Três HQs: “Pokémon Red Green Blue”, “Pássaros Artificiais” e “Astronauta: Assimetria”

por Lucas Vieira

“Pokémon Red Green Blue #2”, de Hidenori Kusaka e Mato (Panini)
Em 2014, a Panini iniciou a publicação de “Pokémon Adventures” no Brasil. A escolha foi começar a série pelo volume 43, onde se passa a história dos jogos Black & White, a então geração mais recente. Com o hype de Pokémon Go, que voltou o foco para as 151 primeiras criaturas, a empresa resolveu voltar ao primeiro volume do mangá, na fase baseada nos jogos Red, Blue e Green. Para quem ainda é acostumado com a história de Ash e aquela baboseira do anime que passava na Eliana, pode se assustar com a qualidade do enredo do quadrinho. Vemos Red, o protagonista, evoluir a cada história, assim como seus Pokémon. Temos uma Equipe Rocket com objetivos concretos, violenta, e não dois incompetentes que tentam roubar um rato. Quem jogou os primeiros títulos, lançados para o Game Boy na segunda metade dos anos 1990, vai reconhecer bem a trama, totalmente baseada no jogo. O que pode eventualmente incomodar jogadores na HQ é a tradução do nome dos golpes – uma nota de tradução nesses momentos seria simples e ideal. No segundo volume do mangá – que deveria ser lançado mensalmente, ao invés da desnecessária tiragem bimestral – encontramos pontos que fazem a edição se tornar como o “filme do meio”: Red já está com um time bem treinado, os conflitos com os Rockets se acirram e vemos Blue (o Gary do desenho) sendo o personagem que gostaríamos de ser: ele é o arquétipo do anti-herói, surfa em um Golduck e tem os melhores monstros. Também vemos surgir Green, uma personagem feminina então exclusiva da revista e que tem grande importância nos eventos. O segundo número tem o essencial para te deixar ansioso e ler a conclusão da saga, que virá no volume três. Se você ama Pokémon a leitura é essencial, pois são as melhores histórias baseadas na franquia. Se sua lembrança vem da eterna busca do garoto que quer ser um mestre, se permita ler um mangá de qualidade e faça dele um detox daquele personagem que vinte anos depois continua tendo dez anos de idade.

Nota: 7,5

“Pássaros Artificiais”, de Diego Aguiar e Antonio Éder (Independente)
Imagine uma história sem começo, sem meio, sem fim. Você pode lê-la em qualquer ordem, misturar as páginas e isso não vai comprometer a leitura. Parece impossível? Em “Pássaros Artificiais” não existe impossível. Ambientada em Macuco, um município no interior do norte do Rio de Janeiro, morte e vida, começo e fim, real e virtual são pequenos detalhes nas 32 páginas do primeiro álbum de Diego Aguiar. Com tiragem de 100 cópias, a obra vem em embalagem especial: as folhas soltas dentro de um envelope de papel pardo com linda arte de Antonio Eder, junto de uma página datilografada exclusiva de um romance que pode ser lido online pelos compradores dessa edição. No verso das páginas comentários, citações, trechos de outros projetos do autor, opiniões. Com traço caricato, que é a única coisa com algum teor infantil na obra, Eder ilustra um momento que se passa entre a morte de um grande escritor, seu funeral e a busca de sua neta pela obra perdida do parente. É uma jornada de autoconhecimento para os personagens e para o leitor, um novo começo. Ao lado dela, um jornalista e grande fã do falecido demostra o mesmo interesse e em um ponto se assemelha ao astronauta da música “Dois Mil e Um” (Tom Zé e Rita Lee) – nasceu sem ter idade. Com muitos questionamentos, delírios e muita metalinguagem a um universo que o autor está construindo, não será difícil se pegar procurando a verdadeira ordem da história ou tentando entender o que aconteceu, onde e quando. Em uma página um personagem pode estar trabalhando feliz e na seguinte morto ou em profunda depressão. Uma dica: não se atenha ao tempo ou espaço, eles não são importantes aqui. Pássaros Artificiais é uma afronta ao lugar comum, ao marasmo, a linearidade e, como não poderia deixar de ser, à moral e aos bons costumes. Uma leitura que diverte – quem nunca quis jogar as páginas de uma revista tal qual um sorteio de cartas dos Trapalhões? – confunde, nos causa uma estranha empatia e, sem dúvida, desafina o coro dos contentes.

Nota: 8 (http://passarosartificiais.blogspot.com.br)

“Astronauta: Assimetria”, de Danilo Beiruth (Graphic MSP)
O inseguro Astronauta foi o escolhido para inaugurar a já celebrada série Graphic MSP. Com “Magnetar”, Danilo Beyruth causou um grande furor e recebeu diversos prêmios. Em seguida veio “Singularidade”, bem diferente do primeiro volume. Se antes vimos o viajante enfrentando a si mesmo, o inimigo era outro e tínhamos uma nave tripulada. Agora “Assimetria” traz novidades na mesma fórmula. Astro continua agindo como quem foge de situações mal resolvidas, interrompe suas férias e parte em missão com espírito de explorador. Porém, a narrativa muda de rumo, sendo direcionada para um clima de ação e aventura. O começo da história dá uma sensação de imprecisão quanto à idade do protagonista: ele veste roupas casuais e está com um All Star nos pés, mas tem aparência de um homem de mais de 30 anos. Estaria ele em uma crise de meia idade? É uma hipótese. As cores estão lindas. O contraste de laranja e azul do traje espacial dá a tônica da paleta, que também puxa muito a atenção para o verde, presente na capa e no clímax da história. O ritmo é o comum na coleção: talvez pela fluidez ou pelo número de páginas, chega um ponto em que parece que tudo ocorreu muito rápido. Como é uma temática espacial, com ar de sci-fi, o autor aproveita para explorar um clichê: realidades paralelas. Nesse ponto notamos claras reportações às histórias de Stan Lee e Jack Kirby dos anos 1960. Não é difícil supor referências a Galactus, ao Quarteto Fantástico e ao Surfista Prateado. E, como não poderia faltar, também encontramos os bons e velhos easter eggs de personagens de Maurício de Sousa. Assimetria trouxe algo inédito nas Graphic MSPs: é a primeira que não funciona realmente como uma graphic novel, uma história fechada. No final, ficam pontas abertas que deixam claro que o próximo número será um Assimetria 2, vindo ou não com esse nome. O álbum continua carregando uma frustração que para os exigentes vai ser um spoiler: permanecemos sem saber o que se passa no estranho amor de Astronauta e Ritinha.

Nota: 8,5

– Lucas Vieira (Facebook) está no último período da faculdade de jornalismo, escreve sobre música desde 2010 e assina o blog Dizconauta

Leia também:
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– “Laços”, dos irmãos Vitor e Lu Cafaggi, faz releitura emocional e delicada (aqui)
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– Entrevista com Sidney Gusman: “Tem quadrinhos para todos os gostos” (aqui)

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