Roll

por Guilherme Olhier

O mundo da música e principalmente do rock n’ roll sempre foi machista, isso é fato. Na época do seu surgimento, nos anos 50, a sociedade no geral era machista e racista, principalmente nos Estados Unidos, com a segregação racial e é claro que isso respingou na música, onde os artistas negros tinham muito mais dificuldades de ter o seu lugar ao sol e muito menos exposição se comparados aos artistas brancos.

Chuck Berry e Little Richard foram os dois principais artistas negros do gênero, e tiveram muito menos mídia que Elvis Presley, The Rolling Stones e Beatles, por exemplo. No caso das mulheres, a coisa fica ainda mais complicada, pois esse era um tempo em que a mulher era vista exclusivamente como uma fiel “cuidadora do marido trabalhador”, o estereótipo perfeito de “bela, recatada e do lar”.

Mas como em toda regra há suas exceções, houve sim algumas mulheres que desafiaram a norma vigente e foram extremamente importantes para o desenvolvimento e crescimento da mulher, não só no rock n’roll e no blues, mas na história da música como um todo. Eis aqui uma homenagem àquelas que serviram de inspiração para toda uma geração posterior de artistas femininas com histórias pra nenhuma riot grrrl botar defeito.

Sister Rosetta Tharpe

Muito antes de Angus Young e Tony Iommi, Rosetta Nubin (nome de batismo), nos anos 30/40, já empunhava sua Gibson SG branca e foi forte inspiração para diversos rockers da época seguinte, incluindo Chuck Berry, Little Richard, Jerry Lee Lewis e Elvis Presley. Não à toa que, mesmo que sua imagem seja também muito ligada ao gospel, é chamada de “Madrinha do Rock n’ Roll” e “The First Badass Female Guitarist of Rock ‘n’ Roll”.

Little Richard chegou a afirmar que Tharpe era a sua cantora preferida durante a infância e em 1947 a roqueira ouviu Richard cantar antes de um show dela no Macon City Auditorium, no estado da Geórgia, Estados Unidos, e o convidou mais tarde juntar-se a ela em uma apresentação, sendo essa a primeira do músico fora da igreja. Após o show, Richard recebeu o seu primeiro pagamento, o que lhe inspirou a ser um artista.

Ainda em 1938, Rosetta gravou grandes singles pela Decca Records, e o mais notório deles foi “Rock Me”, que causou grande furor na crítica da época, se tornando um hit instantâneo. Ao mesmo tempo em que sua música era revolucionária, era também muito controversa, pois misturava as letras da música gospel com artistas de blues e guitarra elétrica, o que causou um certo desconforto na comunidade gospel. Se hoje em dia as habilidades com a guitarra infelizmente ainda estão muito atreladas à masculinidade, no começo dos anos 40 então, nem se fale. Tharpe desafiou esse conceito e mostrou que não só poderia “tocar como um homem” como inclusive muito melhor.

Em 1944, ela gravou um single que é considerado por muitos o primeiro disco de rock n’roll da história chamado “Strange Things Happening Every Day”, se tornando um grande hit a entrar na “race records”, um top list que mais tarde se tornaria o Harlem Hit Parade da revista Billboard. Tharpe continuou se apresentando até o ano de 1970, quando teve um infarto e faleceu três anos depois, devido às complicações por conta de diabetes, após de ter tido uma das pernas amputadas. O reconhecimento tardio veio quase 20 anos depois, quando o serviço de correios americano lançou um selo em sua homenagem, em 1998, e apenas em 2007 ela foi incluída postumamente no Blues Hall of Fame.

Big Mama Thornton

Willie Mae Thornton nasceu no Alabama em 1926 e começou cedo na carreira musical. Após a morte precoce da mãe, ela largou a escola e arrumou um emprego de lavadora de pratos. Mais tarde, já em 1940 teve a ajuda de “Diamond Teeth” Mary, que já se apresentava desde o início do século e era meia irmã de Bessie Smith, outro grande nome na história do blues feminino. Mary tinha esse apelido por ter colocado diamantes de um bracelete nos dentes da frente.

Voltando à história de Big Mama, sua carreira começou a deslanchar depois de assinar um contrato com a Peacock Records em 1951 e no ano seguinte se apresentar no famoso Apollo Theater. Ainda em 1952, gravou o seu maior hit “Hound Dog”, lançado em Março de 1953, chegando a vender 500 mil cópias e ficando durante sete semanas no topo das paradas de RnB da Billboard. O sucesso só não foi maior porque três anos depois Elvis Presley fez uma regravação da música mudando a letra e ofuscando a versão original. A música seria regravada por mais de 250 vezes e incluída posteriormente na lista das “500 Músicas que Moldaram o Rock n’Roll”, do Rock n Roll Hall of Fame.

Outro grande sucesso de Big Mama foi “Ball And Chain”, gravada em 1961, mas lançada apenas sete anos depois, em 1968. A música se tornou um dos maiores hits da Big Brother and The Holding Company na voz de Janis Joplin, que era uma grande fã do trabalho da cantora. Segundo o guitarrista da Big Brother, James Gurley, Janis ouviu a música pela primeira vez durante uma apresentação de Big Mama em um bar de São Francisco e a partir daí a banda resolveu transformar a música, apresentando-a pela primeira vez no Monterey Pop Festival, em 1967. Como o primeiro dia de festival não foi gravado e o sucesso da música tinha sido enorme, eles voltaram a tocá-la no dia seguinte.

Em 1966, Big Mama gravou o seu segundo e ótimo álbum “Big Mama Thornton with the Muddy Waters Blues Band”, com um time de peso incluindo, é claro, Muddy Waters (guitarra), James Cotton (gaita), Otis Spann (piano), Luther “Guitar Junior” Johnson (baixo) e Francis Clay (bateria). Com 17 faixas, o disco é um petardo do começo ao fim e inclui grandes músicas como “Black Rat” e “Big Mama’s Shuffle”, esta que traz um “duelo” de gaita entre Mama e James Cotton.

Três anos mais tarde, em 1969, Thornton assinou um novo contrato com a Mercury Records, o que a possibilitou realizar um sonho antigo de gravar um álbum gospel, que sairia apenas em 1973. “Saved” trazia grandes clássicos da música gospel como “Oh Happy Day”, “Glory, Glory Hallelujah” e “Swing Low Sweat Chariot”.

Ainda no começo dos anos 70, mesmo já um pouco debilitada por conta do alcoolismo, se apresentou no Newport Jazz Festival com Muddy Waters e B.B King, apresentação que foi gravada e lançada com o nome de “The Blues—A Real Summit Meeting”, pela Buddha Records. Thornton continuou a se apresentar até 1980 e faleceu em 25 de Julho de 1984, aos 57 anos, devido a problemas no coração e no fígado por conta do abuso da bebida. No mesmo ano foi incluída no Blues Hall of Fame e sua influência e importância na história da música americana é um consenso, mesmo que nunca tenha ganhado o devido reconhecimento por sua obra.

Bessie Smith

Conhecida como a “Imperatriz do Blues”, Bessie Smith nasceu em 15 de abril de 1894, no Tennessee e foi a maior cantora de blues da década de 20 e início da década de 30. Sua carreira começou no início dos anos 20, mais precisamente em 1923, quando começou a gravar na Columbia Records, tendo como seu primeiro hit “Downhearted Blues”, que chegou a vender impressionantes 2 milhões de cópias, sendo 780 mil apenas nos seis primeiros meses de lançamento.

Na época as gravações ainda eram feitas de forma acústica e sua primeira gravação elétrica foi em 1925 com “Cake Walking Babies [From Home]”. A partir de então ela passou a também figurar nas rádios, inclusive nas estações segregadas do sul dos Estados Unidos.

Smith fez 160 gravações na Columbia, entre as mais importantes “St Louis Blues”, acompanhada por um dos maiores nomes da época, Louis Armstrong, e “Nobody Knows When You’re Down and Out”. Essa última ganhou ares proféticos, já que foi lançada em 13 de Setembro de 1929, duas semanas antes da maior queda e consequentemente quebra da bolsa de Wall Street, o que desencadearia nos 12 anos da Grande Depressão norte-americana. Aliás, a crise econômica foi um grande fator negativo na carreira de Smith, que apesar disso continuou se apresentando até o início dos anos 30, na era do Swing.

Smith morreu em um acidente de carro em 26 de Setembro de 1937 e que traz uma história muito controversa e nebulosa. Enquanto viajava com seu amante Richard Morgan pela autoestrada Route 61, entre Memphis, Tennessee e Clarksdale, Mississippi, Morgan supostamente tentou desviar de um caminhão, atingindo-o em cheio. Smith sofreu graves ferimentos e Morgan saiu ileso.

Um cirurgião de Memphis, Dr. Hugh Smith, foi um dos primeiros a chegar ao local do acidente junto com seu companheiro de pesca Henry Broughton. Após arrastá-la até o acostamento, Smith examinou a cantora no local e constatou apenas ferimentos leves na cabeça, constatando que a causa da sua morte se deu por conta das lesões graves que esmagaram todo o lado direito de Bessie.

Broughton caminhou até uma casa que ficava a 500 metros do local do acidente para chamar uma ambulância. Retornou após 25 minutos e sem sinal de nenhuma ambulância, Dr. Smith sugeriu que a levassem até um hospital em Clarksdale. Quando estavam prestes a colocar a cantora no banco traseiro, os dois ouviram um carro se aproximando em alta velocidade e Smith piscou os faróis em sinal de alerta, mas o carro se chocou com o do médico. O casal que estava no carro não se feriu e uma ambulância chegou logo depois do segundo acidente. Logo depois, uma segunda ambulância chegou ao local, esta que havia sido chamada pelo motorista do caminhão.

Bessie Smith foi levada para o hospital afro-americano em Clarksdale onde teve o seu braço direito amputado e morreu naquele mesmo dia. Após sua morte, surgiram rumores que de ela havia morrido por não ter sido admitida no hospital exclusivo para brancos na mesma cidade. Questionado sobre o boato, Dr. Smith afirmou na época que ela nunca teria sido levada para um “hospital para brancos”. Seu túmulo ficou em branco até agosto de 1970, quando foi erguida uma nova lápide paga por Janis Joplin e Juanita Green, que havia trabalhado como faxineira para Smith quando criança.

É claro que outros grandes nomes na mesma época também tiveram uma enorme importância na música como Alberta Hunter, Etta James, Mamie Smith, Ma Rainey e Koko Taylor, para citar algumas. Todas essas mulheres com histórias de luta e talento na música sem dúvida rendem um livro e devem ser sempre lembradas, tanto pela coragem de enfrentar uma indústria fonográfica machista e também por inspirar muitos outros grandes nomes até os dias atuais.

– Guilherme Olhier (@guilhermeolhier) é, segundo descrição no Twitter, um jornalista saudosista

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