George Michael, o Último Popstar

por Marco Antonio Barbosa

Não vai haver outro popstar como George Michael. Não é que o (enorme) talento do cantor, falecido no último Natal, seja insuperável, ou que seu (gigantesco) carisma seja imbatível. É que a música pop de hoje não comporta mais a figura arquetípica do popstar que George Michael representava à perfeição. O inglês foi o último dos astros pop feitos ao molde tradicional. Depois dele, alguns outros tentaram, mas ninguém chegou nem perto do nível de acerto que ele atingiu ao aperfeiçoar a fórmula.

Quando se fala no termo “popstar arquetípico”, refiro-me a um tipo de entertainer surgido antes da era do rock’n’roll e que dispensava as complexidades e contradições inerentes ao rock pós-Bob Dylan. O popstar arquetípico almeja o congraçamento, a união de todos os públicos, a música como expressão não de uma “verdade artística” individual, mas sim como fator de diversão e inclusão. O popstar arquetípico não está aí para causar questionamentos: ele quer despertar emoções. Quer divertir, excitar, levar às lágrimas, incitar extravasamentos. Seu talento se concentra em criar a forma mais eficaz de conexão e de comunicação direta com o público — e quanto maior o público, melhor. Isso se cristaliza na criação de uma persona na qual visual, discurso e sex-appeal têm, no mínimo, a mesma importância que a música. O popstar arquetípico quer ter algo a oferecer a todo mundo. E quando ele consegue, amigo, sai de baixo. Frank Sinatra era um desses. O Elvis pós-Exército também. Elton John. Paul McCartney pós-Beatles. Julio Iglesias. Michael Jackson. Por aqui, Roberto Carlos e Lulu Santos são exemplos óbvios.

George Michael era um desses, e um dos exemplos mais bem acabados do arquétipo. Ele representava muitas coisas diferentes para muitos públicos diferentes. Era o poster-boy das adolescentes oitentistas, a Grande Esperança Branca™ do pop noventista, o ícone involuntário da liberação gay, o crooner de infinitos motéis e táxis sintonizados na rádio Antena 1. Mas cada um desses George Michaels era construído na cabeça do(s) público(s); ele mesmo era um só. Cada um que fizesse dele o que quisesse. Ele só pedia, como no título de seu melhor álbum, que todo mundo o escutasse sem preconceitos. Bonitão, sarado e com a imensa máquina da Columbia Records a apoia-lo, George Michael faria sucesso mesmo se não tivesse talento. Mas tinha — e por isso é que fez TANTO sucesso.

Como todo popstar arquetípico, George Michael parecia não esforçar nem um pouco para criar clássicos instantâneos que soavam familiares e novos em folha ao mesmo tempo. Era assim com o power pop de plástico de “I’m Your Man”, com a sacarose na dose exata de “Last Christmas”, com o melodrama definitivo de “Careless Whisper” e “Father Figure”, com o sacolejo obsceno de “Freeek!”, “I Want Your Sex” e “Too Funky”, com a incrível recriação de “As”, com as lágrimas sinceras de “Jesus to a Child”, com a fisgada na batida-da-selva de Bo Diddley em “Faith”, com o croonerismo classudo de “Kissing a Fool”. Listen Without Prejudice, seu álbum de 1990, nasceu antológico: tudo na medida certa, canções preciosas como “Praying for Time”, “Cowboys and Angels”, “Heal the Pain” e “Waiting for the Day” complementando a definitiva “Freedom 90” (que clipe, que letra, que levada, quantas noites em pistas de dança por aí afora!). Condensando soul, rock, funk, pop clássico e r’n’b, é o tipo de produto altamente sofisticado e instantaneamente acessível que só os melhores popstars arquetípicos conseguem criar.

Não vai haver outro popstar como George Michael porque não há mais espaço para popstars como ele. A falência do modelo antigo das gravadoras contribui para isso, claro. Mas, acima de tudo, a figura do popstar inclusivo, que almeja falar com todos os públicos de forma descomplicada, está fora de moda. Vivemos uma era de problematização incessante de todo tipo de questão de identidade e o mainstream pop não escapa dessa realidade. Quer queiram, quer não, astros pop como Lady Gaga, Beyoncé, Drake, Kanye West, Sam Smith e Adele não são apenas astros pop: são discutidos à luz do que representam dentro dos debates sobre feminismo, negritude, sexismo, homossexualidade. E eles sabem disso. Não que inexistam artistas que almejem pairar sobre (ou sob) isso tudo e se contentem apenas em divertir o público: Robbie Williams é um exemplo óbvio. Mas a unidimensionalidade desse tipo de astro hoje parece quase ofensiva, reacionária.

Talvez George Michael tenha sacado essa mudança nos tempos, durante a acidentada metade final de sua carreira. Não há mais lugar para astros que querem “apenas” agradar aos 6 bilhões de habitantes da Terra. Ao menos, ele chegou bem perto disso.

– Marco Antonio Bart (@bartbarbosa) é jornalista e músico. Conheça o projeto Borealis, que já conta com dois álbuns: “Borealis” (2015) e “Post Solis” (2016)

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