Balanço do Oscar 2017

por Marcelo Costa

Acabou acontecendo no Oscar aquilo que alguns esperavam (editor do Scream & Yell incluso), ainda que de uma maneira extremamente inusitada: “Moonlight” literalmente tirou das mãos de “La La Land” o Oscar de Melhor Filme após uma pataquada da organização, que entregou à Faye Dunaway e Warren Beatty o envelope errado. Warren olhou o nome de Emma Stone, que havia acabado de deixar o palco com a estatueta de Melhor Atriz e ficou estático. Faye olhou apenas o “La La Land” e anunciou, mas a correria se fez para que o verdadeiro vencedor saísse consagrado da cerimônia: “Moonlight”.

O corretinho “La La Land” levou o que tinha que levar, seis estatuetas, incluindo o merecido Melhor Diretor para o jovem Damien Chazelle, mais Trilha Sonora, Design de Produção, Canção (“City of Stars”), o duvidoso Melhor Fotografia e também atriz para Emma Stone, o único dos Oscars que o filme recebeu que realmente estragou a noite. Não que Emma não esteja bem no filme (ela está!), mas ela não era páreo para Isabelle Huppert, esplendorosa em “Elle”, o que mais uma vez prova o natural umbiguismo da premiação, que remete direto ao ano em que Gwyneth “Shakespeare Apaixonado” Paltrow “tirou” o Oscar que deveria ser Fernanda Montenegro, sensacional em “Central do Brasil”, em 1999.

Nas demais categorias, poucas surpresas: Casey Affleck venceu o hype de “La La Land” e saiu com um dos dois Oscars para o tristíssimo “Manchester à Beira Mar” (que também derrubou o filme de Damien em Roteiro Original). Mahershala Ali agarrou a estatueta de Ator Coadjuvante numa categoria bastante equilibrada (qualquer um dos cinco merecia). Viola Davis, uma das barbadas da noite, confirmou o favoritismo por sua grande atuação no (exageradamente) teatral “Um Limite Entre Nós”. Em Roteiro Adaptado deu “Moonlight”, merecido. No quesito documentário em longa metragem, (a série) “O.J.: Made in America” levou.

Na já tradicional melhor categoria da premiação (onde se encontram os melhores filmes do ano – junto com Melhor Roteiro), a de Melhor Filme Estrangeiro, o iraniano “O Apartamento” levou… e boicotou a premiação em resposta às decisões equivocadas do presidente Donald Trump. O bom (até os 42 minutos do segundo do tempo) “Até o Último Homem”, de Mel Gibson, faturou duas estatuetas, Melhor Montagem e Melhor Mixagem de Som – a sensação, aliás, é de que Mel inverteu “Soldado Ryan” colocando a parte dramática no começo o impacto da guerra depois. Funcionou muito (mas não precisava crucificar o filme).

Outro grande hype da temporada, “A Chegada” (que ganhou em Melhor Filme aqui no Scream & Yell), ficou apenas com uma estatueta, a de Edição de Som, e com um dos melhores tuites da noite: “Se eu fosse alienígena, também viria a Terra para conversar com a Amy Adams”, escreveu alguém. Apenas sim. O saldo ficou com “La La Land” levando 6 Oscars pra casa enquanto “Moonlight” saiu com 3. “Manchester” e “Até o Último Homem” saíram com 2 Oscars cada. No geral, uma premiação mediana para um ano bem dos medianos. Porém basta lembrar que “Shakespeare Apaixonado” levou 7 estatuetas em 1999 e sorrir. Vamos dançar? 🙂

Dessa leva 2016 do Oscar, foco nos estrangeiros: do dinamarquês “Land of Mine” (um dos melhores filmes da temporada coloca “Até o Último Homem” no bolso), o alemão “Toni Erdmann” (que vai ganhar remake made in USA, mas veja o exótico original antes), o francês “Elle” (Isabelle, Isabelle), o sueco fofo “Ove”, o excelente iraniano “O Apartamento” (preste atenção às rachaduras) e o sensacional “O Lagosta” (além do espanhol “Julieta”, do coreano “A Criada” e do brasileiro “Aquarius”, ignorados). Entre os made in USA, privilegie “Manchester”, “Moonlight” e “Capitão Fantástico”, “A 13ª Emenda” (produção Netflix), “20th Century Women” e “A Qualquer Custo”.

Os premiados do Oscar 2017
– Melhor Filme – “Moonlight”
– Melhor Diretor: Damien Chazelle – “La La Land”
– Melhor Atriz: Emma Stone – “La La Land”
– Melhor Ator: Casey Affleck – “Manchester à Beira-Mar”
– Melhor Ator Coadjuvante: “Mahershala Ali – “Moonlight”
– Melhor Atriz Coadjuvante: Viola Davis – “Um Limite Entre Nós”
– Melhor Roteiro Original: “Manchester à Beira-Mar”
– Melhor Roteiro Adaptado:”Moonlight”
– Melhor Animação: “Zootopia”
– Melhor Doc em Curta-Metragem: “Os Capacetes Brancos”
– Melhor Doc em Longa-Metragem: “O.J.: Made in America”
– Melhor Longa Estrangeiro: “O Apartamento” (Irã)
– Melhor Curta-Metragem: “Sing”
– Melhor Curta em Animação: “Piper”
– Melhor Canção Original: “City of Stars”, de “La La Land”
– Melhor Fotografia: “La La Land”
– Melhor Figurino: “Animais Fantásticos e Onde Habitam”
– Melhor Maquiagem e Cabelo: “Esquadrão Suicida”
– Melhor Mixagem de Som: “Até o Último Homem”
– Melhor Edição de Som: “A Chegada”
– Melhores Efeitos Visuais: “Mogli: O Menino Lobo”
– Melhor Design de Produção: “La La Land”
– Melhor Montagem: “Até o Último Homem”
– Melhor Trilha Sonora: “La La Land”

Oscar 2016
– Absolutamente dolorido, “Manchester-by-the-Sea” é uma pequena joia de sofrimento (aqui)
– O medo é apenas um detalhe que faz de “Moonlight” em um dos grandes filmes do ano (aqui)
– Delicado em sua brutalidade, “Capitão Fantástico” oferece muito mais do que se vê na tela (aqui)
– Tom Ford carrega a mão no estilismo em “Animais Noturnos”. Filme podia ir mais longe (aqui)
– “A Qualquer Custo” fuça as entranhas do sonho americano destroçado pelo capitalismo (aqui)
– “O Lagosta” é daquelas obras sublimes que vão arrebatar o coração de gatos pingados (aqui)
– O sueco “Um Homem Chamado Ove” é um filme bonito e delicado (aqui)
– Apesar das arestas pontudas, “Toni Erdmann” é uma pequena joia cinematográfica (aqui)
– O brilhante “Campo de Minas” versa sobre humanidade em 101 minutos de suspense (aqui)
– “Dr. Estranho” vai muito além da deliciosa sensação escapista de ver o relógio correr (aqui)
– “Animais Fantásticos e Onde Habitam”: o futuro das franquias está aqui (aqui)
– “A Chegada” é ficção científica das boas, digna de figurar entre as melhores do gênero (aqui)
–  Asghar Farhadi  conduz a trama de “O Apartamento” com delicadeza e genialidade (aqui)

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