Música: “Delírio de Um Romance a Céu Aberto”, Zé Manoel

por Renan Guerra

Um dos nomes bastante elogiados da nova cena musical nacional, o compositor, cantor e pianista pernambucano Zé Manoel ganhou no final de 2016 um songbook organizado pelo DJ Zé Pedro e lançado por sua própria gravadora, a Jóia Moderna. Em “Delírio de Um Romance a Céu Aberto”, a jovem carreira de Zé Manoel – que até então havia editado apenas dois álbuns: “Zé Manoel”, de 2012; e “Canção e Silêncio”, de 2015 – é revista por nomes como Fafá de Belém, Ana Carolina, Ná Ozzetti, Arthur Nogueira, Elba Ramalho e Juçara Marçal, entre outros, que pinçaram oito canções dos dois álbuns do músico pernambucano – três faixas inéditas completam o lançamento.

A ideia primordial de Zé Pedro ao fazer um songbook de um autor que tinha apenas dois discos era chamar atenção para uma figura ímpar, de poesia arrebatadora, de composição detalhista e de inteligência soberba. O trabalho de Zé Manoel usa dessas camadas de complexidade para criar um universo mínimo, delicado, com a força de um compositor que parece alheio a sua geração, como que perdido no espaço-tempo – Zé estudou piano clássico desde a infância e é graduado em música pela UFPE.

“Delírio de Um Romance a Céu Aberto” reúne cantores de distintas épocas e gêneros, dando luz a versatilidade e força das composições de Zé. Acompanhados apenas do piano, a voz de cantoras como Ná Ozzetti, Elba Ramalho e Fafá de Belém dá o tom minimalista do trabalho, que deixa a complexidade e os caminhos tortuosos apenas para as canções em si. Canções mesmo, com a força que a palavra merece: pequenas histórias de dor, desamor e encantos; tratados com início, meio e fim; composições de uma escola que já não se vê na música brasileira há no mínimo uns 30 anos. Zé Manoel, seja sozinho ou acompanhado de outros letristas, consegue criar canções quase cinematográficas, que refazem cenas, criam cenários e fazem o ouvinte adentrar em territórios cotidianos com um olhar poético que ressignifica aquilo que acreditamos.

Songbooks costumam manter certa irregularidade, porém há um fio condutor aqui que alinhava tudo de forma delicada; cada artista encontra o tom que as faixas merecem, evitando arroubos ou exageros vocais. Fafá de Belém abre o disco com a inédita e suntuosa “Aconteceu Outra Vez”, faixa de interpretação romântica, que traz luz novamente a verve clássica da voz da cantora. Elba Ramalho surge em seu terreno usual em “Sol das Lavadeiras”, faixa de caráter interiorano e histórico que abria o primeiro disco de Zé Manoel. Já o jovem Ayrton Montarroyos carrega na dor e no sotaque em “Deixar Partir”, faixa de densidade poética avassaladora – Ayrton, que já participou do The Voice Brasil, entrega aqui uma interpretação certeira, que cria expectativas para o lançamento de seu primeiro disco, que deve sair ainda em 2017.

Ana Carolina é certamente a maior surpresa do disco. De posse de “Canção e Silêncio” – faixa que já havia sido gravada por Filipe Catto –, Ana surpreende pela delicadeza e simplicidade. Os eternos arroubos vocais da cantora e todo o exagero que ela utiliza em suas interpretações são deixados de lado e é belo ver que ela pode se despir disso tudo, para aquela que é uma das faixas mais belas de Zé Manoel. Na sequência, Celia canta “Cada Vez Que Digo Adeus” – faixa que se comunica com “Every Time We Say Goodbye”, de Cole Porter – e Tiganá Santana canta “Valsa da Ilusão”, duas faixas que aqui soam como “clássicos perdidos”, daqueles que parecem pérolas encontradas em discos antigos.

“Volta Pra Casa” se torna um apelo apaixonado na voz suave de Ná Ozzetti. Já “Nós Que Nos Conhecemos Num Navio”, a segunda faixa inédita, ganha interpretação poderosa na voz de Amelinha. Arthur Nogueira dá tons soturnos e ainda mais eruditos a “Motivo Número 2”, faixa de caráter dubiamente sexual, que poderia muito bem estar em algum dos discos do cantor paraense. “Água Doce”, por sua vez, ganha vida na voz de Juçara Marçal, que aqui aparece despida de todas as experimentações nas quais a cantora esteve envolvida nos últimos anos: sóbria, límpida como a água.

É entre dicotomias que se alinhava o disco: água doce – água marinha; interior – urbano; união – separação; clássico – moderno. Por isso mesmo, depois de passear por inúmeras vozes e composições dos dois discos de Zé, é na faixa final, a terceira e última inédita do álbum, e que dá título ao disco, que a voz dele surge. Composta por Zé e com letra de Vanessa da Mata, “Delírio de Um Romance a Céu Aberto” é a única faixa mais robusta, trazendo cordas ao lado do piano, criando um encerramento sublime para este que já surge como um disco fundamental na carreira de Zé Manoel.

Além das canções, vale se destacar o interessante material gráfico criado por Gabriel Martins, que foge completamente de qualquer clichê e não remete em nada as capas dos songbooks de bambambãs da MPB. Em um fundo rosa, delicados signos remetem a cenários e espaços onde as canções habitam, porém a arte da capa não se fecha em si mesma, ela propõe outras leituras, outros caminhos, reiterando esse caráter de apresentar Zé ao mundo e deixá-lo ir, para assim ser compreendido por todos.

Zé Manoel é afoito ao epíteto de “cantor romântico”, por isso mesmo o trabalho realizado aqui pela Joia Moderna consegue fixá-lo como um poeta observador, um compositor detalhista e um artista desses que pouco vemos nestes tempos e, por isso tudo, assumindo seu caráter naturalmente romântico. De delicadeza extrema, “Delírio de Um Romance a Céu Aberto” pode soar careta demais para alguns, mas é em seu olhar erudito que o álbum acerta o popular, criando uma obra que respira e canta o Brasil de forma universal e atemporal. Este é um daqueles discos para se ouvir com atenção, em silêncio total.

Renan Guerra é jornalista e colabora com o sites You! Me! Dancing! e Scream & Yell.

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